UOL Notícias Internacional
 

17/09/2008

Friedman: que isso não saia de Las Vegas

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Enquanto assistia algumas ações de empresas do setor financeiro serem exterminadas nos últimos meses, eu freqüentemente ouvia uma voz na minha cabeça, e é a mesma voz de um daqueles crupiês em Las Vegas, que friamente lhe diz enquanto recolhe suas fichas após você ter perdido no 21: "Obrigado por jogarem, senhoras e senhores".

É isso o que acontece quando bolhas estouram. Você se sente arrasado, e a frieza com que os crupiês - neste caso os mercados - recolhem todas as suas fichas é enervante. É fácil reagir exageradamente, e é importante que isso não ocorra. Agora é hora dos mercados estudarem friamente o que os mercados podem fazer melhor e o que os governos precisam fazer melhor.

Vamos entender o que aconteceu aqui. Wall Street - o setor financeiro - se tornou uma bolha nos últimos anos graças ao excesso de liquidez e o mais antigo criador de bolhas da história: a ganância. Algumas das pessoas mais inteligentes esqueceram uma das regras mais antigas do investimento: não existe algo como retorno sem risco. Quando você vai longe demais para obter lucro, cedo ou tarde você acaba se dando mal.

Nos anos 90, o retorno sem risco, sem prejuízo e altamente lucrativo supostamente vinha das ações pontocom. A versão desta década são as hipotecas subprime (de risco) e as ações de empresas do setor financeiro. Assim como as empresas pontocom nos anos 90, as ações das empresas do setor financeiro ficaram inflacionadas a níveis ridículos e os salários dos executivos de Wall Street chegaram a alturas ridículas. Agora você está assistindo ao vivo e a cores esta bolha estourar: "Obrigado por jogar, Lehman Brothers". Isso é realmente triste para uma empresa de 158 anos.

O mercado agora está consolidando este setor, com os fortes devorando os fracos, o que imporá sua própria disciplina fiscal. Bom. Quem sabe mais da nossa próxima geração de gênios matemáticos optará por se dedicar à próxima grande indústria global - a tecnologia de energia - em vez de se dedicar a derivativos.

Mas também precisamos entender a singularidade desta bolha visando identificar onde o governo precisa intervir. Um motivo para esta bolha financeira ter ficado tão grande agora é bem conhecido: você e seu vizinho saíram e fizeram hipotecas subprime, que permitiram muito mais pessoas se tornarem proprietárias de imóveis - uma verdadeira bênção. Seu banco ou financeira local, que ofereceu estas hipotecas, posteriormente as revenderam a um agregador que as colocou em grandes pacotes com milhares de outras hipotecas subprime. Então esses pacotes de empréstimos foram picados e vendidos em pequenos pedaços, como títulos corporativos para todo tipo de instituições em buscavam um lucro adicional. Seus pagamentos da hipoteca subprime pagavam os juros desses títulos.

Mas com o colapso do mercado imobiliário, e com as pessoas incapazes de pagar suas prestações da hipoteca ou venderem suas casas, os títulos perderam valor e, portanto, os bancos de posse deles perderam capital, e toda a pirâmide começou a desmoronar. Isso contaminou todo o mercado imobiliário, de forma que os bancos não mais sabiam o valor de seus ativos apoiados por hipotecas. O resultado? Eles pararam de emprestar. Daí o atual arrocho do crédito. Este arrocho do crédito é o que torna esta crise tão letal. Nós não podemos tolerar uma situação prolongada onde os bancos não emprestam para boas empresas.

Esse é o motivo para o Congresso precisar criar outra Resolution Trust Corp. como a que usamos para sair da crise dos empréstimos e poupanças dos anos 80. Como naquela época, nós precisamos de uma agência do governo que compre as hipotecas tóxicas dos bancos, as deixe em ordem e posteriormente as venda. Isso impediria uma grande liquidação de imóveis e hipotecas agora e devolveria a confiança aos bancos, para que comecem a emprestar de novo.

Mas a longo prazo, os reguladores precisam encontrar formas de limitar a quantidade de alavancagem que os bancos de investimento e seguradoras podem empregar, porque dado quão interligados estão atualmente na economia global, o colapso de um banco pode levar muitos consigo.

"Nós estamos no fim de uma era - o fim do 'deixe isso por conta dos mercados' e da grande desculpa de que menos governo é sempre melhor governo", argumenta David Rothkopf, uma ex-funcionário do Departamento de Comércio durante o governo Clinton e autor de um livro sobre os líderes financeiros mundiais que provocaram esta crise: "Superclasse: A Elite que Influencia a Vida de Milhões de Pessoas ao Redor do Mundo". "Mas eu acho que é importante destacar a diferença entre governo inteligente e simplesmente mais governo."

"Nós não precisamos de um aumento regulatório em Wall Street", ele acrescentou. "Nós precisamos de um repensar completo de como tornar os mercados financeiros globais mais transparentes e como assegurar que os riscos dentro desses mercados - muitos dos quais são novos e não muito bem entendidos mesmo pelos especialistas- são administrados e monitorados apropriadamente."

Resumindo, o trabalho do governo é policiar esta linha tênue entre o risco necessário que leva a uma inovação na economia e as apostas insanas com as economias de outras pessoas de uma forma que ameaça a nós todos. Nós precisamos cuidar para que o que acontece em Las Vegas permaneça em Las Vegas - e não chegue à Wall Street. Nós precisamos voltar a investir em nosso futuro, não apenas apostar nele. George El Khouri Andolfato

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