UOL Notícias Internacional
 

02/09/2008

Milhares de refugiados georgianos ainda vivem com medo

The New York Times
Bilefsky e Michael Schwirtz
Em Gori, Geórgia
Assim que irrompeu a guerra entre a Rússia e a Geórgia, mais de 150 mil refugiados fugiram de suas casas em pânico. Mais de três semanas depois, muitos continuam morando em tendas, sendo que alguns têm poucas perspectivas de algum dia retornar para as suas cidades queimadas e destroçadas. Outros voltaram para casa; alguns estão na Rússia. Todos trazem as cicatrizes que fazem com que qualquer guerra, por mais curta que seja, persista na memória e nas lendas.

Justyna Mielnikiewicz/The New York Times 
Casa é abandonada na vila georgiana de Tortiza, onde 7 pessoas foram mortas

Meri Tamazashvili, 51, é uma das centenas de pessoas que se aglomeram debaixo de um sol impiedoso em frente às 1.000 tendas de um campo de refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU) na periferia de Gori, a cidade na região central da Geórgia castigada pelas bombas, na qual há uma estátua do seu filho mais famoso, Stalin.

Em meio às lágrimas, ela recorda-se de ter se escondido nas árvores de um campo próximo à sua casa queimada, na região da Geórgia ocupada pelos russos, ocultando-se de um grupo de bandidos pilhadores.

"Uns homens usando máscaras negras incendiaram a minha casa, e se eu não tivesse me escondido no jardim, estaria morta", diz ela. "Não ouvi falar de nenhuma família que tenha retornado. As pessoas estão muito amedrontadas".

Várias tendas adiante, Tatiana Nebiaridze, 28, da vila de Vanati, conta que o seu vizinho de 85 anos foi assassinato por um criminoso ossetiano. O corpo ficou na rua, perto da casa dela, por vários dias, até que os ossetianos removeram-no e queimaram-no em um forno de assar pão.

As duas mulheres fazem parte do grupo de 4.500 refugiados dos campos da ONU em Gori, desesperados para retornarem às suas vilas na Ossétia do Sul, e à zona de segurança com largura de 26 quilômetros que a Rússia ocupa em território georgiano, em um desafio aos pedidos dos Estados Unidos e da União Européia para que se retire.

Cerca de 128 mil georgianos foram deslocados pelo conflito, segundo a Alta Comissão de Refugiados da ONU. Quase 30 mil pessoas da Ossétia do Sul, o enclave secessionista que está no centro do conflito, fugiram para a Federação Russa, embora pelo menos 25 mil delas tenham agora retornado para suas casas.

Um ataque militar da Geórgia contra a Ossétia do Sul em 7 de agosto fez com que a Rússia entrasse em território georgiano, o que provocou o maior atrito entre a Rússia e o Ocidente desde o fim da Guerra Fria. À medida que a intensidade do conflito diminuía, bandidos, incluindo alguns da Ossétia do Sul, invadiram as vilas georgianas, fazendo com que mais pessoas fugissem e gerando acusações de ambos os lados de pilhagem, roubo, assassinato e limpeza étnica.

Conforme ocorre em qualquer zona de conflito multiétnico, seja no Cáucaso, nos Bálcãs ou no Iraque, os funcionários de agências de auxílio a refugiados dizem que o direito dos refugiados de retornarem às suas casas é vital para a restauração da estabilidade.

"Alguns refugiados tentaram retornar às suas residências em território georgiano ocupado pela Rússia e estão sendo impedidos de passar por barreiras militares russas", afirma Tapio Vahtola, um porta-voz da agência de refugiados da ONU em Tbilisi, a capital da Geórgia. "Algumas pessoas mais velhas ficaram para trás para vigiar suas casas, mas não foram muitos os que retornaram. As pessoas têm medo porque não há segurança".

A Rússia insiste que a zona de segurança na Geórgia central e ocidental, pontilhada por pelo menos 24 barreiras militares guardadas por soldados russos armados, é necessária para prevenir novas agressões por parte das forças georgianas.

Mas a situação precária da segurança nas vilas dentro dessa zona, a falta de água e de instalações de saúde suficientes e as minas espalhadas pelos campos ameaçam tornar crônica uma conjuntura na qual a ausência de leis e o controle russo prevalecem.

Os riscos foram frisados na segunda-feira (1º) pela organização independente Human Rights Watch, que garantiu que tantos as forças russas quanto as georgianas usaram munições de fragmentação - pequenas bombas que geram uma situação de perigo permanente no solo caso deixem de explodir no ar.

Tamazashvili, que tem três filhos servindo no exército georgiano, afirma que bandidos armados saquearam a sua vila, Karaleti, na zona de segurança próxima à Ossétia do Sul, roubando carros, fogões, geladeiras e jóias.

