UOL Notícias Internacional
 

20/09/2008

Em meio à crise financeira, dedos acusadores apontam para Bush

The New York Times
Mark Landler e Shreyl Gay Stolberg
Em Washington (EUA)
Durante toda a sua presidência, George W. Bush tem tentado evitar o destino do seu pai, que foi derrubado por uma economia anêmica. Agora, à medida que a crise financeira irradia-se para bem além de Wall Street, Bush depara-se com uma perspectiva ainda pior: ser responsabilizado, pelo menos em parte, por um colapso econômico.

"Haverá muitas oportunidades para discutir as origens deste problema", declarou Bush na sexta-feira (19) no Jardim Rosado da Casa Branca. "Mas agora é o momento para resolvê-lo".

Mas em Washington, em Wall Street e na campanha presidencial, o debate já teve início. O senador Barack Obama, o candidato democrata, denuncia aquilo que chama de "a filosofia fracassada" do governo Bush. O senador John McCain, do Partido Republicano, alegou na sexta-feira que "o governo não fez nada" para controlar as gigantes do setor hipotecário Fannie Mae e Freddie Mac, ainda que a Casa Branca tenha apresentado algumas propostas de reforma em Capitol Hill.

E embora os economistas e outros especialistas digam que o que não falta são culpados - democratas e republicanos no Congresso, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), uma indústria irresponsável de empréstimos imobiliários, os bancos e também o antecessor de Bush, Bill Clinton -, eles concordam que parte da responsabilidade recai sobre o governo Bush.

Esses especialistas, de ambos os partidos políticos, afirmam que as escolhas pessoais feitas por Bush no início do seu governo e a colossal antipatia dele pela regulação criaram um clima que, se não provocou o caos, quase que sem dúvida agravou-o. Os dois primeiros secretários do Tesouro do presidente, por exemplo, careciam do conhecimento a respeito de Wall Street que poderia tê-los ajudado a soar o alarme em relação ao uso de instrumentos financeiros complexos que estão no centro da crise.

É bem verdade que Bush previu com precisão o perigo representado pelo Freddie Mac e o Fannie Mae, e passou a defender, já em 2002, uma maior regulação. Mas os especialistas dizem que o governo poderia ter feito ainda mais para conter os excessos no mercado imobiliário, e muito mais para fiscalizar Wall Street, que transmitiu esses problemas para o mundo inteiro.

Vincent R. Reinhart, ex-economista do Federal Reserve e membro do conservador Instituto Americano de Empreendimentos, afirma: "O governo Bush teria ajudado se delegasse poderes aos funcionários do Tesouro e do Federal Reserve, bem como ao controlador da moeda e à Corporação Federal de Depósitos de Seguros (FDIC) para que eles acompanhassem mais de perto essas questões. Além do mais, o Congresso teria também ajudado se fizesse inquéritos".

Em vez disso, as vozes no governo que pediam uma maior fiscalização de Wall Street viram-se com poucos aliados. William H. Donaldson, um ex-executivo de Wall Street que é dono de respeitadas credenciais republicanas, e que no governo Bush tornou-se diretor da Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio (SEC), renunciou ao cargo após enfrentar resistências da Casa Branca e de membros republicanos da agência, que criticaram o apoio dele a regulações mais rígidas dos fundos mútuos e de hedge.

Atualmente, até mesmo algumas pessoas que simpatizam com Bush dizem que ele não consegue desvincular-se de uma indústria de hipotecas que saiu de controle e de uma indústria bancário que penhorou o seu futuro com empréstimos irracionais.

"Não há dúvida de que a crise ocorreu sob a administração dele", afirma Kenneth S. Rogoff, professor de economia da Universidade Harvard e assessor de McCain. "São oito anos de governo Bush. Houve muito tempo para lidar com esse problema".

Até certo ponto, Bush estava simplesmente seguindo um padrão de desregulação estabelecido pelo seu predecessor, Bill Clinton. E talvez a mais significante desregulação recente do setor bancário - a medida inédita que permitiu aos bancos expandir as suas operações para outras atividades financeiras, como os setores de investimentos e de seguros - tenha sido transformada em lei por Clinton, em 1999.

"Bush também herdou uma cultura de empréstimos e um insubstancial mercado imobiliário que se tornou profundamente arraigado na psiquê norte-americana", explica Rogoff.

E Reinhart diz que os mercados pareciam estar se saindo tão bem que poucos analistas, tanto no governo quanto no setor privado, tinham uma visão crítica a respeito deles.

"Quando tudo mundo está tendo um melhor desempenho, é difícil perceber a fragilidade subjacente", acrescenta Rogoff.

