UOL Notícias Internacional
 

03/09/2008

Exposição do Hizbollah sobre suspeito de terror cativa crianças libanesas

The New York Times
Robert F. Worth
Em Nabatiye, Líbano
O público infantil avança ao redor da caixa de vidro, ávido por um vislumbre das roupas manchadas de sangue do mártir. O cinto dele está aqui, assim como os sapatos com os quais morreu, marcados por estilhaços. A mesa surrada onde planejava operações militares ainda conta com sua caixa de lápis, seu celular.

"Que Deus mate aquele que o matou", diz uma idosa, enxugando as lágrimas de seus olhos enquanto olha através do vidro.

O morto que está sendo exibido com tamanha veneração é Imad Mugniyah, o misterioso comandante do Hizbollah. Até sua morte em um atentado com bomba na Síria, em fevereiro, ele era virtualmente desconhecido aqui, seu papel no grupo militante xiita envolto em segredo. Mas desde então o Hizbollah o tem saudado como um de seus grandes líderes militares na luta contra Israel.

Agora, o grupo abriu uma exposição nesta cidade do sul em homenagem a Mugniyah, que é amplamente acusado no Ocidente de planejar atentados a bomba devastadores e seqüestros nos anos 80 e 90. Seu rosto barbado, austero, paira sobre o estacionamento transformado onde a exposição está ocorrendo, juntamente com faixas o exaltando como "o líder de duas vitórias" - a retirada israelense do sul do Líbano, em 2000, e a guerra contra Israel, em 2006.

A exposição multimídia, aberta em 15 de agosto, é a mais ambiciosa produzida pelo Hizbollah até hoje, visando dramatizar o amargo conflito do grupo com Israel no segundo aniversário de sua guerra mais recente. Crianças em idade escolar chegam em grande número ao longo do dia, absorvendo a mensagem cuidadosamente trabalhada de resistência heróica. À noite, um show de luz e laser ilumina os armamentos e tanques, e a grande presença de público a tem mantido aberta até depois da 1 hora da madrugada.

À primeira vista, a exposição poderia quase ser considerada um museu ao ar livre para crianças. O toldo verde de entrada é uma réplica imensa do chapéu de Mugniyah, e os visitantes então passam pela "ponte da vitória", feita em parte com cápsulas de artilharia. Mas logo adquire um aspecto mais pavoroso.

Um esqueleto falso em pé está vestido em um uniforme rasgado e um capacete, acompanhado da legenda: "O invencível soldado israelense". Há tanques israelenses capturados se projetando do chão em ângulos estranhos, com suas aberturas queimadas e quebradas. Enquanto os visitantes se agrupam em torno de um mostruário e outro, uma trilha sonora é tocada, misturando sons de bombas e fogo de metralhadora com vozes operísticas lamentosas e discursos de guerra.

Há também um conjunto impressionante de artilharia e mísseis antitanque do Hizbollah, todos muito bem rotulados. Há até mesmo mostruários contendo óculos, cartas e roupas de duas outras figuras importantes do Hizbollah, ambas assassinadas por Israel.

Mas o coração lúgubre da exposição é a sala envolta em vidro exibindo os pertences de Mugniyah. Seu tapete de oração está aqui, seus chinelos, até mesmo seu pente, como se fossem relíquias de um santo.

Em uma tarde recente, uma multidão de visitantes olhava pelo vidro em admiração, alguns chorando abertamente.

"Olha, lá está a arma dele!" gritou um menino pequeno vestindo uniforme militar, puxando seus pais para um olhar mais próximo.

Um jovem guia do Hizbollah explicava que a arma era um rifle AK-47 modificado, mais poderoso e capaz de disparar mais rapidamente que o modelo padrão. "Ele não ia a nenhum lugar sem ele - fazia parte de sua alma", disse o guia, que como outros que trabalham na exposição, se recusou a dar seu nome, de acordo com a política de sigilo do Hizbollah a respeito de seus membros.

Este é um momento tenso no Líbano. Líderes israelenses emitiram alertas de que poderiam realizar um ataque mais devastador que a guerra de 2006 caso o Hizbollah venha a comandar o governo do Líbano. No mês passado, o Líbano formou um novo governo de transição no qual a oposição liderada pelo Hizbollah conta com cadeiras suficientes no Gabinete para ter poder de veto. Novas eleições estão marcadas para o próximo ano.

Membros do Hizbollah renovaram recentemente os alertas de que retaliarão contra Israel, que culpam pela morte de Mugniyah. De fato, nesta semana, os jornais de Israel relataram que agentes da inteligência frustraram pelo menos cinco tentativas de seqüestro de cidadãos israelenses em países estrangeiros.

Israel nega qualquer papel na morte de Mugniyah, que ocorreu em Damasco, a capital da Síria. Mas agentes israelenses e ocidentais passaram 25 anos perseguindo Mugniyah, que foi responsabilizado por uma série de ataques e seqüestros, incluindo o atentado suicida a um quartel americano em Beirute, que matou 241 militares americanos em 1983.

Acredita-se que Mugniyah tenha passado grande parte de seu tempo no Irã e na Síria, apesar de seu paradeiro ser desconhecido. Se a exposição serve de testemunho do novo status público de Mugniyah como herói do Hizbollah, também é evidência dos esforços cada vez mais sofisticados do grupo para conquistar os corações e mentes de uma nova geração.

O Hizbollah já organizou exposições semelhantes antes, mais notadamente uma réplica de um bunker militar que foi aberta no sul de Beirute há um ano, intitulada de "Teia da Aranha", para celebrar o primeiro aniversário da guerra de 2006.

Mas a nova apresentação é mais ampla. Ela foi concebida pelo arquiteto Ahmed Tirani e construída em apenas três semanas por uma equipe de 290 pessoas, trabalhando 24 horas. Além da coleção extraordinária de armamento e parafernália dos mártires, ela inclui uma grande sala fechada que foi reformada para se assemelhar "a como acreditamos que é o paraíso dos mártires", segundo um dos guias.

Na sala escurecida, uma figura representando um combatente morto do Hizbollah está deitado em uma grande encosta de flores brancas. Um som de bombas explodindo dá lugar a hinos patrióticos, enquanto uma tela exibe um pôr-do-sol brilhante e um caixão sendo carregado por uma floresta escura. Depois, um show de laser ilumina a escuridão. Outros vídeos casam imagens da guerra de 2006, incluindo alguns exibindo Mugniyah, juntamente com cenas dos soldados do Hizbollah treinando nas colinas verdes do sul do Líbano.

Em uma tarde recente, ônibus cheios de estudantes chegavam para ver a exposição, juntamente com um grupo de escoteiros.

"Eu vim aqui para ensinar aos meus filhos a cultura da resistência", disse um visitante que disse apenas seu primeiro nome, Ahmed, e que estava acompanhado por sua esposa e seus dois filhos. "Eu quero que vejam o que o inimigo está fazendo conosco, e o que podemos fazer para combatê-lo, porque este inimigo não é misericordioso." George El Khouri Andolfato

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