Nebiaridze diz que os ossetianos que queimaram o corpo do seu vizinho disseram a ela e a outros moradores amedrontados que eles poderiam permanecer lá caso adotassem a cidadania russa. Eles preferiram partir.

As Nações Unidas dizem que algumas dezenas de refugiados não têm mais casas para as quais retornar, especialmente naquelas vilas na Ossétia do Sul nas quais há um predomínio da etnia georgiana.

Imagens de satélite da UNOSAT, um serviço da ONU que fornece imagens de satélites de zonas de conflito e áreas de desastre, indicam que as cidades da região sofreram incêndios de grande dimensão. As imagens mostram que o fogo ainda ardia em 22 de agosto em vilas georgianas a norte e leste de Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul.

Uma análise preliminar das imagens da UNOSAT revelou que quase 800 construções foram destruídas e 300 ficaram bastante danificadas. Segundo a UNOSAT, a maior parte da destruição parece ter ocorrido em áreas residenciais.

Eduard Kokoity, presidente da Ossétia do Sul, cuja independência foi reconhecida pela Rússia na última terça-feira, deu a entender que as vilas de etnia georgiana na Ossétia do Sul serão reocupadas por refugiados ossetianos, o que sugere uma política de expulsão forçada com o apoio tácito de Moscou.

Evidências atuais sugerem que essa expulsão é bem menos drástica do que a limpeza étnica presenciada nos conflitos bem mais longos e sangrentos nos Bálcãs na década de 1990. Àquela época a Geórgia também passou por conflitos étnicos, e dezenas de milhares de pessoas foram expulsas de suas moradias.

Inicialmente a Rússia informou que 2.000 civis foram mortos pelas tropas georgianas na Ossétia do Sul, mas mais tarde esse número foi reduzido para 133. A Human Rights Watch anunciou na segunda-feira que foi capaz de confirmar 44 mortes de civis na Ossétia do Sul, mas a organização acrescentou que esse número pode ser maior, já que alguns corpos podem não ser recuperados.

Alguns refugiados de campos de Gori começaram a retornar às suas aldeias para reconstruir as suas vidas. Mas outros disseram terem sido obrigados a dar meia-volta por soldados russos nas barreiras militares entre Gori e a zona de segurança.

Os jornalistas também estão sendo impedidos de passar, o que torna difícil avaliar a situação.

Mas uma recente visita a várias vilas de etnia georgiana situadas na zona de segurança, durante a qual usamos estradas vicinais que contornavam as barreiras russas, indicou que alguns moradores estão retornando.

Em Tortiza, uma aldeia pobre de agricultores onde viviam 370 famílias, e que teve 40 casas destruídas pelas bombas e sete pessoas mortas durante a guerra, os moradores dizem que um quarto dos habitantes retornou nos últimos dias, embora a maioria das mulheres e das crianças continue em campos de refugiados em Gori ou Tbilisi.

Algumas das casas tinham faixas de tecido branco nas portas para indicar que as pessoas que estavam dentro delas não pertenciam às forças armadas da Geórgia. Um homem idoso sentava-se na soleira da porta de sua casa triturando feijões, um alimento básico na região. Dezenas de outras pessoas trabalhavam arduamente, substituindo vidros rachados e tapando buracos feitos no telhado pelos recentes bombardeios. Placas vermelhas ao longo da estrada alertavam para a presença de munições não detonadas.

De pé em frente à sua casa bombardeada e sem uma parte do telhado, Mzia Mamitashvili, que retornou recentemente, disse ter medo do vácuo legal na vila, da qual a polícia georgiana retirou-se devido às pressões russas, possibilitando que criminosos aterrorizassem os moradores. Soldados russos em veículos blindados patrulham as estradas, mas, segundo ela, isso proporciona pouco conforto.

Os moradores locais, que dependem das suas colheitas, dizem que temem não conseguir se sustentar porque têm medo de trabalhar em campos repletos de munições não detonadas. As tubulações de água que vêm de Tskhinvali foram cortadas, o que coloca em risco a colheita de uvas.

"Estamos vivendo em um bloqueio, e não podemos ir para lugar nenhum, porque os russos estão por toda parte, e temos medo de que eles nunca mais partam", diz ela. "Os homens querem armas para nos proteger dos russos, já que não podemos fazer nada de mãos vazias".

Em Kheltubani, uma vila próxima, Mamuka Palelashvili, um fazendeiro georgiano, que diz ter passado a guerra escondido no porão da sua casa juntamente com os pais idosos, rezou para que os Estados Unidos protegessem a sua família.

"Os russos mostraram que não têm medo de nada e que farão o que quiseram aqui", diz ele. Erguendo uma taça de vinho em um brinde, ele acrescenta. "Bebo à saúde dos norte-americanos e de quem quer que nos proteja". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host