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06/09/2008

Krugman: republicanos utilizam a estratégia do ressentimento

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Pode o governador super-rico de Massachusetts - filho de um presidente-executivo da Fortune 500 que fez vasta fortuna no negócio de aquisição alavancada - realmente manter uma expressão séria ao denunciar as "elites do Leste"?

Pode o ex-prefeito de Nova York, um homem que, como colocou o "USA Today", "marchou nos desfiles do orgulho gay vestido de travesti e viveu temporariamente com um casal gay e o cãozinho Shih Tzu deles - isso entre seu segundo e terceiro casamentos - realmente escapar impune ao dizer que Barack Obama não acha que cidades pequenas são suficientemente "cosmopolitas"?

Pode a candidata a vice-presidência do partido que controlou a Casa Branca, o Congresso ou ambos por 26 dos últimos 28 anos, um partido que, como um Borg, assimilou grande parte da indústria de lobby de Washington para dentro de si mesmo (até o Congresso mudar de mãos, os cargos melhor remunerados de lobby eram reservados para republicanos leais), realmente se retratar como concorrendo contra a "elite de Washington"?

Sim, eles podem.

Na terça-feira, Aquele Que Não Deve Ser Nomeado - Mitt Romney o mencionou apenas um vez, Rudy Giuliani e Sarah Palin nenhuma vez - fez um discurso por vídeo para a Convenção Nacional Republicana. John McCain, prometeu o presidente Bush, resistiria à "esquerda raivosa".

Sem dúvida isso é verdade. Mas não se deixe enganar pela antiga reputação de McCain de independente ou pela personalidade atraente de Palin: o Partido Republicano, mais do que nunca, está firmemente nas mãos da direita raivosa, que sempre foi muito maior, muito mais influente e muito mais raivosa do que seu equivalente do outro lado.

E qual é a fonte de toda a raiva?

Parte dela, é claro, é causada pelo conflito cultural e religioso: os cristãos fundamentalistas estão sinceramente consternados pela decisão Roe contra Wade e pela presença da teoria da evolução no currículo escolar. Mas o que chamou minha atenção enquanto assistia aos discursos na convenção é quanto da raiva na direita se baseia não na alegação de que os democratas fizeram coisas ruins, mas na percepção - geralmente sem nenhuma evidência como base - de que os democratas "desprezam" as pessoas comuns.

Logo, Giuliani afirmou que Wasilla, Alasca, não é "suficientemente impressionante" para Obama, que nunca disse coisa parecida. E Palin afirmou que os democratas "desprezam" os prefeitos de cidades pequenas - novamente, sem qualquer evidência.

O que o Partido Republicano está vendendo, em outras palavras, é pura política do ressentimento; você supostamente vota nos republicanos como uma reação a uma elite que se considera melhor que você. Ou, colocando de outra forma, o Partido Republicano ainda é o partido de Nixon.

Uma das observações-chave de "Nixonland", o novo livro do historiador Rick Perlstein, é que a estratégia política de Nixon por toda sua carreira foi inspirada por sua experiência universitária, na qual conseguiu ser eleito presidente do corpo estudantil ao explorar o ressentimento de seus colegas de classe contra os Franklins, o clube social de elite da escola. Há uma linha direta entre aquela eleição estudantil e os ataques de Spiro Agnew aos "nababos do negativismo" como "um grupo de esnobes abusados", e daí ao culto peculiar da personalidade que há pouco tempo cercava George W. Bush - um culto que celebrava seu antiintelectualismo e destacava o suposto fato de que o estudante nota C "subestimado" provou ser mais inteligente do que todos os especialistas metidos.

E quando Bush revelou não ser tão inteligente, e sua presidência ruiu, a direita raivosa - os rajás raivosos do ressentimento? - ficaram ainda mais furiosos. Humilhação causa isso.

Será que McCain e Palin podem realmente explorar o ressentimento nixoniano até uma surpreendente vitória eleitoral naquele que deve ser um ano esmagadoramente democrata? A resposta é um definitivo talvez.

Ao escolher Barack Obama como candidato, os democratas podem ter dado aos republicanos uma abertura: as mesmas qualidades que inspiram muitos simpatizantes fervorosos de Obama - a grande eloqüência e seu fator "cool" - também o deixam aberto a uma reação nixoniana. Diferentemente de muitos observadores, eu não fiquei surpreso com a eficácia da propaganda de "celebridade" de McCain. Não fazia muito sentido intelectualmente, mas explorava habilmente o ressentimento que alguns eleitores sentem em relação à qualidade de estro de Obama.

Dito isso, a experiência dos anos desde 2000 - a memória do que aconteceu aos trabalhadores americanos quando os falso-populistas republicanos controlaram o governo - ainda está bem fresca na mente dos eleitores. Além disso, apesar do suposto desprezo dos democratas pelas pessoas comuns ser apenas uma invenção da imaginação republicana, o Partido Republicano é realmente o Velho Partido de Phil Gramm - ele realmente acredita que a economia está muito bem, e o fato de que a maioria dos americanos discorda apenas mostra que somos um país de chorões.

Mas os democratas não podem ser complacentes. O ressentimento, independentemente de quão artificial, é uma força poderosa, uma que os republicanos sabem muito bem explorar. George El Khouri Andolfato

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