UOL Notícias Internacional
 

13/09/2008

EUA dizem que expulsarão embaixador da Venezuela

The New York Times
Simon Romero
Em Caracas (Venezuela)
Os Estados Unidos aumentaram a briga diplomática com seus adversários de esquerda na América Latina, na sexta-feira, dizendo que expulsarão o embaixador venezuelano e declarando que as duas principais autoridades de inteligência da Venezuela apoiaram "atividades narcoterroristas" dos rebeldes na região.

A medida aumenta as tensões políticas que vêm crescendo entre os Estados Unidos e a Venezuela e Bolívia nos últimos dias, provocando arrepios nos mercados financeiros daqui e reacendendo os temores em Washington de uma disputa estilo Guerra Fria na região, à medida que a Venezuela estreita cada vez mais suas relações com a Rússia.

As salvas recentes tiveram início na quarta-feira, quando o presidente sob ataque da Bolívia, Evo Morales, expulsou o embaixador americano de lá, Philip S. Goldberg, o acusando de apoiar os grupos rebeldes no leste da Bolívia.

Então na quinta-feira, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse que estava expulsando o embaixador americano de seu país, Patrick Duddy, em solidariedade a Morales e anunciando a descoberta de uma tentativa de golpe contra ele apoiada pelos americanos.

O Departamento de Estado respondeu declarando o embaixador da Bolívia em Washington como sendo persona non grata. Então na manhã de sexta-feira, ele disse que expulsaria o embaixador da Venezuela, ao mesmo tempo em que o Departamento do Tesouro acusava autoridades de inteligência venezuelanas de auxiliarem o maior grupo rebelde da Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc, "mesmo enquanto aterrorizavam e seqüestravam inocentes".

Foi a primeira vez que os Estados Unidos declararam autoridades venezuelanas específicas como sendo fornecedoras de apoio às Farc, mas a designação não chegou à opção mais série debatida em Washington nos últimos meses: classificar a Venezuela como sendo um Estado patrocinador do terrorismo. Essa medida poderia afetar significativamente o comércio anual de US$ 50 bilhões entre os dois países, deixando potencialmente o petróleo da Venezuela fora dos limites dos mercados americanos.

Ainda assim, um funcionário do governo Bush disse que a expulsão do embaixador americano injetaria uma nova urgência nessas deliberações, e que novas medidas econômicas contra a Venezuela estavam sendo debatidas.

"A expulsão do embaixador deles não coloca um fim nas coisas", disse o funcionário, que não estava autorizado a falar publicamente.

Um segundo funcionário americano disse que as acusações contra os espiões-chefe venezuelanos "poderia ser uma designação inicial", possivelmente abrindo o caminho para a Venezuela ser colocada na lista de terrorismo.

Respondendo às ações, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, disse em uma declaração na sexta-feira que "a Venezuela decidiu submeter todas as suas relações com os Estados Unidos a um processo intenso de revisão".

Ao anunciar sua ação na sexta-feira, o Departamento do Tesouro disse que o chefe da agência de inteligência militar da Venezuela, o general Hugo Carvajal, impediu que carregamentos de drogas fossem apreendidos pelas autoridades de combate às drogas da Venezuela e ajudou a fornecer armas para as Farc, que os Estados Unidos consideram uma organização terrorista.

O Departamento do Tesouro também disse que o general Henry Rangel Silva, o diretor da agência de inteligência Disip da Venezuela, "auxiliou materialmente" as atividads de narcotráfico das Farc e buscou uma maior cooperação entre o governo venezuelano e os rebeldes.

Além disso, o Departamento do Tesouro disse que uma terceira autoridade, Ramón Rodríguez Chacín, que renunciou como ministro do Interior nesta semana, era o principal contato para fornecimento de armas para as Farc no governo venezuelano. O departamento disse que o grupo rebelde usava a receita da venda de narcóticos para comprar armas do governo venezuelano.

Ao acusar as três autoridades, Washington perfurou o círculo interno de Chávez. Ambas as autoridades de inteligência são confidentes de longa data do presidente, enquanto Rodríguez Chacín foi uma figura chave nas recentes negociações de Chávez para libertação dos reféns junto às Farc. Nenhum dos três homens respondeu aos pedidos de comentário na sexta-feira.

Altos funcionários americanos disseram que a designação das autoridades venezuelanas como apoiadoras das Farc não estava relacionada às expulsões dos embaixadores americanos na Bolívia e na Venezuela. Mas a ação ocorreu em um momento de crescente briga entre os Estados Unidos e a Venezuela em uma série de questões, incluindo as alegações de que a Venezuela está crescendo como ponto de baldeação de cocaína e as preocupações com a segurança dos aeroportos venezuelanos para as companhias aéreas americanas.

