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30/08/2008

Krugman: republicanos parecem ser insensíveis à dor

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Minha primeira reação ao discurso de Bill Clinton na convenção foi de puro ciúme profissional: ninguém, ninguém mesmo, tem a habilidade dele de traduzir o lengalenga econômico em inglês simples e claro. Na prática, Clinton forneceu um resumo executivo do novo relatório do Censo sobre a renda, pobreza e seguro saúde - mas o fez de forma tão eloqüente, tão impecável, que não transmitiu a sensação de estar dando uma palestra à sua platéia.

Minha segunda reação foi de que no discurso de Clinton - assim como os discursos de Hillary Clinton e de Joe Biden (esta coluna foi escrita antes de Barack Obama falar na noite de quinta-feira) - foi possível ouvir a diferença fundamental entre os dois partidos. Os democratas dizem e, até onde posso dizer, realmente acreditam que os trabalhadores americanos estão levando a pior; os republicanos, apesar das tentativas ocasionais de soar solidários, basicamente acreditam que as pessoas não têm motivos para se queixar.

Mas na prática os números apóiam os democratas.

O relatório do Censo dá um retrato do status econômico das famílias americanas em 2007 - isto é, antes do início da crise financeira começar a arrastar a economia para baixo e a taxa de desemprego para cima. É certo que 2008 será muito pior, de forma que o ano passado não foi dos piores nos anos Bush. Mas os americanos em idade de trabalho tiveram uma renda média significativamente pior em 2007 do que em 2000. (Os idosos, cuja renda é sustentada pelo Seguro Social - o programa que o governo Bush tentou mata r- obtiveram ganhos modestos.) Enquanto isso, a pobreza está em alta, a cobertura de saúde - especialmente os planos de saúde fornecidos pelo empregador do qual dependem a maioria dos americanos de classe média - está em queda.

Mas os republicanos, incluindo John McCain e seus assessores, não acreditam que há um problema.

O ex-senador Phil Gramm ganhou as manchetes, e renunciou como co-diretor da campanha de McCain, após descrever os Estados Unidos como "um país de chorões". Mas quão diferente foi esse comentário da declaração do próprio McCain, de que "ocorreu grande progresso econômico" - progresso que está misteriosamente invisível nos dados de fato - durante os anos Bush? E Gramm, segundo todos os relatos, continua sendo um conselheiro econômico-chave de McCain.

Na semana passada, John Goodman, uma figura influente nos círculos de saúde republicanos, explicou que não deveríamos nos preocupar com o crescente número de americanos sem plano de saúde, porque não existe pessoa sem cobertura. Afinal, sempre é possível receber tratamento em um pronto-socorro.

E Goodman - ele é o presidente do Centro Nacional para Análise de Políticas, um importante centro de estudos conservador, e freqüentemente descrito como o "pai das contas de poupança de saúde", um elemento central da política do governo Bush para a saúde - quer que o próximo presidente emita uma ordem executiva proibindo o Census Bureau (o departamento de estatísticas americano) de classificar qualquer um como sendo sem cobertura de saúde. "Voilá" ele diz. "Problema resolvido."

Mas a verdade, é claro, é que visitar um pronto-socorro em uma crise médica não substitui o atendimento regular. Além disso, apesar do hospital tratar você independentemente de poder ou não pagar, ele cobrará - e a conta não será descartada a menos que você seja um indivíduo carente. Como resultado, os trabalhadores americanos sem plano de saúde evitam os pronto-socorros o máximo possível, porque temem o custo potencial: despesas médicas são a principal causa de falência pessoal.

Goodman se descreveu no passado, inclusive em um artigo de opinião para o "The Wall Street Journal", como um conselheiro da campanha de McCain em política de saúde. A campanha agora alega que ele não é um conselheiro. Mas é uma boa aposta que o círculo interno de McCain compartilhe os pontos de vista de Goodman.

Como você pode ver, a afirmação de Goodman de que a falta de plano de saúde não é um problema repete precisamente o que o presidente Bush disse há um ano: "As pessoas têm acesso a atendimento de saúde na América. Afinal, basta ir a um pronto-socorro". Isso ocorre porque ambos - assim como Gramm - simplesmente estavam dizendo em público o que os republicanos modernos dizem quando conversam uns com os outros. Apesar das tentativas de fingir solidariedade, os atuais líderes do Partido Republicano sentem fundamentalmente que os americanos que se queixam de suas dificuldades econômicas e de atendimento de saúde são, bem, apenas um bando de chorões.

E isso, no final, mais do que suas políticas propostas, é o que define a diferença entre os partidos.

É verdade que os democratas eleitos freqüentemente são cautelosos demais - e devedores demais a grandes doadores - para serem tão progressistas quanto os ativistas do partido gostariam. Mas mesmo diante de um Congresso republicano, Clinton teve sucesso em aprovar políticas como o Programa de Seguro Saúde da Criança, que ajudou muito as famílias trabalhadoras.

E o que é possível ver no outro lado é uma falta total de empatia e compreensão em relação aos problemas enfrentados pelos trabalhadores americanos. Clinton, famosamente, sentiu nossa dor. Os republicanos, de forma manifesta, não. E é difícil consertar um problema se você nem mesmo acredita que ele exista. George El Khouri Andolfato

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