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13/09/2008

Juventude chilena vive uma explosão de sexualidade

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Santiago (Chile)
São pouco mais de 17h naquele que era um dos países mais sexualmente conservadores da América Latina, e a juventude do Chile dança ao compasso de uma batida de reggae. Na discoteca Bar Urbano, adolescentes de 14 a 18 anos levantam as camisas, mostrando sutiãs, tatuagens e piercings de mamilos.

O local é um emaranhado de lábios, línguas e mãos exploradores. Cerca de 800 adolescentes giram e sacodem-se ao som de uma música cujas letras imploram a eles: "Poncea! Poncea!": transe com o maior número de pessoas possível.

E é isso o que eles fazem - com um desconhecido após o outro, em busca da honra de ser conhecido como o "ponceo", a pessoa que mais transa.

O Chile, que durante muito tempo foi tido como uma das sociedades mais tradicionais da América do Sul, está chocando-se de frente com essa reputação devido aos seus adolescentes precoces. Os jovens chilenos estão vivendo um período de exploração da sexualidade que, segundo acadêmicos e autoridades do governo, é diferente de tudo que o país já testemunhou anteriormente.

"A juventude do Chile está sem dúvida tendo experiências sexuais mais cedo, e testando os limites da conduta sexual", afirma o médico Ramiro Molina, diretor do Centro de Medicina Reprodutiva e Desenvolvimento dos Adolescentes, na Universidade do Chile.

O despertar sexual está ocorrendo por meio de uma indústria crescente de festas para menores de 18 anos, uma explosão de conexões à Internet e websites como o Fotolog, no qual os jovens trocam fotos ousadas e organizam festas de fim de semana, algumas das quais atraem mais de 4.500 adolescentes. As redes online encorajaram os adolescentes a se expressarem de uma maneira incomum na conservadora sociedade chilena.

"Não somos os filhos da ditadura; somos filhos da democracia", disse Michele Bravo, 17, em uma recente festa vespertina. "Atualmente há muito mais espírito rebelde entre a juventude. Existe muito mais liberdade para explorar tudo".

Os pais e avós dos adolescentes de hoje lutaram arduamente para proporcionar a eles tais liberdades e para que os jovens escapassem da era da queima de livros durante a ditadura do general Augusto Pinochet. Mas em um país que só legalizou o divórcio em 2004, e que ainda proíbe estritamente o aborto, a exploração febril da sexualidade por parte da geração mais jovem representa novos desafios para pais e educadores. A educação sexual nas escolas públicas está bastante defasada, e o índice de gravidez entre meninas de menos de 15 anos tem aumentado, segundo o Ministério da Saúde.

"Realmente, a sexualidade adolescente mudou em toda a América Latina", afirma Ramiro. "E, sublinhando grande parte da recém-descoberta liberdade está um problema enfrentado por sociedades em todo o mundo: a explosão dos sites de conteúdo erótico e de redes sociais na Internet".

No ano passado a sociedade chilena sofreu um abalo quando foi descoberto um site mostrando um vídeo de uma garota de 14 anos praticando voluptuosamente sexo oral com um adolescente no banco de um parque de Santiago. O episódio tornou-se um escândalo nacional, gerando acusações à escola da garota, ao provedor de Internet e contra todos, menos os garotos que filmaram a cena com um telefone celular e distribuíram o vídeo.

O Chile encontra-se estável, a sua economia baseada no mercado contribuiu para estimular as mudanças, gerando uma onda de consumo e de crédito sem precedentes na história do país. O Chile tornou-se o maior consumidor per capita de tecnologia digital da América Latina, incluindo telefones celulares, televisores a cabo e contas de Internet de banda larga, segundo um estudo realizado pela firma de consultoria Everis, com sede em Santiago, e o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Navarra, na Espanha.

O índice de conexão à Internet dos chilenos é superior ao dos outros sul-americanos, e o maior uso se dá entre crianças de 6 a 17 anos. Segundo Miguel Arias, psicólogo e diretor da firma de consultoria Divergente, em Santiago, é aí que se encontra um fator central para a recém-descoberta exploração da sexualidade no país.

Nos últimos dois anos, o Fotolog, uma rede de compartilhamento de fotografias criada nos Estados Unidos, deslanchou neste país. Segundo a companhia, atualmente o Chile, que tem 16 milhões e habitantes, possui 4,8 milhões de contas no Fotolog, um número superior ao de qualquer outro país. Novamente, as crianças de 12 a 17 anos detêm mais de 60% das contas.

Os promotores de festas usam o Fotolog, bem como o MSN Messenger, a fim de organizar os encontros de fim de semana, convidando astros do Fotolog - os mais populares usuários do site, com base no número de comentários que recebem - para ajudarem a fazer propaganda das festas e comparecerem como VIPs que entram gratuitamente. Muitos dos que freqüentam as festas usam somente apelidos, e alguns dos eventos mais animados são dominados por adolescentes que autodenominam-se "Pokemones", com os seus diversos piercings, cabelos oxigenados e parafinados e comportamento rebelde.

Arias conduziu um estudo sobre o fenômeno Fotolog, escrutinando os tipos de fotos que os adolescentes colocam no site, e até mesmo os ângulos e as distâncias das fotografias. Segundo ele, tudo faz parte de uma linguagem "identificável". "Os adolescentes de hoje estão expressando a sua sexualidade de formas eróticas para que o mundo inteiro veja", afirma Arias.

