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15/09/2008

Atleta paraolímpica ganha ouro aos 52, depois de 26 anos de luta

The New York Times
Alan Schwarz
Clientes da loja de departamentos Home Depot de Bend, Oregon, às vezes ficam impacientes quando a mulher de meia idade da sessão de jardinagem não consegue entender uma pergunta simples - "Onde estão as lâmpadas?" - e pede para eles escreverem as palavras numa prancheta que ela carrega. Mas normalmente isso é suficiente para que ela responda, "Ah, no corredor 4."

Vinte e seis anos depois de um acidente de bicicleta quase fatal que a deixou em coma por dois meses e acarretou danos cerebrais permanentes, a vendedora Barbara Buchan faz muitas coisas de modo mais lento que os outros. Mas na quarta-feira em Beijing, ela fez algo em tempo recorde.

Buchan, que tem 52 anos e é a integrante mais velha da equipe paraolímpica dos EUA, quebrou o recorde e ganhou a medalha de ouro em sua categoria de deficiência na modalidade de perseguição individual de 3 mil metros do ciclismo. Para uma mulher que viveu sem um quarto do lóbulo esquerdo-temporal do cérebro e com sérios problemas físicos e cognitivos desde o acidente que aconteceu quando fazia um teste para entrar na equipe olímpica de ciclismo dos EUA em 1982, o momento coroou uma reviravolta notável que levou mais tempo do que a idade de muitas de suas adversárias.

"Você pode ficar muito chateada com o mundo e fazer com que todos cuidem de você", disse Buchan por telefone de Beijing, "ou pode voltar a andar com as próprias pernas."

Buchan cresceu em Mountain Home, Idaho, e a primeira vez que sonhou com o ouro olímpico tinha 15 anos de idade, ao assistir os Jogos de Munique em 1972. Ela havia se tornado uma das principais ciclistas norte-americanas em julho de 1982, quando um acidente horrível em uma corrida de estrada estilhaçou seu crânio e fez com que os médicos duvidassem de sua sobrevivência. Na época, ela usava apenas um capacete maleável de couro, e o acidente disseminou a norma de uso dos capacetes duros que hoje são comuns entre os ciclistas.

Aos 25, Buchan passou por quatro cirurgias para remover partes danificadas do cérebro para implantar uma série de placas de titânio para reconstruir seu crânio. Ela saiu do coma para enfrentar seis anos de dolorosa reabilitação - o tecido ósseo havia crescido sobre os seus cotovelos, travando seus braços - e a possibilidade de não voltar a andar ou falar novamente.

"Ela passou por todas as cirurgias e pela reabilitação, e é claro que ela queria voltar para a bicicleta", disse a mãe, Reba Buchan, por telefone desde sua casa em Coast Falls, Idaho. "Foi apenas um ano depois do acidente. Papai ficou muito chateado", disse sobre a reação do marido, Gil. "Dissemos, 'Barbie, por favor, não faça isso'." Mas quando disseram que ela não iria mais andar, por Deus, ela andou. E quando dizem que ela não pode fazer algo, ela faz."

Buchan recuperou habilidade atlética suficiente para competir em 1988 nos Paraolímpicos de Seoul, na Coréia do Sul, onde ganhou uma medalha de prata nos 800 metros. O ciclismo feminino não havia sido incluído ainda nos Paraolímpicos, então Buchan treinou até o ponto de competir contra os homens nos Paraolímpicos de Sidney, em 2000 - ela terminou em nono e décimo lugar em duas corridas - e então lutou para que houvesse uma prova feminina separada, o que aconteceu em 2004 em Atenas, onde ela não ganhou medalha.

Apesar de estar perto dos 50 e de ter um emprego fixo na sessão de jardinagem do Home Depot, Buchan ainda queria ganhar a medalha com a qual sonhou quando tinha 15 anos. Ela continuou correndo e conseguiu de entrar novamente na equipe paraolímpica dos EUA para competir em Beijing, onde ela tem o dobro da idade da maioria de seus colegas e adversários - e é 11 anos mais velha que Dara Torres, a nadadora americana que ganhou três medalhas de prata nas Olimpíadas no mês passado.

"Bárbara é a matriarca de nossa equipe - ela já passou por tudo", diz Craig Griffin, técnico da equipe de ciclismo dos EUA. "Ela nunca se aposentou. Ela nunca deixou seu corpo parar e voltar. Não acho que a idade seja um problema como as pessoas acreditam."

Buchan acrescentou uma risada: "As garotas são bem mais jovens. Eu normalmente passo mais tempo com os organizadores."

A força e a resistência das pernas de Buchan ajudaram a compensar os problemas de coordenação em seus braços e dedos, que impedem que ela mude a marcha da bicicleta. Seus colegas de equipe ajudam-na a apertar os raios da bicicleta e a fazer outros ajustes antes das corridas. E como Buchan ainda tem problemas para ler e falar - que pioram quando ela está cansada depois da corrida - ela precisa de ajuda para fazer muitas tarefas cotidianas.

"Dizemos a ela, 'Barbie, desista - já basta'", disse a mãe. "Ela está se deteriorando. Eu vejo seu estado de saúde, os problemas que ela tem com a fala e as frustrações pelas quais ela passa para fazer as coisas. Mas o ciclismo é a sua vida."

Buchan ainda tem outra corrida em Beijing, de 25 quilômetros contra o relógio na estrada na sexta-feira. Os outros competidores perguntam a ela quando ela irá se aposentar, ao que ela responde: "Não estou nem pensando nisso."

A loja do Home Depot exibe com destaque um pôster grande de Buchan, do lado da bandeira dos EUA, perto da sessão de jardinagem - que está sem uma de suas mais valiosas funcionárias.

"Ela é amigável, amorosa e está sempre feliz", diz Glenda Davila, gerente de operações da loja. "Estamos muito felizes porque ela ganhou o ouro. Não dá pra acreditar que ela está ganhando medalhas na China e trabalha em nossa loja."

Reba Buchan, que acompanhou os jogos de sua casa em Idaho, a 1,5 quilômetro de onde Barbara cresceu, disse que se lembra do dia em que a filha voltou para a bicicleta, sob os protestos do pai. Bárbara pedalou para longe, mais rápido do que a mãe conseguia correr atrás dela.

"Num minuto ela havia desaparecido", lembra-se Reba Buchan. "Ela ainda não tem muita sensibilidade nas mãos. Mas não larga aquela bicicleta." Eloise De Vylder

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