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16/09/2008

Friedman: deixando os EUA estúpidos

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Imagine por um minuto que houvesse observadores da Rússia, Irã e Venezuela na convenção republicana em St. Paul, sentados em um camarote com vista para o palco. E imagine por um minuto o que esses observadores estariam fazendo quando Rudy Giuliani gritava junto com os delegados: "Perfure, baby, perfure!"

Eu lhes direi o que eles estariam fazendo: os observadores russos, iranianos e venezuelanos estariam de pé, dando as mãos e gritando mais alto do que qualquer outro no salão -"Sim! Sim! Perfure, EUA, perfure!" Se os EUA estiverem concentrados acima de tudo em procurar petróleo, estarão mais determinados em sustentar seu vício no petróleo do que em deixá-lo.

Por que o Partido Republicano, partido das empresas, faria nosso país se concentrar em dar vida para uma tecnologia do século 19 - combustíveis fósseis - em vez de dar à luz a uma tecnologia do século 21 - energia renovável? Como argumentei antes, me faz pensar em uma pessoa que, às vésperas da revolução de IT - dos PCs e da Internet - estivesse batendo na mesa para que os EUA produzissem mais máquinas de escrever e papel carbono. "Máquinas de escrever, baby, máquinas de escrever."

É claro que vamos precisar de petróleo por muitos anos, mas, em vez de exaltar isso - com "perfure, baby, perfure", por que não jogar toda a nossa energia em uma indústria nova de energia limpa, com o mantra: "invente, baby, invente"? É isso o que um partido comprometido com a "mudança" realmente estaria fazendo. Como dizem no Texas: "Se tudo o que você faz é tudo o que você já fez, então tudo o que você terá é tudo que você já teve."

Atenho-me a essa questão porque simboliza a campanha que John McCain escolheu fazer. Hoje, está baseada em tornar tudo em uma questão cultural - até a política energética, mesmo que isso torne os eleitores estúpidos e enfraqueça os EUA.

Eu respeitei a determinação de McCain em apoiar o aumento de tropas no Iraque, mesmo que lhe custasse a nomeação republicana. Agora, o mesmo sujeito que não vendeu sua alma para vencer a nomeação do partido está pronto a vender cada parte de sua alma para vencer a presidência.

Para despistar o fato que sua campanha se baseia nas mesmas políticas de Bush - que levaram 80% do americanos a concluírem que estamos no caminho errado - McCain decidiu usar a carta da guerra cultural. Obama talvez seja um pouco professoral, mas ao menos está tentando unir o país para enfrentar as verdadeiras questões, em vez de dividir-nos com diferenças culturais.

Um editorial do "Washington Post" na quinta-feira disse bem: "Em um dia em que o Escritório do Orçamento do Congresso advertiu de déficits crescentes em um cenário econômico negativo, quando o mercado de ações tremeu mesmo depois do resgate pelo governo de Fannie Mae e Freedie Mac, quando o presidente Bush discutiu o caminho a se tomar no Iraque e no Afeganistão, em quê a campanha do senador John McCain gastou sua energia? Em uma conferência telefônica para denunciar o senador Barack Obama por usar a frase "batom em um porco" e um novo anúncio de televisão acusando o democrata de querer ensinar sexo no jardim de infância antes que as crianças aprendam a ler."

Alguns defensores de McCain criticam Obama por não ter abdome de aço para usar a força no mundo perigoso em que vivemos hoje. Bem, eu sei o seguinte: para usar força, você tem que ter força. Para exercitar a alavancagem, você tem que ter alavanca.

Eu não sei quanto aço tem na barriga de Obama, mas sei que as questões nas quais está se concentrando nesta campanha - melhorar a educação e a saúde, lidar com o déficit e criar uma política de energia real, baseada em uma infra-estrutura energética inteiramente nova - são a única forma de colocarmos o aço de volta na coluna dorsal dos EUA. McCain, infelizmente, abandonou essas questões pela estratégia da guerra cultural.

Quem se importa com quanto aço tem McCain em suas vísceras quando o aço que hoje sustenta nossas pontes, estradas de ferro, reatores nucleares e outras infra-estruturas estão enferrujando? McCain diz que vai construir dezenas de usinas nucleares. Ah, é? Saem por US$ 10 bilhões (em torno de R$ 17 bilhões) cada. De onde virá o dinheiro? Da redução de impostos? Da proibição do aborto? Ou de mais empréstimos da China? De Sarah Palin "reformando" Washington - como se ela tivesse alguma idéia de como fazer isso?

Desculpe-me, mas não há poder político/militar sustentável sem poder econômico, e falar de um sem o outro não faz sentido. A não ser que façamos dos EUA um país mais capaz de inovar, competir e vencer na era da globalização, nossa alavancagem no mundo continuará a erodir-se lentamente. Essas são as questões em torno das quais estas eleições precisam revolver, porque os próximos anos precisam ser sobre isso.

Não há um líder forte sem um país forte. E fazer pose de líder nada mais é do que colocar batom em um porco. Deborah Weinberg

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