UOL Notícias Internacional
 

14/09/2008

Crianças do Haiti, as mais pobres do mundo

The New York Times
Marc Lacey

Em Gonaives (Haiti)
Milhares de mulheres desesperadas se empurravam e acotovelavam para conseguir abrir caminho até os alimentos que eram distribuídos na semana passada nos subúrbio da cidade inundada. Um pouco mais afastados, estavam os restaveks, os verdadeiramente desesperados.

Conforme uma mulher após a outra pegava um saco de arroz, uma sacola de feijão e uma lata de óleo de cozinha, os restaveks, um termo em creole usado para descrever os trabalhadores infantis do Haiti, ajoelhavam-se para pegar os grãos que caiam na terra sem querer.

A seqüência de furacões e tempestades tropicais que no mês passado atingiu a metade ocidental de Hispaniola, ilha onde ficam o Haiti e a República Dominicana, desnudou a pobreza e as profundas divisões sociais do Haiti, onde há ricos, pobres e os absolutamente desprovidos. Ninguém ilustra esse último grupo melhor do que os restaveks, milhares de crianças pequenas haitianas dadas por seus pais pobres para famílias numa situação melhor de vida, mas que na maioria também enfrentam dificuldades.

O termo restaveks significa literalmente "ficar com". É o que as crianças fazem com seus anfitriões, trabalhando como empregados domésticos em troca de um teto sobre suas cabeças, algumas sobras de comida e, em tese, a chance de ir para a escola. Na prática, entretanto, os restaveks são uma presa fácil para a exploração. Os defensores dos direitos humanos dizem que eles são espancados, abusados sexualmente e freqüentemente privados do acesso à educação, já que muitas famílias anfitriãs acreditam que a escola os fará menos obedientes.

A Unicef estima que 300 mil crianças haitianas foram afetadas pelas recentes tempestadas, e muitas delas foram forçadas a se mudar para abrigos ou telhados de casas.

Mas os jovens haitianos sofriam significativamente mesmo antes de os céus escurecerem com os furacões Fay, Gustav, Hanna e Ike, quando mais de 300 perderam a vida. O país tem a taxa de mortalidade mais alta do hemisfério ocidental entre crianças abaixo dos cinco anos, assim como a maior taxa de mortalidade entre recém-nascidos e mulheres em trabalho de parto. Apenas um pouco mais da metade das crianças em idade escolar estão de fato matriculadas. A presença de restaveks nas escolas, é claro, é muito menor do que isso.

"Muitos deles são tratados como animais", disse uma oficial da ONU que pediu para permanecer anônima por não ter autoridade para falar sobre o delicado tema. "Eles são cidadãos de segunda classe, pequenos escravos. Basta dar um pouco de comida e eles limpam sua casa por nada."

Gonaives, que fica no noroeste do Haiti, não era uma cidade em expansão quando foi atingida pelas tempestades. Havia sido devastada por um furacão em 2004, do qual ainda estava se recuperando. No entanto, isso não impediu que muitas famílias pobres adotassem os restaveks, filhos dos mais pobres entre os pobres. "Quase todas as famílias têm um", disse uma das mulheres furando a fila de alimentos.

São crianças como Widna e Widnise, gêmeas de 12 anos de idade que estão na mesma casa em Gonaives há dois anos.

Elas acordam cedo para pegar água, coletar madeira, cozinhar, limpar o chão e a casa. Elas observam quando os dois filhos de sua família anfitriã, que têm quase a mesma idade, tomam café da manhã e saem para a escola. As gêmeas não comem nada de manhã e ficam em casa trabalhando.

As meninas estão numa situação melhor do que a maioria, dizem. Elas recebem palmadas nas mãos se desobedecem, mas não apanham na cabeça, como contam que acontece com muitos restaveks das casas vizinhas. À noite, elas comem junto com as duas outras crianças e dormem em esteiras no chão, assim como as outras. Elas tinham sapatos, diferentemente de muitos de seus colegas. Perderam os calçados na inundação.

As meninas, porém, falam que não gostam de sua situação. As outras crianças as importunam, dizendo todo o tempo que elas não vão crescer, que elas serão sempre serviçais. E elas sentem falta da mãe, que trabalha no interior do país como empregada doméstica e visita as garotas quando pode. Ela diz às meninas que as levará para casa assim que conseguir sustentá-las.

"Nossa mãe é muito pobre para tomar conta de nós", diz Widna, a mais falante das duas, acrescentando enfaticamente: "nós não queremos ser restaveks."

O que elas mais queriam de imediato na terça-feira à tarde era comida. A família anfitriã havia saído da casa inundada, deixando as garotas sozinhas. Chegaram na escola no bairro de Praville, onde os alimentos da ONU estavam sendo distribuídos, mas foram avisadas de que apenas as mulheres poderiam entrar na fila.

As meninas, pequenas para sua idade, sentaram-se próximas à multidão, até que perceberam que um pouco de arroz e feijão erra derrubado em meio à confusão. Entreolharam-se e entraram em ação junto com alguns outros restaveks, catando os grãos do chão, um a um. Eloise De Vylder

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