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05/09/2008

Com um passado duvidoso, viúvo de Benazir Bhutto deverá governar o Paquistão

The New York Times
Jane Perlez
Em Islamabad
Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir Bhutto, deverá tornar-se presidente do Paquistão no próximo sábado, em uma ascensão acidental de um homem mais conhecido como vigarista do que como líder. Ele começará o seu governo sob o peso de uma história de alegações de corrupção que enodoam a sua reputação, ainda que elas não tenham sido comprovadas.

EFE 
Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto, deve assumir a presidência do Paquistão no sábado

Embora ele tenha obtido o apoio relutante do governo Bush, que o vê como um parceiro compromissado na campanha contra o terrorismo, Zardari assumirá a presidência com aquilo que muitos consideram como habilidades não comprovadas para governar, no momento em que uma forte insurgência do Taleban ameaça a coesão deste Estado nuclearmente armado que tem 165 milhões de habitantes.

Ainda não se sabe com que rigor ele agirá contra os militantes face à oposição pública paquistanesa à pressão norte-americana. E tampouco está claro que influência ele terá sobre as ainda poderosas forças armadas e a principal agência de espionagem do país, a Inter-Services Intelligence.

O editor-chefe do "Daily Times", Najam Sethi, que já foi um adversário e agora é um aliado de Zardari, afirmou que a ascensão de Zardari atenderá aos interesses dos norte-americanos. Segundo ele, Zardari "aprenderá no cargo". E, de fato, Zardari, 53, demonstrou grande argúcia política ao se movimentar nas duas últimas semanas para superar o seu ex-parceiro de coalizão, Nawaz Sharif, que já foi primeiro-ministro duas vezes.

Mas com a economia em queda livre e as reservas de moedas estrangeiras em um nível perigosamente baixo, a reputação de Zardari de usar cargos políticos para obter vantagens para si e os seus amigos faz com que muita gente aqui e em Washington se pergunte como ele restaurará a confiança econômica.

Existem preocupações quanto à supervisão de um pacote de US$ 15 bilhões em assistência não militar proposto pelo candidato a vice-presidente pelo Partido Democrata, senador Joseph R. Biden, de Delaware, e apoiado pelo governo Bush.

Zardari recusou-se a ser entrevistado para este artigo. O ministro da Informação do Paquistão, Sherry Rheman, disse que, para Zardari, seria muito "delicado" falar antes da eleição.

O Paquistão possui apenas US$ 6 bilhões em reservas de moeda estrangeira, que diminuem em US$ 2 bilhões a cada mês com o pagamento de petróleo e alimentos. Vários economistas e empresários proeminentes dizem que grande parte do nervosismo dos investidores deve-se à desconfiança em Zardari, que foi ministro dos Investimentos no governo Bhutto, quando este foi acusado de exigir o pagamento de propinas em troca de negócios, em um episódio que excedeu até mesmo os níveis de corrupção tidos como aceitáveis no Paquistão.

Habilidade fiscal questionada

Duas recentes decisões de Zardari demonstram desprezo pelos alarmantes déficits paquistaneses, dizem economistas e empresários, que falam sob anonimato porque não querem criticar publicamente o próximo presidente.

Em abril deste ano, Zardari disse a Ishaq Dar, na época ministro das Finanças e membro do partido de Sharif, e que depois rompeu com Zardari, que desejava que o preço pago pelo governo aos agricultores pelo trigo aumentasse substancialmente como forma de recompensar um importante eleitorado na província de Punjab, a mais populosa da nação. A seguir o governo teria que subsidiar fortemente o preço do trigo aos consumidores.

Quando Dar indagou a Zardari como ele achava que o governo pagaria o subsídio, Zardari respondeu: "Imprimindo dinheiro". Na tentativa de resolver o impasse relativo ao subsídio, sugeriu-se que Zardari formasse um comitê de especialistas.

"Eu sou o especialista", retrucou Zardari.

Farahnaz Ispahani, um porta-voz do partido de Zardari, nega esta versão.

