UOL Notícias Internacional
 

13/09/2008

A audácia de reivindicar a palavra final sobre esta palavra

The New York Times
Peter Steinfels
Quando se trata de religião, "ortodoxia" é uma palavra disputada. Este é o motivo para ser peculiar, para dizer o mínimo, quando a mídia se torna árbitra de quem é, digamos, um católico romano ortodoxo ou um budista ortodoxo, e quem não é.

Um recente artigo sobre religião e a corrida presidencial na revista "New Yorker", por exemplo, contrapôs católicos que saudaram as mudanças iniciadas pela Igreja no Concílio Vaticano Segundo, nos anos 60, aos católicos que "se agarraram à ortodoxia".

O papa João Paulo 2º, disse o artigo, reinterpretou o Vaticano Segundo "de acordo com as linhas ortodoxas" e encontrou aliados em um grupo de bispos católicos que eram "ferozmente ortodoxos" e determinados a "conduzir a Igreja americana na direção da ortodoxia".

Isso significa que os católicos que se mobilizaram entusiasticamente em torno do Vaticano Segundo, os papas que precederam João Paulo 2º em sua interpretação e a maioria dos bispos que vem conduzindo a Igreja americana há duas décadas não eram ortodoxos? Eles eram todos - voluntária ou involuntariamente - heterodoxos, ou mesmo hereges?

Esse seria um julgamento bem abrangente, mas é um mantido, explicita ou implicitamente, por muitos católicos conservadores. (É claro, há católicos ultraconservadores que acham que João Paulo 2º foi também um herege.) A verdadeira pergunta é, por que cabe à "New Yorker" decidir?

Para ser justo, o artigo da "New Yorker" está longe de ser o único. Esta atribuição do rótulo de "ortodoxo" a uma facção entre outras ocorre com freqüência na imprensa, ocasionalmente neste jornal.

Um motivo óbvio é a confusão entre Ortodoxo com letra maiúscula e ortodoxo com letra minúscula. Entre os judeus, se tornou convencional usar a palavra "Ortodoxo" para designar um segmento da comunidade judaica que adere a uma certa interpretação do que a crença e prática do judaísmo exige. Os movimentos conservador, reformista e reconstrucionista dentro do judaísmo podem disputar com os ortodoxos em torno de muitas coisas, mas o uso dessa palavra se tornou uma questão resolvida.

Igualmente, entre os cristãos há muito se convencionou usar Ortodoxo com letra maiúscula como um termo para distinguir a cristianismo que compartilha formas de liturgia e teologia baseadas na ala bizantina, ou de língua grega, do mundo romano e medieval, daquele que seguiu um caminho diferente no Ocidente. De novo, os católicos romanos e os protestantes podem argumentar que são tão ortodoxos quanto os Ortodoxos (ou mais), mas não brigam em torno do rótulo.

A ortodoxia com letra minúscula é outro assunto.

Em muitos grupos religiosos, a palavra, do grego para "doutrina correta" ou "crença certa", designa não um lado nas controvérsias teológicas, mas precisamente o que está em questão: o que constitui o ensinamento correto e verdadeiro dentro de uma tradição em particular?

Na luta de foice dessas controvérsias, não é incomum para alguns fiéis se apresentarem como católicos ortodoxos ou como presbiterianos ortodoxos, assim como não é incomum alguns partidários em disputas políticas se apresentarem como americanos verdadeiros ou patrióticos.

Tamanha audácia pode ser totalmente sincera, apesar de também poder ser altamente manipuladora. Nem toda divergência em torno de uma política pública é uma questão de patriotismo, assim como nem toda divergência em torno da prática litúrgica ou das prioridades pastorais é uma questão de ortodoxia. O aumento das apostas retórico não necessariamente ajuda a resolver as questões na prática.

Mas independente do assunto em debate ser central ou periférico, empregar o rótulo obviamente não resolve a questão de qual é a verdadeira doutrina, ou verdadeiro patriotismo. E a imprensa deveria ser igualmente cuidadosa em não repetir a linguagem partidária dos adversários tanto no caso religioso quanto no político.

Poderá chegar um momento em que alguns participantes desses debates concluirão que um certo rótulo não tem mais como ser resgatado. Há alguns americanos de esquerda que desistiram da alegação de serem patriotas, ou por acharem que a palavra foi irreversivelmente tomada pelos conservadores ou por acharem que ela denota um falso ideal.

Da mesma forma, nas fileiras particularmente contenciosas dos católicos de mentalidade teológica, ou talvez nas fileiras cansadas de polêmica do protestantismo, há aqueles que entregaram o rótulo de ortodoxia aos conservadores, seja por não terem mais a energia para protestar ou porque concluíram que a idéia toda de ortodoxia -doutrina correta ou crença certa- está incrustada demais com noções questionáveis para valer a pena ser defendida.

Mas a existência dessas minorias dificilmente justifica a atribuição automática de patriotismo ou ortodoxia a quem quer que a reclame primeiro ou que grite mais alto.

Em vez de simplesmente descrever alguém com sendo um fiel ortodoxo, o jornalismo faria bem se seguisse suas formas estabelecidas e descrevesse alguém como um homem que considera a si mesmo como sendo um fiel ortodoxo.

Quando se trata de nomenclatura, escrever sobre religião é certamente um campo minado. Termos como "conservador" e "liberal", "tradicionalista" e "progressista", são quase inevitavelmente abreviaturas, apesar de sofrerem de suas origens nas categorias políticas e quase inevitavelmente simplificarem de forma exagerada e dicotomizarem as realidades religiosas que são multifacetadas.

Mas "ortodoxo" é um caso especial, porque sugere uma fronteira distinta entre aqueles que pertencem apropriadamente e aqueles que estão excluídos, da mesma forma que "patriótico" pode sugerir uma fronteira entre cidadãos leais e aqueles próximos de traidores. Os líderes religiosos já têm dificuldades suficientes para lidar com esses assuntos. Os jornalistas não deveriam atrapalhar ainda mais. George El Khouri Andolfato

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