Esse mundo online também se estende aos parques, praças e festas vespertinas de Santiago, locais para onde os adolescentes vão com o objetivo de descobrir o lado físico das suas paqueras digitais. Na tarde de uma sexta-feira, na discoteca Bar Urbano, Claudio, um rapaz de 17 anos, dançava com Francisca Durante, também de 17 anos, a quem ele acabara de conhecer, e logo os dois se beijavam e se esfregavam. Eles posaram com prazer para fotos, sugando os dedos uns dos outros, enquanto Claudio colocava as mãos dentro da blusa da garota. Alguns minutos depois eles se separaram, e Claudio começou a brincar com os cabelos de uma outra garota. Logo eles também beijavam-se apaixonadamente. Claudio, que não quis fornecer o seu sobrenome, manteve esse tipo de relacionamento com pelo menos duas outras adolescentes naquela noite.

"Antigamente as pessoas se conheciam, apaixonavam-se e começavam a namorar sério aqui. Mas em uma festa de hoje em dia, você conhece umas três pessoas e transa com todas as três", diz Mario Munoz, 20, co-proprietário da Imperio Productions, que organiza algumas das maiores festas para menores de 18 anos.

"São pouquíssimos os adolescentes que mantêm um relacionamento sério", diz ele, uma opinião compartilhada por alguns dos médicos que tentam reduzir o índice de gravidez adolescente no país.

Em um sábado recente, cerca de 1.500 adolescentes aglomeravam-se no cavernoso Cadillac Club, uma outra discoteca no centro da cidade, para o evento semanal da Imperio Productions. Os participantes da festa, alguns com apenas 1,52 metro de altura, faziam fila no bar para comprar Fanta e Sprite, usando óculos de dimensões exageradas.

Não faz muito tempo que Munoz e o seu irmão Daniel eram adolescentes e participavam eles próprios de festas desse tipo. Agora eles defendem as festas dizendo que elas constituem-se em uma diversão boa e limpa. Bebidas alcoólicas não são permitidas e não se vende cigarro, embora o hábito de fumar seja generalizado entre os adolescentes do Cadillac Club. Seguranças monitoram os banheiros e expulsam regularmente garotos que passam dos limites - caso as garotas reclamem.

Os irmãos Munoz dizem que os promotores das festas sentem-se pressionados para serem "mais quentes" do que os concorrentes. Isso inclui a contratação de dançarinos e dançarinas mais velhos vestidos em trajes sumários, shows de strip-tease que vão até o limite do que é permitido pela lei e nomes de festas cuja intenção é provocar, como "O que você faria no escuro?". Naquela noite, a dança foi interrompida por um concurso de "tapas". Um adolescente, retirado da multidão, foi vendado e teve os braços imobilizados atrás das costas. Garotos e garotas em uma fila revezavam-se aplicando-lhe bofetões, sendo que o último tapa foi aplicado por um DJ parrudo que fez com que o garoto fosse arremessado até o outro lado do palco. Enquanto esfregava o rosto vermelho, o garoto obteve a sua recompensa: a chance de beijar em público uma garota que escolheu, sob os gritos dos outros adolescentes.

"Tudo começa com o beijo", disse Nicole Valenzuela, 14, durante um intervalo da dança no Cadillac Club.

"Depois do beijo vem o amasso, e, depois disso, a penetração e o sexo oral", acrescentou Valenzuela. "É isso o que acontece, algumas vezes até em locais públicos".

A mãe dela, Danitza Geisel, uma terapeuta sexual de 34 anos, disse em uma entrevista que não precisa se preocupar com o fato de a filha freqüentar as festas e, expressando uma visão meio contrária a dos acadêmicos daqui, afirmou que a atual geração de adolescentes não é mais promíscua do que as anteriores. Mas Geisel lamentou o atraso da educação sexual no Chile.

Os pais da maioria dos adolescentes de hoje nunca receberam educação sexual formal. Os programas da escola pública chilena foram criados no final da década de 1960. Mas depois do golpe militar de 1973, o governo Pinochet ordenou que os materiais para educação sexual fossem destruídos, e o conservadorismo moral tomou conta do cenário. Foi somente 20 anos mais tarde, em 1993, que um novo currículo sexual foi introduzido nas escolas. Mesmo assim, em 2005, 47% dos alunos afirmavam só receber educação sexual uma ou duas vezes ao ano, e isso quando recebiam qualquer educação do gênero. E agora os educadores dizem que lutam para acompanhar a avalanche de informações e imagens sexuais na Internet.

"É claro que não estou feliz com isso", diz Maria de la Luz Silva, diretora da unidade de educação sexual do Ministério da Educação. Ela afirma que a explosão do acesso à Internet criou uma "tremenda brecha cultural" que pressiona os limites dos educadores, mas acrescentou que o ministério está implementando um novo currículo de educação sexual neste ano com o objetivo de "proteger" melhor os adolescentes.

Por ora, os adolescentes chilenos estão tomando decisões por conta própria.

"Isto tem a ver com estar vivo", argumentou Cynthia Arellano, 14, após a festa do Bar Urbano. "Tudo diz respeito a dançar, rir e substituir as letras das músicas por algo sujo".

E, com uma ligeira gargalhada, ela concluiu. "Bem, é algo que diz respeito a transar com outros garotos".

Pascale Bonnefoy e Tomas Munita contribuíram para esta reportagem. UOL

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