Os planos de Chávez de exercícios militares com a Marinha da Rússia no Caribe também aumentaram o peso do drama político em desdobramento nesta semana, apontando para os esforços da Venezuela de responder agressivamente à influência militar americana na região, em um momento em que a Marinha americana reativou uma frota para patrulha das águas latino-americanas.

"Do ponto de vista dos Estados Unidos, a crescente aliança de segurança entre a Venezuela e a Rússia torna Chávez um problema ainda maior agora do que era antes de estourar a crise na Geórgia e do esfriamento das relações entre americanos e russos", disse Michael Shifter, vice-presidente para políticas da Diálogo Interamericano, um grupo de pesquisa em Washington.

Mas há questões internas significativas que podem interferir nestas disputas. A Bolívia está lidando com protestos violentos que estão se espalhando em seus territórios ingovernáveis do leste. Na Venezuela, o governo de Chávez está enfrentando revelações desconfortáveis sobre suas operações de espionagem e da tentativa de suborno em um julgamento de um magnata venezuelano pró-Chávez, que está ocorrendo em um tribunal de Miami, assim como o aumento da inflação e as derrotas potenciais nas eleições regionais mais à frente neste ano.

"Não acredite por um momento que ambas as expulsões tiveram algo a ver com um iminente risco de agressão por parte de um governo americano já de saída e sobrecarregado no Oriente Médio e na Rússia", disse Adam Isacson, um especialista no guerra contra as drogas andina para o Centro de Política Internacional, um grupo de pesquisa em Washington. "O que temos aqui são dois líderes extremamente necessitados de uma ameaça externa para mobilizar suas bases domésticas em um momento político volátil."

Quanto ao governo Bush, ele não tem conseguido dialogar de forma eficaz com nenhum desses governos, e o sentimento antiamericano tem crescido nos países há anos, um fenômeno competentemente estimulado tanto por Morales quanto Chávez. Na Venezuela, esse sentimento foi canalizado em 2002, quando o governo Bush aprovou tacitamente um golpe que brevemente derrubou Chávez.

Com a queda dos preços do petróleo nos mercados internacionais nas últimas semanas, o mais recente aumento da tensão política aumentou os temores financeiros aqui na sexta-feira. A moeda, o bolívar, se desvalorizou mais de 10% no mercado paralelo, com o dólar chegando a 4,50 bolívares, enquanto os títulos da Venezuela atingiram seu valor mais baixo em quatro anos por preocupação com a possibilidade de interrupção das exportações de petróleo da Venezuela para os Estados Unidos.

Apesar de Chávez ter ameaçado novamente nesta semana suspender o envio de petróleo para os Estados Unidos, esse cenário permanece improvável. Apesar de todos os alertas, a recusa em vender petróleo provavelmente prejudicaria mais a Venezuela do que os Estados Unidos.

Os Estados Unidos são os principais compradores de seu petróleo e portanto os principais financiadores das tentativas de Chávez de exercer maior controle sobre a sociedade venezuelana. Por sua vez, as refinarias americanas poderiam comprar petróleo de outros lugares, apesar de que uma interrupção no fornecimento do petróleo venezuelano poder causar ondas em uma economia americana já enfraquecida.

De fato, a disputa já parece ter algumas repercussões. Honduras disse na sexta-feira que adiou o credenciamento do embaixador americano lá, expressando apoio à Bolívia e Venezuela, mas insistindo que não rompeu relações com os Estados Unidos.

A ação do Departamento do Tesouro na sexta-feira se baseou em informação extraída dos computadores recuperados em um ataque das forças de segurança colombianas contra um campo das Farc no Equador, em março passado, assim como de outras fontes de inteligência, segundo um funcionário do governo Bush.

Nas cópias dos arquivos de computador obtidas pelo "The New York Times" em março passado, um membro do secretariado de sete membros das Farc se refere a Carvajal, o chefe da inteligência militar venezuelana, como alguém que está arranjando um negócio de armas para os guerrilheiros por meio do Panamá. Em outra referência, Carvajal também foi mencionado como ligação para tratar da morte de seis soldados venezuelanos pelas Farc, em solo venezuelano naquele mês.

Com as mais recentes acusações de Chávez de um plano de golpe apoiado pelos americanos, vários atuais e ex-oficiais militares foram detidos para interrogatório, provocando queixas entre os críticos domésticos.

"Demonstre respeito, presidente", disse Miguel Henrique Otero, publisher do jornal "El Nacional" e coordenador de um grupo de oposição às políticas socialistas de Chávez.

"O único planejador de golpe é você", prosseguiu Otero, fazendo uma referência à tentativa fracassada de golpe de Chávez em 1992 para derrubada do governo venezuelano, um evento que lhe rendeu notoriedade. George El Khouri Andolfato

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