Duas autoridades que estavam presentes durante a conversa acima descrevem um outro episódio ocorrido em maio deste ano, quando o orçamento era preparado. Zardari decidiu retirar uma proposta de impostos sobre ganhos de capital após ser visitado por um grupo de corretores influentes da bolsa de valores de Karachi. A receita obtida com os impostos sobre ganhos de capitais, e com um outro imposto proposto sobre as propriedades dos ricos, teria sido suficiente para custear um programa de apoio de renda para os indivíduos mais pobres do Paquistão. Mais de 50% dos paquistaneses sobrevivem com menos de US$ 2 por dia, segundo o Banco Mundial.

Em defesa de Zardari, o ministro das Finanças, Naveed Qamar, afirmou que a estabilidade política seria restaurada no Paquistão assim que Zardari fosse presidente, e que a economia em crise beneficiaria-se da nova ordem política.

Outros não estão tão certos disso.

"Zardari contará com poderes sem precedentes para um presidente civil", adverte Malleha Lodhi, que foi nomeado embaixador do Paquistão nos Estados Unidos por Benazir Bhutto e depois por Musharraf. "Mas ele poderá carecer de autoridade devido ao seu passado controverso".

De fato, Zardari, que deverá ser escolhido na eleição de sábado pelo parlamento e quatro assembléias provisórias, é o beneficiário acidental dos amplos poderes acumulados por Musharraf, incluindo o direito de destituir o comandante do exército e dissolver o parlamento.

Zardari vai se tornar a autoridade civil com a qual Washington terá que contar ao tentar persuadir o Paquistão a adotar uma postura mais dura contra os militantes que estão usando as áreas tribais no norte do país como um refúgio para atacarem as forças dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão. Apesar das reservas, autoridades norte-americanas o preferem a Sharif, por acreditarem ser mais provável que o Partido dos Povos Paquistaneses, de Zardari, mais secular do que a Liga-N Muçulmana Paquistanesa, de Sharif, confronte os militantes.

Zardari tem manifestado uma disposição súbita de enfrentar o Taleban, e na semana passada disse que baniria o movimento e congelaria os seus bens, um ponto de partida visto com bons olhos pelo Departamento de Estado norte-americano, embora isso vá ter pouco impacto político prático.

"Zardari é um homem de negócios", diz um diplomata ocidental. "Ele diz para si mesmo: 'Sei que preciso do apoio norte-americano. O que eles querem? Eles querem isso'". Neste caso, "isso", significa a postura dele contra o Taleban.




Pouca influência junto às forças armadas

Mas à medida que Zardari caminha para a ribalta política, alguns dos seus esforços para agradar Washington expuseram as suas relações difíceis com as forças armadas e a Inter-Services Intelligence, a poderosa agência de espionagem que ele acusou de assassinar a sua mulher em dezembro do ano passado.

Uma tentativa de controlar a agência e impressionar o governo Bush fracassou no final de julho. Washington acusou a agência de espionagem de envolvimento na sabotagem de interesses norte-americanos com a ajuda ao Taleban nas regiões tribais. Zardari e uma autoridade graduada do Ministério do Interior determinaram que a agência passasse a ser diretamente vinculada ao ministério. Mas as forças armadas prontamente ordenaram que a determinação fosse desconsiderada.

"A primeira tentativa dele de controlar o exército e a Inter-Services Intelligence foi um fracasso total que revelou a sua ingenuidade e o desconhecimento da forma como o exército e a agência de inteligência funcionam", afirma Bruce Riedel, membro do Conselho de Segurança Nacional no governo Clinton e atualmente assessor da campanha de Obama sobre o Paquistão.

Durante cinco meses como chefe da coalizão de governo que entrou em colapso após afastar Musharraf do poder, Zardari preencheu cargos importantes do governo com pessoas que ele conhecia da cadeia e do exílio. Ele recusou-se a readmitir o ministro do Supremo Tribunal, Iftikhar Muhammad Chaudhry, que foi destituído por Musharraf. Os oponentes dizem que Zardari temia que Chaudhry pudesse anular uma anistia que permitiu que os casos de corrupção com os quais estava envolvido fossem arquivados.

