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03/09/2008

Paquistão inicia inquérito sobre as mortes de cinco mulheres

The New York Times
Salman Masood
Em Islamabad, Paquistão
O inquérito do governo paquistanês sobre a morte de cinco mulheres enterradas vivas nos chamados crimes de honra na província de Baluquistão, no sudoeste, está ocorrendo em meio a amplos protestos e uma revolta com a defesa da prática por parte de um político.

A notícia das mortes, que ocorreram há seis semanas, escapou com poucos detalhes e lentamente da área remota tribal. Segundo uma declaração de um grupo de direitos humanos francês, no dia 21 de agosto, as vítimas foram três jovens que planejavam se casar com homens de sua escolha - uma mancha na honra da família - e duas parentes mais velhas.

Todas foram seqüestradas por um grupo de homens no dia 13 de julho de sua aldeia, Baba Kot, no município de Jafferabad, e levadas para uma área deserta em um veículo com placa do governo do Estado, de acordo com o grupo, Federação Internacional para Direitos Humanos. As jovens levaram golpes e tiros. Ainda respirando, foram cobertas com terra e pedras. As duas mais velhas tentaram intervir e também foram enterradas vivas.

A organização de direitos humanos disse que baseou seu relato nas informações coletadas por um grupo afiliado, a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão. O grupo paquistanês é uma organização sem fins lucrativos independente, com base em Lahore. Um dos homens envolvidos, de acordo com o relato do grupo de direitos humanos, era irmão do ministro de moradia de Baluquistão, um membro do Partido do Povo Paquistanês.

O caso gerou amplos protestos na semana passada, depois que a senadora da oposição Yasmeen Shah acusou o governo de fazer vista grossa para os homicídios e tentar encobrir o episódio. Ela foi interrompida por um senador do Baluquistão, Israr Ullah Zehri, que defendeu os crimes de honra como "nossas normas" e disse que não deveriam ser "ressaltados negativamente".

Depois de ampla revolta pública, o governo apoiou uma resolução do senado condenando os crimes. Vários críticos disseram que o Partido do Povo Paquistanês estava tentando ignorar o episódio enquanto tentava garantir o apoio do Baluquistão para o líder do partido, Asif Ali Zardari, na eleição do colégio eleitoral para presidente no sábado.

Um alto membro do Ministério do Interior, Rehman Malik, disse na segunda-feira (1º) que tinha ordenado um inquérito de uma semana e que três pessoas já tinham sido presas.

Em uma entrevista, ele negou o elo com o ministro da província e questionou as descrições do caso. "Tenho minhas dúvidas que seja caso de honra", disse ele.

"Há uma discussão se foram crimes de honra ou uma disputa de terras. Vamos aguardar o relatório final."

A cada ano, centenas de mulheres no Paquistão são mortas em nome da honra, de acordo com grupos de direitos humanos, mas a maior parte dos casos não é divulgada ou investigada adequadamente. Os crimes de honra foram proibidos em 2004 com pena de morte, mas a nova lei foi fraca e se provou ineficaz, como tinham advertido os críticos na época. A prática continua comum em zonas rurais afligidas pela pobreza e analfabetismo e ainda dominadas por senhores feudais e líderes tribais.

"A lei contra o crime de honra não está sendo implementada efetivamente, apesar da pena capital", disse Nilofar Bakhtiar, senador que promoveu a lei contra homicídios de honra quando era ministro de assuntos da mulher no governo de Pervez Musharraf, que renunciou no dia 18 de agosto, abrindo caminho para as eleições de sábado.

Muito ainda não está claro sobre o caso, inclusive o que aconteceu aos três homens com os quais as jovens queriam se casar.

"Foi muito difícil averiguar os fatos e nomes, pois é uma área muito conservadora, profundamente enraizada em costumes e tradições tribais", disse Farid Ahmde, coordenador da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, em uma entrevista por telefone de Quetta. As vítimas foram identificadas como membros da tribo Umrani.

"As pessoas não se dispõem a falar abertamente, não apenas por medo, mas também por causa de suas crenças tribais", disse ele. "Muitos acusam as mulheres de terem moral fraca porque queriam escolher seus maridos".

Diante do parlamento na segunda-feira, cerca de 40 ativistas de direitos humanos gritavam slogans condenando as mortes e a defesa da "tradição" por Zehri.

"Fiquei muito chocada. Tenho 50 anos e não me lembro de nada desse tipo. Ouvimos falar de mortes de honra, mas o fato de enterrar pessoas vivas é sem precedentes", disse Duskha Syed, professor na Universidade Quaid-i-Azam. "E o que é ainda mais escandaloso é que esse Zehri racionaliza e defende a prática."

Outro manifestante, Nasim Zehra, analista político, disse: "Há um descaso absoluto em relação à lei e o Estado de direito. Neste momento, o governo está buscando votos para as eleições presidenciais. Também há uma conspiração de silêncio entre as tribos. O fato mais repulsivo é que os que estão lá para legislar demonstraram o pior tipo de indiferença". Deborah Weinberg

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