UOL Notícias Internacional
 

02/09/2008

Krugman: John, não vá

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
É um vento ruim que não faz bem a ninguém. Três anos depois do furacão Katrina, outra tempestade está se dirigindo para a Costa do Golfo - e isto deu uma desculpa para os republicanos cancelarem a aparição do presidente Bush em sua convenção nacional. O partido pode assim evitar recordar os eleitores de que o último homem que colocaram na Casa Branca fez um trabalho tão excelente que lhe rendeu os maiores índices de reprovação já registrados.

Em vez disso, Bush está brincando de comandante-em-chefe. Na manhã de domingo, o site da Casa Branca exibia fotos do presidente conversando com os governadores dos Estados do Golfo a respeito do Furacão Gustav e segurando de forma ostensiva uma pasta vermelha rotulada de "Confidencial". Na segunda-feira, em vez de falar na convenção, relatos sugerem que Bush poderá se dirigir à nação sobre a tempestade.

E uma reportagem no site Politico.com sugere que John McCain poderia fazer um discurso "da zona de devastação, se a tempestade atingir a costa americana com a ferocidade temida pelos previsores".

O que há de errado neste quadro?

Vamos começar pela pasta vermelha. Presumindo que a pasta contivesse algo além de papel para descarte, uma resposta planejada a um furacão é um segredo de Estado? Nós tememos que tempestades tropicais possam descobrir nossos pontos fracos? Nós estamos travando a Guerra Global contra o Clima?

Na verdade, isso não é tão engraçado quanto soa. Alguns observadores apontaram que os briefings diários sobre os preparativos para o Gustav, que deveriam ser enviados pela Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema) - supostamente aquela que deveria cuidar da gestão de emergências- estão vindo do Comando do Norte militar americano.

Não é difícil entender o motivo. Os principais cargos na Fema não são mais ocupados por companheiros políticos, medíocres e desqualificados. Mas um recente relatório do inspetor geral do Departamento de Segurança Interna disse que a agência conseguiu apenas "progresso limitado" na área de "atribuição de missões" - isto é, em sua habilidade de coordenar a resposta a uma crise. Então a Fema ainda não está à altura de exercer sua tarefa principal.

Isso não é por acaso. A degradação da Fema, de uma das agências mais admiradas do governo a motivo de piada, não foi um evento isolado; foi o resultado da filosofia do Partido Republicano. Colocando de forma simples, quando o governo é dirigido por um partido político comprometido com a crença de que o governo é sempre o problema, nunca a solução, esta crença tende a se tornar uma profecia que cumpre a si mesma. As prioridades-chave são negligenciadas; funções-chave são privatizadas; e pessoas-chave, os funcionários públicos competentes que fazem o governo funcionar, ou vão embora ou são expulsos.

O custo político do Katrina chocou o governo Bush a tentar desfazer parte dos estragos na Fema, e é uma boa aposta que a resposta inicial ao Gustav será melhor (dificilmente conseguiria ser pior). Mas como a filosofia política responsável pelo declínio da Fema não mudou, o governo não foi capaz de reverter a incompetência aprendida pela agência. Três anos após o Katrina e um ano após um prazo do Congresso, a Fema ainda não tem uma estratégia para abrigar vítimas de desastre.

O que nos traz de volta à política da atual tempestade.

Neste ano, John McCain, como parte de sua estratégia de se distanciar do atual governo, condenou a resposta de Bush ao Katrina. Se fosse presidente na época, ele disse, "eu teria pousado meu avião na base da Força Aérea mais próxima e dirigido as coisas pessoalmente".

Bem, isso ignora o sentido completamente. O problema da resposta do governo Bush ao Katrina não foi o fracasso do presidente em aparecer prontamente para sua oportunidade fotográfica. Foi o fracasso da Fema e outras agências degradadas em aparecer prontamente com alimentos, água e primeiros socorros.

E vamos esperar que McCain não pouse na área de desastre após a passagem do Gustav. A presença do candidato não ajudaria em nada a área a se recuperar. Mas atrapalharia o tráfego aéreo e perturbaria os esforços de ajuda, assim como Bush fez quando voou para Nova Orleans para parabenizar Brownie pelo trabalho que estava fazendo. Lembra dos bombeiros que se apresentaram como voluntários para ajudar as vítimas do Katrina, apenas para descobrir que o principal trabalho deles era posar ao lado de Bush enquanto as câmeras filmavam?

Para ser justo, o plano dos republicanos de lidar com o Gustav transformando sua convenção em um "evento de serviço", talvez um teleton para arrecadar fundos para as vítimas, é uma boa idéia. Assim como o plano da campanha de Obama de mobilizar sua lista de e-mail para envio de ajuda e voluntários. Mas ajuda voluntária, pessoal, não substitui uma resposta pública eficaz a um desastre.

O que realmente precisamos é de um governo que funcione, por ser dirigido por pessoas que entendam que às vezes o governo é a solução. E isso parece ser algo nunca sonhado tanto pela filosofia de Bush quanto de McCain. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h49

    -0,12
    3,275
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host