Zardari fiou preso de 1990 a 1993, após o primeiro mandato de Benazir Bhutto, e de 1996 a 2004, após o segundo mandato da mulher. Ele afirma que as denúncias de corrupção e uma acusação de assassinato foram politicamente motivadas por forças que tentam reduzir a sua influência, e sustenta que recusou propostas para sair mais cedo da cadeia.

No Reino Unido, Zardari está envolvido em um caso de corrupção motivado pela acusação do governo paquistanês de que ele comprou uma mansão com dinheiro público desviado. A fim de postergar o seu depoimento nos tribunais britânicos, Zardari obteve em 2006 atestados de dois médicos de Nova York afirmando que ele não tinha condições mentais de ajudar os seus advogados.

Segundo os atestados médicos que foram divulgados pela primeira vez pelo "Financial Times", Zardari, que na época morava no elegante Helmsley Carlton, na esquina da Rua 66 e Avenida Madison, em Nova York, e que, segundo os amigos, parecia estar bem, sofria de demência, depressão e desordem do estresse pós-traumático.

O alto comissário paquistanês em Londres, Wajid Shamsul Hasan, que foi recentemente nomeado para o cargo por Zardari, e que é seu amigo de longa data, afirma que agora Zardari está saudável. Zardari fazia parte de um grupo de mais de dez indivíduos acusados de conspirar em 1996 para matar o irmão de Benazir Bhutto, um adversário político de Zardari e de Bhutto. Em abril passado, o supremo tribunal da província de Sindh, a base politica de Zardari, inocentou-o neste caso de assassinato.

Na semana passada, um promotor suíço arquivou um caso no qual Zardari e Bhutto foram considerados culpados em 2003 em acusações de lavagem de dinheiro envolvendo comissões ilegais que ele recebeu de duas companhias suíças, a Cotecna e a Societe Generale de Surveillance. O tribunal determinou que eles restituíssem US$ 12 milhões ao governo paquistanês.

O governo paquistanês suspendeu as acusações neste ano, depois que Zardari e Bhutto foram anistiados por Musharraf nos casos envolvendo denúncias de corrupção. As autoridades suíças dizem que não poderiam mais dar seguimento ao caso, e que liberariam US$ 60 milhões dos fundos de Zardari.

Após este anúncio em Genebra, Zardari disse a um jornalista paquistanês, de acordo com uma matéria do jornal "The News", que a condenação original em 2003 foi resultado de uma propina paga ao juiz pelo governo paquistanês.

Um relatório sobre contas bancárias particulares e lavagem de dinheiro nos Estados Unidos, feito em 1999 para o Subcomitê Permanente do Senado sobre Investigações, citou alegações de que algumas das contas de Zardari no Citibank foram utilizadas para "ocultar US$ 10 milhões em propinas por um contrato de importação de ouro no Paquistão". Segundo o relatório Zardari acumulou US$ 40 milhões em contas do Citibank. Ele negou as acusações, e o diretor da companhia de ouro citado no relatório negou ter pago as propinas.

A posição de Zardari como chefe de Estado significará um salto gigantesco em relação à época em que ele acompanhava Bhutto nas viagens oficiais dela ao exterior. Na sua autobiografia, o ex-primeiro-ministro de Cingapura, Lee Kuan Yew, escreveu que viu em Zardari um "agradável renegado" que tentava impressionar os outros com os seus negócios nos setores imobiliários e de exportações.

Cada vez mais preocupado com a sua segurança pessoal, Zardari vive agora na residência oficial do primeiro-ministro em Islamabad, uma moradia construída por ele e Bhutto durante o governo dela. Aos fundos da mansão há um campo de pólo, construído para atender à paixão de Zardari por cavalos.

Após a votação de sábado, ele residirá no palácio presidencial, um edifício de mármore branco no centro da capital, projetado por Edward Durell Stone, o arquiteto norte-americano que projetou o Kennedy Center, em Washington.

Lá, atrás das grandes colunas e longos corredores, ele terá obtido as três coisas que mais cobiçava.

Como presidente ele terá, de acordo com a constituição, imunidade contra os processos legais. Ele contará com segurança da melhor qualidade. E Zardari passará pelos rituais protocolares que permitirão que ele apareça no cenário global como líder de verdade, e não como apenas o marido de uma líder. UOL

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