UOL Notícias Internacional
 

06/09/2008

Com o fim do isolamento, Gaddafi se encontra com Rice

The New York Times
Helene Cooper
Em Trípoli, Líbia
Pela primeira vez em mais de meio século, uma importante autoridade americana, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, está na Líbia. Ela chegou aqui na sexta-feira para um encontro com um homem a quem Ronald Reagan chamou de "o cachorro louco do Oriente Médio".

Mas isso foi naquela época. Rice, após esperar no Corinthia Bab Africa Hotel daqui por uma hora, enquanto o sol do Ramadã se punha, finalmente recebeu o aviso de que o coronel Muammar Gaddafi estava pronto para recebê-la em sua residência de Bab al Azizia -o mesmo complexo bombardeado por ataques aéreos americanos em 1986, durante o auge das tensões com a Líbia.

Em meio ao enxame de câmeras e repórteres, ela caminhou até a sala de recepção onde Gaddafi, vestido em uma longa túnica branca, uma faixa púrpura e dourada e um broche verde da África, aguardava para saudá-la.

Ele não apertou a mão dela; em vez disso, ele colocou sua mão contra seu coração em um gesto que os homens norte-africanos freqüentemente usam para saudar as mulheres, então fez gesto para que ela se sentasse. Era um líder líbio muito diferente, aos olhos de Rice e do governo Bush, daquele homem que incomodou seis presidentes americanos ao longo das últimas quatro décadas.

No entender do governo Bush, o líder líbio está reabilitado, seu país removido da lista de terrorismo do Departamento de Estado, sua dívida para com as famílias das vítimas do vôo 103 da Pan Am a caminho de ser paga, os estoques de armas químicas da Líbia destruídos e seu programa secreto de armas nucleares desmontado.

Sua conversa inicial com Rice não poderia ter sido mais agradável. Ele perguntou educadamente sobre sua viagem; Rice o agradeceu pela hospitalidade. Ele perguntou sobre os furacões; ela disse que os Estados Unidos se esquivaram do Gustav, mas estavam se preparando para o Hanna. E essa foi a conversa para o público, enquanto as autoridades líbias rapidamente retiravam a imprensa da sala enquanto Rice, sentada, sorria largamente.

"Francamente, eu nunca imaginei que visitaria a Líbia, então é algo notável", ela disse aos repórteres a bordo de seu vôo para Trípoli, notando que muito aconteceu desde 1957, quando o vice-presidente Richard M. Nixon visitou a Líbia, na última viagem feita por uma importante autoridade americana ao país.

Ela disse que pensou bastante no que diria a Gaddafi, e, sem mencioná-lo nominalmente, acrescentou: "Eu aguardo ansiosamente para escutar qual é a visão de mundo do líder".

Rice chamou a visita de "um momento histórico", apesar de "um que ocorre após muitas dificuldades, o sofrimento de muitas pessoas que nunca serão esquecidas ou acalmadas, muitos americanos em particular. Isto também se deve à decisão histórica tomada pela Líbia de desistir das armas de destruição em massa e renunciar ao terrorismo".

Apesar do Departamento de Estado ter anunciado a viagem de Rice há poucos dias, detalhes da visita foram envoltos em tamanho sigilo que, mesmo enquanto seu avião decolava de Lisboa, Portugal, para um vôo de três horas para a Líbia, muitos a bordo ainda não sabiam onde ela se encontraria com Gaddafi.

No final, eles se encontraram no complexo dele em Trípoli. Após o término das delicadezas diplomáticas, Rice e Gaddafi conversaram particularmente - acompanhados de tomadores de notas e intérpretes - disseram funcionários do Departamento de Estado, no que foi rotulado como uma conversa privada mais interessante do que os encontros diplomáticos habituais.

Afinal, o líder líbio já professou seu "amor" pela secretária de Estado americana. "Eu apoio minha querida mulher negra africana", Gaddafi disse à rede "Al Jazeera" no ano passado. "Eu admiro e fico muito orgulhoso pela forma como ela se inclina para trás e dá ordens aos líderes árabes."

Ele prosseguiu: "Sim, Leezza, Leezza, Leezza... eu a amo demais".

Um alto funcionário do governo disse que Rice planejava levantar algumas questões incômodas, incluindo direitos humanos e a resolução final dos processos legais do atentado a bomba de 1988 contra o vôo 103 da Pan Am, entre outras questões.

Um dissidente líbio, Fathi al-Jahmi, permanece na prisão, de onde entra e sai desde 2002, apesar dos repetidos apelos por sua soltura pelo senador Joe Biden, atualmente o candidato democrata à vice-presidência, e de autoridades do governo Bush.

A visita de Rice vinha sendo preparada há dois anos. O governo Bush anunciou em 2006 que esta restaurando os laços diplomáticos com a Líbia como recompensa pela decisão de Gaddafi, em 2003, de renunciar ao terrorismo e abandonar o trabalho em armas de destruição em massa, uma reversão que funcionários do governo Bush rapidamente atribuíram à invasão americana no Iraque.

Os Estados Unidos retiraram seu embaixador da Líbia em 1972, depois que Gaddafi renunciou aos acordos com o Ocidente e investiu repetidas vezes contra os Estados Unidos em discursos e declarações públicas.

Depois que uma multidão saqueou e incendiou a embaixada americana em 1979, os Estados Unidos cortaram as relações. Mas o relacionamento atingiu seu ponto mais baixo em 1986, quando o governo Reagan acusou a Líbia de ordenar o atentado a bomba contra uma discoteca alemã, que resultou na morte de três pessoas. Em resposta, os Estados Unidos bombardearam alvos em Trípoli e Benghazi.

O atentado a bomba contra o vôo 103 da Pan Am sobre Lockerbie, Escócia, ocorreu quase três anos depois. Investigadores passaram anos acumulando evidência do envolvimento de agentes líbios e, em 2001, um funcionário da inteligência líbia foi considerado culpado de homicídio no caso.

No avião para Trípoli, um repórter perguntou a Rice se ela atribuía a mudança da Líbia à diplomacia ou ao medo de que poderia ser a próxima após o Iraque na lista de alvos dos Estados Unidos.

"Obviamente houve um longo período de isolamento", ela disse, e então acrescentou que a Líbia no final sinalizou que estava pronta para renunciar ao terrorismo. "Toda vez que um país faz essa escolha, a diplomacia deve ser buscada." George El Khouri Andolfato

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