UOL Notícias Internacional
 

03/09/2008

Como prefeita, Palin agiu com agressividade conservadora para mudar a sua pequena cidade

The New York Times
William Yardley
Em Wasilla, no Alasca
O mundo chegou aqui há mais de um século com a corrida do ouro e, mais tarde, com a estrada de ferro. Mas um aspecto da vida norte-americana só chegou à cidade em 1996, o ano em que Sarah Palin disputou a prefeitura e Wasilla teve a sua primeira lição de política divisiva.

As tradicionais questões que decidiram as eleições municipais nesta cidade de menos de 7.000 pessoas - Deveríamos pavimentar estradas de terra? Instalar esgotos? Qual candidato é o seu companheiro de caçadas? - pareceram tornar-se obsoletas no ano em que Palin, que à época tinha 32 anos, desafiou o prefeito John C. Stein, que estava no seu terceiro mandato.

Panfletos anti-aborto circularam pela cidade. Palin divulgou o seu trabalho na igreja e a sua filiação à Associação Nacional do Rifle (NRA, poderosa organização estadunidense de defesa do direito dos cidadãos usarem e portarem armas de fogo). O Partido Republicano estadual, que anteriormente nunca se envolvera, já que as eleições municipais são não partidárias, fez propaganda para Palin.

Dois anos após Newt Gingrich, o então líder republicano no Congresso, ter ajudado a redigir o Contrato com a América, Palin, a sua fé religiosa e a sua paixão pela ideologia republicana tomaram conta de uma cidade conhecida pela sua tendência liberal e por ter ajudado a criar a corrida Iditarod de trenós puxados por cães.

"Sarah chegou com todas essas questões ideológicas, e provocou uma grande surpresa", conta Stein, que perdeu a eleição. "Mas aquilo fez com que ela se elegesse: aborto, direito ao porte e uso de armas, limites de mandatos e essa coisa religiosa de cristãos renascidos. Eu não sou um freqüentador de igrejas. Ela anunciou: 'Teremos a nossa primeira prefeita cristã'".

"Pensei comigo mesmo, 'Caramba, o que está acontecendo aqui? Será que ela quer dizer que eu sou judeu ou muçulmano?'", recorda Stein, que cresceu na igreja luterana, e que mais tarde trabalhou em uma função administrativa na cidade de Sitka, no sudeste do Alasca. "A questão importante é que ela era cristã renascida".

Apesar de toda a admiração por Palin no Alasca, a sua rápida ascensão de ativista de associações de professores e alunos a companheira de chapa do senador John McCain deixou feridas de batalha. Os anos que passou em Wasilla, a sua primeira experiência no executivo, revelam uma mistura de sucessos e tropeços. Ela obteve o apoio da maioria dos moradores devido à sua energia, à sua fé e à sua acessibilidade. No entanto, Palin alienou outros com aquilo que, segundo eles, seria uma fixação polarizadora.

Palin é muito elogiada por ter cumprido promessas de campanha como a redução de impostos sobre propriedade, enquanto melhorava as estradas e esgotos e fortalecia o departamento de polícia.

Os que a apóiam dizem que ela ajudou Wasilla a evoluir de um local atrasado e ridicularizado para um subúrbio de rápido crescimento. Os arredores da cidade têm ficado cheios de lojas, incluindo uma da rede Target que deverá ser inaugurada em 12 de outubro, uma das três que abrirão as portas naquele dia no Alasca.

Mas os seus críticos afirmam que o excesso de crescimento criou uma balbúrdia naquilo que não faz muito tempo era uma zona rural tranqüila.

E, para alguns, os primeiros meses de Palin na prefeitura foram tão conturbados - e tão alienantes - que houve uma mobilização para forçar uma nova eleição. Cerca de cem pessoas participaram de uma reunião para discutir a iniciativa, que foi coberta pela imprensa local, mas a idéia acabou sendo abandonada.

De acordo com ex-funcionários da prefeitura, pouco depois de tornar-se prefeita Palin abordou a bibliotecária da cidade e falou-lhe a respeito da possibilidade de banir alguns livros, embora não tenha implementado a idéia, e não se saiba a que livros ou trechos ela se referia.

Ann Kilkenny, uma democrata que participou de todas as reuniões do Conselho Municipal durante o primeiro ano de Palin na prefeitura, diz que a prefeita sugeriu em uma reunião do conselho que alguns livros fossem banidos. "Ela se opunha moralmente ou socialmente aos livros", diz Kilkenny.

Kilkenny recorda-se de que a bibliotecária, Mary Ellen Emmons, jurou "resistir a todas as tentativas de censura". A prefeita demitiu Emmons pouco depois de assumir a prefeitura, mas voltou atrás depois que os moradores apoiaram vigorosamente a bibliotecária. Emmons, que deixou o seu emprego em Wasilla há uns dois anos, recusou-se a tecer comentários para esta matéria. Em 1996, Palin sugeriu ao jornal local, "The Frontiersman", que as sugestões de banimento de livros foram "retóricas".

