UOL Notícias Internacional
 

19/09/2008

Fome ameaça o Afeganistão

The New York Times
Carlotta Gall
Em Yakowlang (Afeganistão)
Uma colheita ruim neste ano deixou pequenos agricultores de toda a região central e norte do Afeganistão enfrentando a fome, e responsáveis por ajuda humanitária estão alertando para uma profunda escassez de alimentos neste inverno para 9 milhões de afegãos, mais de um quarto da população.

A crise foi gerada pelo inverno mais severo já registrado, seguido por uma seca em grande parte do país, que se somaram aos problemas mais amplos de deterioração da segurança, a pressão acumulada do retorno dos refugiados e os efeitos da alta mundial dos preços dos alimentos.

O fracasso do governo afegão e dos doadores estrangeiros em desenvolver o principal setor econômico do país, a agricultura, agravou aos problemas, disseram as autoridades. Elas alertaram que a crise do alimento poderá agravar ainda mais a situação já ruim da segurança.

A caridade britânica Oxfam, que conduziu um levantamento provisório das condições na província de Daykondi, uma das áreas mais remotas da região central do Afeganistão, fez um apelo por assistência internacional antes da chegada do inverno. "O tempo está se esgotando para evitar uma crise humanitária", ela disse.

Essa avaliação é repetida por aldeões de toda a região, incluindo na província de Bamian.

"Em todos esses 30 anos de guerra, nunca foi tão ruim quanto agora", disse um agricultor, Said Muhammad, 60 anos, que vive em Yakowlang, em Bamian. "Nós não temos comida suficiente para o inverno. Nós teremos que ir para as cidades à procura de trabalho."

Por trás dos alertas estão temores crescentes de desordem civil. O clima no país está ficando mais pesado em meio às crescentes dificuldades econômicas, agravamento da desordem civil e um aumento da insatisfação com o governo e com os estrangeiros que o apóiam, particularmente em torno da questão da corrupção.

O retorno dos refugiados, que convergem para as cidades por não conseguirem se manter no interior, os transforma em recrutas fáceis para o Taleban e outros grupos que desejam criar instabilidade, disse Ashmat Ghani, um político de oposição e líder tribal da província de Logar, ao sul de Cabul, a capital do país.

"A camada mais baixa da sociedade, diante da fome, não vai esperar", ele disse. "Nós poderemos ter tumultos."

O governo afegão, juntamente com as organizações da ONU, foi rápido em fazer um apelo no início do ano para prevenir uma escassez de alimentos, à medida que os preços subiam e os países vizinhos suspendiam a exportação de trigo.

O Programa Mundial de Alimentos, que cuida de 4,5 milhões dos afegãos mais vulneráveis com ajuda alimentar nos últimos anos, ampliou seu programa para incluir 1,5 milhão de afegãos adicionais e o prolongou por causa da seca que atingirá um total de 9 milhões de pessoas até o final da colheita do próximo ano.

Há várias semanas, a Oxfam alertou em uma carta aos ministros de desenvolvimento de alguns países que auxiliam o Afeganistão que o apelo por US$ 404 milhões, feito pelo governo afegão e pela ONU, ficou substancialmente aquém da meta.

"Se a resposta for lenta ou insuficiente, poderá haver sérias implicações de saúde pública, incluindo maiores taxas de mortalidade e morbidez, que já estão entre as maiores do mundo", disse a carta.

Ela também alertou para o deslocamento interno de famílias sem trabalho ou alimento, e mesmo sobre desordens civis. "O impacto como um todo poderá minar ainda mais a situação da segurança", disse Oxfam.

O governo americano anunciou nesta semana que fornecerá quase metade da ajuda alimentar de emergência requisitada no apelo.

Susana Rico, a diretora do Programa Mundial de Alimentos no Afeganistão, disse que contribuições de último minuto vieram para cobrir a emergência imediata. Mas ainda há pressa para envio dos suprimentos para o interior, antes que as primeiras neves do inverno cheguem no próximo mês, ela disse.

