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15/09/2008

Aumenta o número de mortos na crise boliviana

The New York Times
Simon Romero
Em La Paz, Bolívia
O presidente Evo Morales está enfrentando a crise mais crucial de sua presidência, uma vez que o número de mortes devido à violência no norte rebelde da Bolívia aumentou para quase 30 durante o final de semana.

Os defensores de Morales disseram no domingo que o número de mortos pode aumentar, com dezenas de pessoas envolvidas na violência e das quais não se conhece o paradeiro.

Uma calma relativa retornou ao departamento de Pando, norte do país, no domingo, depois que Morales decretou a lei marcial e os soldados despachados de La Paz controlaram o aeroporto e outras instalações em Cobija, a capital do departamento. Mas a ameaça de tumulto persiste em outras partes da Bolívia, e líderes políticos das planícies tropicais que fazem fronteira com o Brasil disseram que iriam reiniciar os protestos se as mortes em Pando continuassem.

Morales disse que a violência foi um massacre realizado em parte por "mercenários peruanos e brasileiros" contratados pelo governador de Pando, Leopoldo Fernandez, que continua escondido para evitar ser preso. Em comentários a uma rádio local, Fernandez negou a acusação, garantindo que as mortes resultaram de confrontos entre manifestantes contra o governo e os defensores do presidente.

No domingo, Juan Ramon Quintana, um alto assessor de Morales, disse a uma emissora local de rádio que Fernandez havia sido preso, informou a The Associated Press.

A violência assinala uma tensão persistente quanto à tentativa de Morales de redistribuir os royalties do petróleo e reformular a Constituição para acelerar a reforma agrária e criar um sistema legal separado para a maioria indígena da Bolívia. A maior parte do gás natural e dos alimentos da Bolívia é produzida nas planícies do leste, e os governos daqueles departamentos irritaram-se com as propostas do presidente.

A polarização no país intensificou-se em agosto depois que Morales conquistou a aprovação para suas políticas, com 67% dos votos, em um referendo nacional, refletindo o intenso apoio que tem no altiplano rural e em cidades grandes como La Paz e Cochabamba. Mas os governadores nos departamentos do leste que exigem maior autonomia política e econômica do governo de Morales foram confirmados em seus cargos com margens semelhantes.

"Existe um conflito entre o poder nacional constitucional e o poder regional de fato, que só pode ser resolvido pela força da Constituição", disse Heinz Doeterich, um analista político que mora no México e escreve sobre os movimentos esquerdistas na América Latina. "Se Evo não usar o Poder Judiciário e os militares, não terá como governar".

A lealdade entre os próprios militares tem sido questionada, porém. O general Luis Trigo, o principal comandante das forças armadas, reagiu com grande irritação à afirmação feita na semana passada pelo presidente Hugo Chávez da Venezuela, o principal aliado de Morales, de que a Venezuela poderia intervir militarmente na Bolívia, se Morales fosse derrubado.

No sábado, Chávez provocou ainda mais os militares bolivianos, dizendo que eles pareciam estar em greve enquanto a instabilidade reinava em algumas áreas. Chávez disse esperar que a realização de uma reunião de líderes sul-americanos hoje em Santiago, capital do Chile, possa aliviar a tensão.

A crise também ilustra o declínio da influência norte-americana na Bolívia. Na semana passada Morales expulsou Philip S. Goldberg, o embaixador norte-americano, acusando-o de apoiar os grupos que buscam maior autonomia política na região das planícies. Em uma mostra de solidariedade, a Venezuela expulsou o embaixador norte-americano e Honduras recusou-se a aprovar a chegada do embaixador americano.

Na Bolívia, a ordem de expulsão chegou depois que defensores de Morales, um ex-produtor de coca, acusou a embaixada americana de fomentar a rebelião por meio de projetos antidrogas financiados pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) e cooperação em operações de inteligência estabelecidas no governo anterior.

"As acusações que foram feitas contra mim, contra a embaixada, contra a USAID, contra meu país e contra meu povo, são completamente falsas e injustificadas", disse Goldberg no domingo, antes de embarcar em um avião para os Estados Unidos.

Os países vizinhos da Bolívia estão cada vez mais buscando a mediação do Brasil entre Morales e seus opositores nas regiões, mesmo que os líderes das planícies do leste estejam incomodados com o apoio do presidente do Brasil a Morales. As remessas de gás natural boliviano para o Brasil foram interrompidas na semana passada depois que sabotadores causaram uma explosão em um gasoduto no departamento de Tarija, no sul.

Santa Cruz, um departamento nas terras baixas que é a região mais próspera da Bolívia, foi um dos focos de protestos na semana passada. A violência mais intensa, porém, desencadeou-se em Pando, a pobre e desabitada região nas planícies amazônicas que fazem fronteira com o Brasil.

Forças de segurança interromperam o acesso aéreo a Pando depois de declarar estado de sítio. Moradores e viajantes que conseguiram sair falaram ter ouvido tiros esporádicos nas ruas de Cobija mesmo depois de ter sido imposta a lei marcial.

No domingo, pouco de definitivo se sabia a respeito das mortes ocorridas nos últimos dias, a cerca de 30 quilômetros de Cobija. O ministro da Defesa, Walker San Miguel disse pela TV estatal que o governo estava trabalhando com o Brasil para capturar os atacantes armados que tentaram fugir pela fronteira de Pando para a Amazônia brasileira.

A crise que se desenvolve reflete uma Bolívia polarizada com imensas diferenças de esperanças e interesses.

Os esforços de Morales para conferir direitos civis aos indígenas Aymaras e Quéchuas, há muito tempo negligenciados, que povoam o altiplano, dependem de sua habilidade de arrebatar o controle sobre os royalties do petróleo das terras baixas. Mas essa região mais rica mudou a sua atenção do governo centralizado em La Paz e em direção ao poderoso capitalismo do Brasil como uma inspiração para o desenvolvimento.

Em Santa Cruz, a tensão pareceu ter-se atenuado no domingo. Os bloqueios de rodovias, por manifestantes contra o governo, foram suspensos e os automóveis circularam livremente na cidade que ficou imobilizada durante dias devido à falta de fornecimento de gasolina e diesel.

Uma imagem mais volátil emergiu de Pando da fracionada Bolívia que Morales luta com dificuldades para manter unida. Em Filadelfia, outra comunidade abalada pela violência - a prefeitura foi incendiada no final de semana - informou-se sobre a morte de três estudantes.

Adriano Jurado, cujo filho, Wilson, está entre os mortos, implorou às autoridades para ver seu corpo. "Eu quero ver meu filho", disse Jurado chorando, em uma entrevista para uma emissora de rádio, dirigindo-se ao desaparecido governador de Pando. "Leopoldo Fernandez, onde está meu filho". Claudia Dall'Antonia

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