UOL Notícias Internacional
 

11/09/2008

Fitas dão uma idéia de Bin Laden e da Al Qaeda sob a superfície

The New York Times
Neil MacFarquhar
Uma grande quantidade de fitas cassete deixadas para trás no quartel-general de Osama Bin Laden em Kandahar, Afeganistão, foi divulgada na quarta-feira, oferecendo um retrato de sua transformação gradual de militante saudita a ameaça global, e abrindo uma janela para o cotidiano dos homens recrutados para a jihad.

Apesar da evolução de Bin Laden de opositor da dinastia governante na Arábia Saudita a comandante de uma organização terrorista internacional já ter sido detalhada antes, disse Flagg Miller, um professor assistente da Universidade da Califórnia, em Davis, que passou cinco anos traduzindo as fitas, as gravações fornecem uma visão mais espontânea da Al Qaeda do que está disponível por meio das mensagens cuidadosamente coreografadas que ela divulga.

"Há conversas secretas entre agentes-chave da Al Qaeda e entre novos recrutas que estão tentando entender o que raios está acontecendo e qual é o papel deles naquilo", disse Miller.

Em uma fita, um barulho que ficava cada vez mais alto desconcertava Miller. Finalmente ele descobriu que se tratava do som de um fogão a gás sendo usado por recrutas de baixo escalão para o preparo da café da manhã, ao lado do famoso clérigo egípcio Abu Hamza al Masri, atualmente em uma prisão britânica e lutando contra a extradição para os Estados Unidos sob acusações de terrorismo. O clérigo tentava inspirá-los comparando a fritura de ovos a travar a jihad.

"Esses pequenos momentos nos dizem como era fazer parte da jihad", disse Miller, que leciona estudos religiosos. "É tedioso. Enquanto esperam, eles criam formas de tornar a jihad urgente e iminente, de forma que desenvolvem essa narrativa extravagante comparando o café da manhã a sair em um ataque."

Miller divulgou suas conclusões em Davis, Califórnia, com uma explicação mais completa prevista para ser publicada na edição de outubro da "Journal of Language and Communication".

Apesar da biografia geral de Bin Laden já ter sido estudada, disseram especialistas, ainda existe amplo espaço para um retrato mais detalhado de seu sucesso como recrutador.

"Um dos motivos para estarmos na encrenca em que estamos no momento é porque ainda não temos uma medida do homem", disse Michael Scheuer, que deixou a CIA em 2004 e, enquanto estava lá, trabalhou na unidade especial que se concentrava em Bin Laden. "O governo americano o vê como um gângster niilista, de forma que não está interessado em descobrir se ele tem algum tipo de talento."

Scheuer disse que enquanto estava na CIA, ele só tinha conhecimento de uma gravação de Bin Laden dos anos 80. Miller trabalhou em três.

Farhana Ali, um especialista em terrorismo da RAND Corp. que passou anos estudando as declarações de Bin Laden, disse que as gravações de propaganda da Al Qaeda são bem documentadas desde 2001. Isso inclui a análise do uso de poesia tribal, referências corânicas e alusões místicas por Bin Laden.

Especialistas disseram que precisam ver o trabalho de Miller antes de concluir o quanto é novo. Mas eles disseram que trabalhos anteriores de tradução tipicamente priorizavam ameaças à segurança nacional, preocupados em se as fitas revelavam algo sobre o paradeiro de Bin Laden.

As fitas de discursos, sermões e palestras, que totalizam mais de 1.500, foram descobertas pela "CNN" no Afeganistão, em 2001, mas no final foram parar no Williams College e depois na Universidade de Yale. Elas incluem centenas de sermões de acadêmicos islâmicos, muitos deles radicais, assim como gravações das discussões de treinamento. Há pelo menos 20 fitas de Bin Laden falando, apesar de não estar claro quando e onde foram feitas.

As primeiras começam por volta de 1988 e as últimas são de 2000. Evidentemente, nenhuma das fitas são mais recentes do que 2001, quando a liderança da Al Qaeda fugiu de sua base em Kandahar, primeiro para Tora Bora e depois para locais desconhecidos. Uma palestra gravada, que não era de Bin Laden, defende a idéia de estabelecer redutos flexíveis na fronteira, como Tora Bora, com base na filosofia islâmica.

As fitas de Bin Laden falando se dividem em três períodos distintos. No final dos anos 80, ele recrutava para a jihad contra os soviéticos no Afeganistão, ajustando seu discurso para o público de todas as partes de seu país de origem, a Arábia Saudita.

Em meados dos anos 90, isso mudou. Os soviéticos tinham se retirado do Afeganistão e Bin Laden voltou sua atenção para a presença americana no Golfo como sendo uma afronta aos muçulmanos. Ele contou uma parábola do capítulo do Alcorão chamado "O Elefante", quando um exército cristão da Abissínia tentou capturar o que atualmente é o templo sagrado da Caaba, em Meca, usando a melhor tecnologia de guerra da época.

Os árabes derrotaram os invasores por meio de pura tenacidade e um milagre: pássaros que deixaram os elefantes em pânico ao jogarem pedras de seus bicos. Para Bin Laden, o episódio exemplificava a união das tribos árabes contra um inimigo comum. "Foi um momento de bravura, honra, generosidade, hombridade e o ápice do tribalismo", disse Miller, mesmo que anterior à chegada do Islã.

Por volta de 1999, a ênfase nos textos religiosos e na poesia tribal foi minimizada, substituída pelo discurso fervoroso contra os Estados Unidos. O número de soldados americanos estacionados no Oriente Médio foi detalhado como uma contagem de "frangos". A esta altura, suas palestras recebem títulos oficiais, como "A Presença da Ocupação dos Judeus e Cruzados no Coração do Mundo Islâmico".

Bin Laden é apontado como insistente na gramática árabe e nos floreios retóricos. Uma fita de um orador não nativo, assassinando a língua, parecia refletir seus preconceitos. Miller disse que estava marcada como "gheir saleh", ou "desagradável" em árabe. George El Khouri Andolfato

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