Autoridades de desenvolvimento disseram que a deterioração da segurança dificulta a realização desse trabalho no interior. Os trabalhadores de ajuda humanitária se tornaram alvos de um crescente número de ataques de rebeldes e criminosos.

Os riscos restringem a escala e amplitude das operações de ajuda, disse a Agência do Corpo de Coordenação para a Ajuda Afegã, um grupo que representa as organizações não-governamentais.

Esses riscos, diz a agência, se espalharam para as áreas previamente consideradas relativamente seguras. Nos primeiros sete meses do ano, ela relatou, 19 trabalhadores de organizações não-governamentais foram mortos, mais que o número total de 2007.

A agência fez um apelo para que os governos adotem medidas mais amplas, além das militares, para combater a escalada da insurreição.

"O conflito não será resolvido por meios militares", disse a agência em uma declaração. "Uma série de medidas é necessária para obtenção de uma paz sustentável, incluindo um apoio forte e eficaz ao desenvolvimento rural."

Negligenciar algo tão vital quanto a agricultura tem sido perigoso para a estabilidade no Afeganistão, já que pessoas são incapazes de alimentarem a si mesmas, disseram vários governadores provinciais em entrevistas.

A governadora de Bamian, Habiba Sarabi, disse repetidas vezes que por sua província ser uma das mais cumpridoras da lei e livre de problemas, ela é esquecida na distribuição de recursos dos doadores internacionais.

Os doadores, em particular o governo americano, gastaram somas muito maiores nas províncias do sul e sudeste para a ajudar a combater os problemas da insurreição e narcóticos, ela disse.

Hasan Samadi, 23 anos, o vice-administrador do distrito de Yakowlang, na província de Bamian, disse: "A situação econômica das pessoas daqui é muito ruim e o governo não está concentrado em ajudar."

"Eles se concentram em outras províncias e infelizmente não em Bamian, nem nos distritos remotos de Bamian", ele disse.

Daykondi, vizinha de Bamian, é uma das províncias mais subfinanciadas do país. Ela recebe metade do orçamento de sua vizinha ao sul, Oruzgan, que tem dois terços da população e um retrospecto ruim de combate à insurreição e ao cultivo da papoula do ópio, disse Matt Waldman, um porta-voz da Oxfam, em Cabul.

Em Daykondi, 90% da população depende da agricultura de subsistência, mas o Departamento de Agricultura da província tem um orçamento de apenas US$ 2.400 para todo o ano, ele acrescentou.

O desequilíbrio na ajuda às províncias está sendo corrigido, disse Sarabi, mas enquanto isso ele causa grande dificuldade para a população de sua província.

Ela estimou que um quarto da população de Bamian precisará de ajuda alimentar neste inverno por causa da seca. Já ocorreram conflitos locais em torno da oferta de água em duas regiões, ela disse.

Autoridades de desenvolvimento alertam que negligenciar as províncias mais pobres pode aumentar a instabilidade, ao levar as pessoas a cometerem crimes ou mesmo se juntarem à insurreição, que freqüentemente paga seus recrutas.

Apesar de a seca severa ter contribuído para o declínio do cultivo de papoula nas províncias do centro e norte, ela também deixou os agricultores endividados. Se não conseguirem ajuda agora, eles poderão recorrer ao cultivo de papoula e perder sua fé no governo, disse Antonio Maria Costa, diretor executivo do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime.

Costa pediu por assistência urgente aos agricultores e regiões que abandonaram o cultivo da papoula. Ele e outros também criticaram a ineficiência da ajuda internacional.

Dos US$ 15 bilhões em ajuda para reconstrução dados ao Afeganistão desde 2001, "espantosos 40% retornaram aos países doadores na forma de lucros corporativos e salários de consultores", disse a Agência do Corpo de Coordenação para a Ajuda Afegã em um relatório em março.

"O Afeganistão é um dos países mais pobres do mundo", disse Costa durante uma recente visita a Cabul. "Eu insisto na importância de aumentar a assistência ao desenvolvimento, a tornando mais eficaz. Uma parte grande demais dela é devorada pelas várias burocracias e empresas contratadas." George El Khouri Andolfato

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