UOL Notícias Internacional
 

17/09/2008

Programa de adoção aproxima diferentes gerações em Illinois

The New York Times
Dirk Johnson
Em Rantoul (EUA)
Na grande tradição de avós com netos, Irene Bohm, 84, e Charlie Laws, 8, desfrutam de pequenos e merecidos prazeres. "Nós assistimos filmes, comemos pizza, jogamos joguinhos", disse Charlie, enquanto se aconchegava em uma cadeira ao lado dela.

Eles não são parentes, mas moram perto um do outro. Não há nenhuma dúvida de que estão em uma grande aventura juntos. "Ele me liga de manhã e diz: "Vovó, como você está?", disse Bohm, tão comovida por sua doçura que seus olhos brilham.

Este é o programa Gerações de Esperança, de uma agência de adoção sem fins lucrativos que criou uma comunidade parecida com uma pequena cidade, completa, com avós postiços. Estabelecida em uma antiga base da força aérea, o Gerações de Esperança quer resgatar as crianças do cuidado temporário e colocá-las com pais adotivos que se mudam para lá. Cerca de trinta crianças atualmente moram com pais em dez lares. A comunidade também é lar de 42 idosos, que têm aluguel subsidiado.

O programa nasceu nos anos 90, do trabalho de Brenda Krause Eheart, que tem doutorado em desenvolvimento infantil. Há planos de replicar o projeto em 11 outros Estados, com apoio de cerca de US$ 7 milhões (em torno de R$ 14 milhões) da Fundação Kellogg.

A Fundação Heinz recentemente premiou Eheart com US$ 250 mil (em torno de R$ 1 milhão) por seu sucesso em construir "um modelo comunitário para famílias adotivas e cidadãos idosos". Esse dinheiro, Eheart disse que voltaria para o trabalho.

O Gerações de Esperança teve a vantagem de usar casas existentes deixadas pelo fechamento da Base Chanute da Força Aérea. Os novos locais, em geral, vão precisar ser construídos a partir do zero, em terrenos doados.

O orçamento anual do programa de Rantoul é de US$ 500.000 (em torno de R$ 1 milhão), com quase metade vindo do governo. O resto vem de doações privadas e do aluguel pago pelos residentes mais velhos. Pais adotivos ganham US$ 19 mil e vivem livres de aluguel em uma das casas construídas para a base. Os mais velhos, que concordam em fazer serviço comunitário, como dar aulas e trabalhar nos jardins, pagam um aluguel reduzido de US$ 300 (aproximadamente R$ 600).

Eheart acreditava que as crianças prosperariam bem com o amor desses avós voluntários. Mas ela não sabia o quanto a terapia funcionaria na outra direção.

A crença que pais e avós são permanentes é central ao programa.

"Conheço duas formas de ter filhos: biologicamente ou por adoção", disse Eheart, ex-pesquisadora da Universidade de Illinois. "Cuidado temporário é uma contradição em termos".

As crianças aqui muitas vezes passaram por quatro ou cinco lares temporários antes de chegarem ao Gerações de Esperança. Muitas vezes, estão em grupos de irmãos, o que torna o deslocamento muito difícil.

As crianças e os pais adotivos são cuidadosamente encaixados, mas as alianças com os moradores mais velhos são formadas mais informalmente, com o tempo. As transições nem sempre são fáceis: essas crianças têm poucos motivos para confiar, e os moradores idosos algumas vezes precisam se ajustar a meninos e meninas criados com muita dureza. E vizinhos nem sempre concordam, mesmo em missões para o bem.

"Temos altos e baixos", disse Bohm.

Na maior parte, funciona. Antes de vir para cá, há 14 anos, Bohm, professora escolar aposentada e viúva que nunca teve filhos, disse que estava "solitária e entediada e sentia que deveria simplesmente desistir".

Ela viu um panfleto sobre o Gerações de Esperança em um shopping center. Hoje, ela acredita que seus anos aqui foram os mais felizes e importantes de sua vida. "Sinto-me uma vaqueira sobre patins em torno dessas crianças", disse ela.

Seu papel como avó querida para Charlie e seus três irmãos evoluiu a partir de sua amizade com a mãe adotiva das crianças, Jeanette Laws, vizinha de Bohm. Laws precisava da ajuda da senhora mais velha enquanto trabalhava em uma escola em Champaign e tentava criar quatro filhos, incluindo sua filha Shamon, 20, e seus filhos Brandon, 19 e Angelo 9.

Bohm ensinou todas as matérias a Brandon e demonstrou o amor incondicional de uma avó, em tempos muito difíceis. Apesar de alguns erros ao longo do caminho, Brandon encontrou o caminho certo. Atualmente ele cursa o ensino superior em Rhode Island. Recentemente, voltou para casa para fazer uma visita surpresa a sua avó adotiva.

Há retratos dos netos nas prateleiras da casa de Bohm. Charlie conta como sua avó o leva para a fazenda da família em Paxton. "Dirijo o trator", disse ele com orgulho.

Quando algumas crianças chegam ao Gerações de Esperança, elas se sentem confusas e isoladas. Bohm, contudo, diz a elas que conhece a sensação. Aos 13 anos, foi enviada a um convento, contra seus desejos, para se tornar freira. Foi a escolha de seu pai para a vocação dela, "não minha", lembra-se. No caminho para o convento em Joliet, ela disse que orou para Deus para que tivessem um acidente, para que ela não tivesse que ir. Ela passou muitas noites chorando. "Eu nunca esqueci aquele lugar", disse Bohm. Ela deixou a ordem e quando já tinha 40 anos.

A maior parte das crianças do Gerações de Esperança são negras, enquanto a maioria dos idosos são brancos. A mãe de Charlie, Laws, que é negra, disse que esse fato não atrapalha os relacionamentos. Entretanto, ela tenta transmitir às crianças a compreensão de que a vida no Gerações de Esperança é diferente do mundo lá fora.

"Eu digo às crianças: 'Agora, se vocês forem para alguma outra cidade, não dá para abordar toda mulher caucasiana de cabelo grisalho e dar um abraço e chamar de avó'", disse Laws, rindo. "Talvez não reajam como reagem aqui."

"Irene vai viver muito além de seus 84 anos, porque ela sabe que tem que ver Charlie terminar a escola", disse Eheart. Deborah Weinberg

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