UOL Notícias Internacional
 

06/09/2008

Na destituída Suazilândia, um governante que vive como um rei

The New York Times
Barry Bearak
Em Ludzidzini, Suazilândia
Era uma vez um jovem e simpático rei que governava uma terra de esplendor montanhoso perto do extremo sul da África. Ele gostava de se casar, e com o passar dos anos ele teve 13 esposas, cada uma delas de grande beleza.

Seus súditos queriam que Sua Majestade fosse feliz, mas alguns achavam que tantas esposas eram uma extravagância para um país minúsculo e pobre. Afinal, o rei Mswati 3º freqüentemente dava a estas esposas uma comitiva, um palácio e um novo BMW.

Um grande evento se aproximava - no sábado, na verdade. Em preparação para o dia - a Celebração 40-40, assim chamada para celebrar o 40º aniversário do rei e o 40º aniversário da independência do país - um novo estádio de 15 mil lugares foi construído e uma frota de sedãs BMW topo de linha foi encomendada para o conforto dos dignitários visitantes.

Novamente, algumas pessoas se perguntaram como o reino, a Suazilândia, podia arcar com a despesa. Aproximadamente 1.500 delas marcharam irritadamente em protesto pela capital após a notícia de que várias das rainhas e suas comitivas partiram em uma viagem de compras no exterior a bordo de um avião fretado.

À medida que o grande dia se aproximava, outros protestos atraíram outros milhares para as ruas das duas maiores cidades do país. "O rei gasta nosso dinheiro e não responde a ninguém!" se queixou Mario Masuku, o chefe de um partido político proibido e uma figura familiar entre os suazis descontentes.

Os manifestantes mais mal comportados atiraram pedras, saquearam bens dos vendedores ambulantes e até mesmo detonaram algumas pequenas explosões. Outros fizeram cartazes improvisados com papelão rasgado. "Basta de 40-40!" dizia um, enquanto outro exigia "Democracia Já!" Alguns poucos manifestantes cantavam coisas visando fazer os riscos se sentirem culpados: "Minha mãe era uma cozinheira. Meu pai era um jardineiro. Por isso sou um socialista".

Os mais raivosos entre eles chegavam até a insistir que o país tinha pouco o que celebrar. Sim, os suazis desfrutam de décadas de paz e se orgulham de sua cultura. Mas a pobreza prende dois terços da população, deixando centenas de milhares desnutridos. E atualmente a morte leva até mesmo os mais fortes. O país tem uma das piores taxas de infecção por HIV no mundo. A expectativa de vida caiu de 60 anos em 1997 para menos da metade disso agora. Quase um terço de todas as crianças perdeu um dos pais.

"Como um rei pode viver em luxo enquanto seu povo sofre?" perguntou Siphiwe Hlophe, um ativista de direitos humanos. "De quanto dinheiro ele precisa?"

Esta pergunta era tão desconfortável quanto impertinente. No mais recente orçamento do governo, cerca de US$ 30 milhões foram destinados ao "emolumento real".

Mas certamente a renda do rei ultrapassa isso, diziam as pessoas. A família real também controla um império corporativo "em nome da nação", investindo em cana-de-açúcar, propriedades comerciais e um jornal. A Forbes.com, que gosta de elaborar um ranking da elite rica, recentemente listou Mswati 3º como o 15º monarca mais rico do mundo, estimando sua fortuna em US$ 200 milhões.

Mas o mundo não é assim? O rei, afinal, é o rei. E os pobres, afinal, são pobres.

Percy Simelane, o porta-voz do governo, foi citado pela agência de notícias "France-Presse" na semana passada como tendo dito: "A pobreza está conosco há muitos anos. Nós não podemos nos sentar à beira da estrada e chorar porque o país sofre com a pobreza. Nós fizemos grandes avanços como um país, o que nos dá prazer em celebrar os 40 anos da independência e o aniversário do rei".

De fato, a maioria dos 1,1 milhão de habitantes da Suazilândia ama seu monarca. Deus deu o país ao rei, muitos deles dizem, e o rei foi dado ao povo por Deus. O pai de Mswati 3º, Sobhuza 2º, era especialmente reverenciado. Ele era mais frugal que seu filho, transportando a família real em ônibus em vez de BMWs. Mas ele também gostava de se casar. Dizem que ele teve 70 esposas, apesar de alguns colocarem o número em 110.

Sobhuza 2º era o rei quando o país se livrou do colonialismo, finalmente se libertando do Reino Unido, mas ficando com uma Constituição ao estilo britânico. O estimado monarca não seguiu o documento por muito tempo. Em 1973, ele dissolveu o Parlamento e se livrou do incômodo dos partidos políticos.