Emmons não foi a única funcionária a partir. Durante a campanha, Palin dirigiu-se aos eleitores que sentiam que, na administração Stein, que não é de Wasilla e que se formou em administração pública na Universidade de Oregon, os funcionários foram rígidos e omissos em relação a um novo plano amplo de desenvolvimento. Por sua vez, alguns funcionários da prefeitura manifestaram o seu apoio a Stein em uma propaganda de campanha.

Assim que assumiu o poder municipal, Palin pediu a muitos aliados de Stein que renunciassem aos seus cargos - algo que nunca havia ocorrido em Wasilla nas eleições passadas. O diretor de obras públicas, o planejador municipal, o diretor do museu e outros foram demitidos. O chefe de polícia, Irl Stambaugh, cuja renúncia Palin a princípio recusou, foi posteriormente demitido sumariamente.

Stambaugh perdeu um processo de indenização movido contra Palin. Ele não respondeu a pedidos para que concedesse uma entrevista.

Palin também rompeu com os costumes tradicionais da cidade ao dar uma ordem surpreendente: ninguém poderia falar com a imprensa sem a permissão dela.

"Foram coisas que a gente simplesmente não associa a cidades pequenas", afirma Victoria Naegele, que na época era editora do "The Frontiersman", ao recordar o primeiro ano de Palin na prefeitura. "Era como se estivéssemos presos à realpolitik, ao invés de seguirmos as práticas locais tradicionais. Foi um período estranho".

Os críticos observam que Palin nem sempre exibiu a rigidez fiscal da qual ela agora se gaba. No seu segundo mandato como prefeita, ela instituiu um aumento de meio centavo sobre as vendas locais a fim de cobrir os custos de construção de um complexo esportivo de US$ 15 milhões. O complexo esportivo é popular, e hoje em dia é a sede de uma equipe da divisão inferior de hóquei, mas recentemente a prefeitura teve que pagar mais de US$ 1,3 milhão devido a uma disputa judicial em torno da posse do terreno.

Palin também passou a viajar anualmente a Washington a fim de fazer lobby por dinheiro para iniciativas específicas, incluindo projetos ferroviários e um centro de saúde mental. O seu companheiro de chapa, McCain, tem sido um crítico contundente dessas verbas pré-alocadas, e como governadora Palin comportou-se mais como ele, vetando dezenas de milhões de dólares para projetos locais desejados por parlamentares estaduais.

Aqui em Wasilla, acredita-se que Palin pensava nos melhores interesses da sua cidade quando procurou implementar grandes projetos ou reformar o sistema tributário municipal. Quando ela disputou a reeleição, três anos depois, muitos dos problemas tinham sido contornados: ela retornou à prefeitura com 826 votos a 255, ou seja, obteve mais de 3 votos para cada um do adversário.

Palin, que fez campanha prometendo diminuir o próprio salário, reduziu-o de US$ 68 mil anuais para US$ 64 mil, mas ela também contratou um administrador municipal, John Cramer, acrescentando assim um novo salário à folha de pagamento.

Os críticos dizem que líderes republicanos foram responsáveis pela contratação de Cramer, que tem vínculos estreitos com Lyda Green, uma poderosa parlamentar local. Green, que estará se aposentando neste ano como presidente do senado estadual, mais tarde tornou-se uma das maiores críticas de Palin como governadora. Mas as tensões acabaram diminuindo em Wasilla, e, segundo apoiadores e opositores de Palin, Cramer foi um dos responsáveis por isso.

"Quando conheci Sarah, eu diria que ela era uma republicana com "R" maiúsculo", diz Dave Chappel, que foi vice-prefeito de Palin por mais de dois anos. "À medida que ela desenvolveu-se politicamente, começou a enxergar além do "R" e a ver o quadro integral. Ela amadureceu".

Da mesma forma como demitiu funcionários ao assumir a prefeitura, Palin deixou que alguns deixassem o governo, incluindo Cramer.

Quando ela concluiu o seu segundo e último mandato, em 2002, a sua sogra, Faye Palin, disputava a eleição para substituí-la. Parecia uma boa idéia, exceto pelo fato de Faye Palin apoiar o direito ao aborto e ser registrada como candidata sem partido, e não como republicana. Sarah Palin acabou apoiando Dianne Keller, uma conservadora religiosa que era sua aliada no Conselho Municipal. Keller venceu.

"Aquilo foi interessante", diz Chappel. "Faye morava na mesma rua que eu. Realmente não posso dizer muita coisa sobre isso".

Kitty Bennett, em Washington, contribuiu para esta reportagem UOL

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