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13/09/2008

Krugman: equipe de McCain usa chuva de mentiras contra democratas

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Você ouviu falar que Barack Obama quer estender a educação sexual ao jardim de infância e chamou Sarah Palin de porca? Você ouviu falar que Palin disse ao Congresso "não obrigada", quando lhe ofereceram uma 'Ponte para Lugar Nenhum' no Alaska?

Essas histórias têm duas coisas em comum: são todas alegações recentemente feitas pela campanha de McCain e são mentiras descaradas.

A desonestidade não é nova na política. Eu passei grande parte do ano 2000 - meu primeiro ano no "New York Times" - tentando alertar os leitores sobre a desonestidade das declarações de campanha de Bush sobre impostos, gastos e segurança social.

Entretanto, não consigo lembrar de qualquer precedente, ao menos nos EUA, para a chuva de mentiras que ouvimos desde a convenção republicana. As mentiras da campanha de Bush em 2000 foram engenhosas - a pessoa precisava ter alguma noção de aritmética para compreender que estava sendo enganada. Neste ano, contudo, a campanha de McCain fica fazendo afirmativas que qualquer um com uma conexão de Internet pode refutar em um minuto - e repetindo essas afirmativas sem parar.

Veja o caso da 'Ponte para Lugar Nenhum', que supostamente dá credenciais de reformista a Palin. Bem, quando estava fazendo campanha para governadora, ela não disse "não obrigada" - ela foi totalmente a favor da ponte, que já tinha se tornado um escândalo nacional, insistindo que não ia "permitir que mentes ardilosas tornassem esse projeto ou qualquer outro em algo tão negativo".

E quando finalmente decidiu cancelar o projeto, ela não rejeitou devidamente o dinheiro de Washington: ela aceitou a verba, mas gastou em outra coisa. Você vê, muito antes dela decidir cancelar a ponte, o Congresso tinha dito que o Alaska poderia ficar com o dinheiro federal originalmente destinado ao projeto e usá-lo em outra coisa.

Então, toda essa história da postura heróica de Palin conta o desperdício é ficção.

Tome por exemplo a história de que Obama teria defendido a educação sexual no jardim de infância. Na realidade, ele apoiou a lei que pede "educação apropriada para cada faixa etária e de desenvolvimento"; no caso de crianças, isso significaria orientação para ajudá-las a evitar predadores sexuais.

Além disso, eles alegam que, quando Obama usou a metáfora comum "colocar batom e um porco", fez uma calúnia machista e assim por diante.

Por que o pessoal de McCain acha que pode se safar com esse tipo de coisa? Bem, provavelmente estão contando com a prática da mídia de ser "equilibrada" a todo custo. Você sabe como funciona: se um político diz que preto é branco, a reportagem não diz que ele está errado, e sim que "alguns democratas dizem" que ele está errado. Ou então uma mentira grotesca de um lado é comparada com um erro trivial do outro, dando a impressão que os dois lados são igualmente sujos.

Provavelmente, também estão contando com a preponderância das reportagens que fazem das eleições uma corrida de cavalos, de forma que, em vez do assunto ser "A campanha de McCain mente", torna-se "Obama na defensiva diante dos ataques".

Ainda assim, quão irritados devemos ficar com as mentiras da campanha de McCain? Ou seja, política não é brincadeira de criança e tudo mais.

Uma resposta é que a lama sendo jogada pela campanha de McCain está impedindo o debate de questões reais - se este país realmente quer, por exemplo, dar continuidade à política econômica dos últimos oito anos.

Contudo, há outra resposta, que talvez seja ainda mais importante: que uma campanha política fala sobre como seria o governo daquele candidato.

Não estou falando da teoria muitas vezes usada como defesa das reportagens políticas de corrida de cavalo: que as habilidades necessárias para dirigir uma campanha vitoriosa são as mesmas necessárias para dirigir um país. O contraste entre a eficácia brutal do time político de Bush e o incrível papel da administração Bush é uma prova viva do contrário. Uma prova que vive, respira, tropeça e, no caso do escândalo do Departamento do Interior, cheira cocaína e pula na cama.

Em vez disso, estou falando sobre a relação entre o caráter de uma campanha e o da administração que se segue. Assim, a campanha enganosa e desonesta de Bush-Cheney em 2000 forneceu um vislumbre revelador das coisas que estavam por vir. De fato, minha suspeita inicial de que estávamos sendo enganados sobre a ameaça do Iraque veio pela semelhança da prática política que estava sendo usada para vender a guerra com a tática que antes tinha sido usada para vender os cortes de impostos de Bush.

E agora o time que espera formar o próximo governo está fazendo uma campanha que faz Bush-Cheney 2000 parecer uma aula de moral e cívica. O que isso diz sobre como esse time dirigiria o país?

O que diz, eu argumentaria, é que a campanha de Obama está errada em sugerir que um governo McCain-Palin seria apenas uma continuação de Bush-Cheney. Se a forma como John McCain e Sarah Palin estão fazendo campanha servir de indicação, seria muito, muito pior. Deborah Weinberg

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