Em anos posteriores, reformistas políticos, principalmente moradores urbanos, pressionaram por democracia. Mswati 3º sucedeu seu pai em 1986 e, em 2005, após muito toma lá dá cá, sancionou uma nova Constituição. Mas era um documento peculiar, garantindo liberdades individuais por um lado e preservando a monarquia absolutista por outro. O rei continuaria nomeando o primeiro-ministro e os membros do Executivo e do Judiciário.

Sob este arranjo, era difícil para alguém de fora dizer onde terminava a monarquia e começava o governo. Mas a maioria dos suazis vê a coisa de forma totalmente diferente. Como diz um ditado local: "Um rei é uma boca que não mente". O governo é ruim, as pessoas tendem a concluir, mas o rei é bom. "Outros em cargos de autoridade abusam de seu poder, não o rei", explicou Ncoyi Mkhonta, o chefe em exercício da aldeia de Mahlangatsha.

A corrupção sangra o tesouro, mas o status elevado de Sua Majestade complica o trabalho das autoridades legais. O ministro das finanças estimou publicamente que US$ 5 milhões - e talvez até US$ 8 milhões - são desviados a cada mês. Vários órgãos anti-suborno fracassaram em promover a justiça.

A mais recente comissão de combate à corrupção é chefiada por H.M. Mtegha, um juiz aposentado de Maláui. Ele não está otimista: "Se vamos atrás de alguém em posição elevada e ele diz, 'O rei me disse para fazer isso', o que posso fazer? Para ficar satisfeito, eu teria que interpelar o próprio rei, e isso não pode ser feito. O rei é imune".

É claro, ser rei tem suas próprias dificuldades. Em 2001, ao se ver diante da implacabilidade da pandemia de Aids, Mswati 3º invocou um antigo ritual de castidade, pedindo às donzelas suazis que se abstivessem de sexo por cinco anos. Ele então violou sua própria regra ao selecionar como sua 9ª esposa uma garota de 17 anos. Para demonstrar a extensão de seu arrependimento, ele pagou a multa habitual de uma vaca.

Em 2003, uma jovem de 18 anos chamou a atenção do rei, e alguns de seus assessores reais foram buscar a moça em sua escola. A mãe da adolescente não estava disposta a se separar de sua filha desse modo e teve a audácia de processar o rei em um tribunal suazi. A disputa só acabou quando a garota convenceu sua mãe de que estava feliz em se tornar a próxima noiva do rei.

Com os modos da família real incompreendidos com tanta freqüência, o rei concordou em cooperar com um cineasta americano em um documentário, talvez presumindo um retrato lisonjeiro. Em vez disso, o filme, "Without the King" (sem o rei), dirigido por Michael Skolnik e lançado no ano passado, sobrepôs a decoração dourada de um palácio real com as cenas de suazis miseráveis comendo intestinos de um animal tirado de um depósito de lixo.

No filme, Mswati 3º reconheceu os pobres: "É sempre muito triste quando você vê muitos deles sofrendo a respeito de suas vidas, quão difícil ela é, com que dificuldade eles lidam com ela, cuidando de suas famílias e assim por diante. E então você às vezes quer ajudá-los, mas os recursos são sempre insuficientes".

Uma das maiores tradições da Suazilândia é a Dança do Junco anual, quando mulheres jovens adornadas de forma colorida, com os seios nus - todas proclamando pureza como virgens - desfilam diante da família real e outros. A cerimônia deste ano - ocorrida na última segunda-feira - ocorreu na Arena de Ludzidzini, tendo os Montes Mdzima como fundo e um recorde de 60 mil dançarinas se apresentando no campo gramado.

Parecia uma exibição inspiradora do orgulho suazi, mas há críticos do rei que consideram essas festividades uma manipulação da cultura para ganho político. "À medida que as pessoas questionam a monarquia, cresce a necessidade de mostrar que o rei permanece popular", disse Musa Hlophe, líder de uma coalizão de grupos cívicos. "Milhares de garotas são transportadas pelo governo para a Dança do Junco, como se fosse um referendo ao próprio sistema."

Nos últimos anos, o ritual adquiriu uma empolgação adicional, pois Mswati 3º às vezes seleciona sua próxima rainha entre a multidão de virgens.

Cinsile Maseko, uma menina de 13 anos de uma aldeia a 80 quilômetros, não imaginava a possibilidade de ser escolhida, mas mesmo assim fantasiava a respeito de uma transformação matrimonial da pobreza para a opulência, se tornando uma rainha vestida em roupas finas e percorrendo o reino em um automóvel elegante.

Ela saboreou a idéia por alguns poucos segundos e então adicionou mais um pensamento agradável. "Eu estaria com o rei", ela disse. George El Khouri Andolfato

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