Mesmo assim, segundo os críticos, a Casa Branca estimulou um frenético livre mercado no qual os excessos puderam florescer. Ela evitou a regulação de bancos e de corretores hipotecários, deixando grande parte desta tarefa a cargo do Federal Reserve, que, sob o comando de Alan Greenspan, demonstrava ter pouco apetite por regulações. Quando o secretário do Tesouro Henry M. Paulson Jr. propôs, em abril, uma reforma das regulações que controlam o setor financeiro, a tempestade já estava em gestação.

A iniciativa do governo para controlar o Fannie Mae e o Freddie Mac foi neutralizada pelo Congresso.

Mas o foco intenso do governo em repelir aquilo que ele previa ser uma crise imobiliária iminente não foi acompanhado de um esforço no sentido de conter a proliferação das diabolicamente complexas securities lastreadas em hipotecas, afirma Harvey S. Rosen, economista que atuou brevemente como diretor no Conselho de Assessores Econômicos de Bush.

"Talvez devesse ter havido um esforço nesse sentido", afirma Rosen. "Mas nós estávamos mais concentrados no fato de que, caso essas entidades mantivessem securities simples lastreadas por hipotecas, ainda assim teríamos um desastre esperando para ocorrer".

Além da simpatia do governo pela desregulação, alguns economistas argumentam que as suas políticas fiscais e tributárias tornaram os Estados Unidos mais dependentes do capital estrangeiro, o que inflou a bolha dos preços dos imóveis.

"Outro Tesouro teria adotado uma abordagem diferente", diz Lawrence H. Summers, que atuou como secretário do Tesouro no governo Bill Clinton. "Não creio que a economia tenha sido bem administrada, e isto foi sem dúvida crucial para que surgissem os problemas que agora enfrentamos".

A Casa Branca e o Congresso queriam tornar a moradia acessível para mais norte-americanos, e a liberação dos mercados de empréstimos era uma maneira de atingir esse objetivo. Como disse Rogoff: "Foi uma forma de ajudar as pessoas pobres baseada no mercado. Havia uma crença incrível nos livres mercados".

Apesar de toda essa fé, os dois primeiros secretários do Tesouro do governo Bush, Paul H. O'Neill e John W. Snow, foram anteriormente executivos de alto escalão do setor empresarial, não tendo vindo de Wall Street. Eles eram vistos em Washington como defensores dos interesses empresariais, e como indivíduos que se sentiam desconfortáveis com os mistérios dos mercados.

Nenhum dos dois é visto como figura de muita influência na casa Branca, e o Departamento do Tesouro perdeu parte da primazia que tinha em política econômica durante a administração de Summers e do seu antecessor, Rober E. Rubin. O'Neill e Snow recusaram-se a conceder entrevistas para este artigo.

"A principal agência responsável por ficar de olho nesse tipo de coisa é, e deveria ser, o Departamento do Tesouro, e eu acho que o presidente errou desde o princípio ao nomear dois secretários sem nenhuma experiência em finanças", critica Bruce R. Bartlett, economista republicano que trabalhou para os presidentes Ronald Reagan e George H.W. Bush.

A Casa Branca nomeou pessoas com experiência em mercados para outros cargos, incluindo a presidência da Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio. Mas o primeiro presidente da SEC escolhido por Bush - Harvey L. Pitt, um famoso advogado do setor de securities - caiu devido a erros políticos. Pitt foi substituído por Donaldson, que renunciou em 2005.

Os críticos afirmam que a SEC esteve menos ativa na administração do seu atual presidente, Christopher Cox, um ex-parlamentar republicano da Califórnia. Segundo o Departamento de Responsabilidade Governamental, durante a administração de Cox a SEC dedicou menos tempo a fazer cumprir as regras e multou menos os infratores. Nesta semana, McCain pediu a renúncia de Cox.

Em outras áreas, as falhas do governo Bush parecem mais um caso de inação. Os economistas dizem que o governo pouco fez para conter as práticas das corretoras de hipotecas, que são reguladas pelos Estados. Mas, segundo esses técnicos, os parlamentares democratas são igualmente culpados.

"Os democratas defenderam metas de moradia acessível, mesmo frente às evidências de que as pessoas que receberam os empréstimos não poderiam tê-los recebido", afirma Robert E. Litan, pesquisador da Brookings Institution. Ele acrescenta: "Eu responsabilizo os democratas por exigirem que o Fannie Mae continuasse comprando esses empréstimos. E culpo o governo por ter permitido isso".

Funcionários da Casa Branca observam que o governo propôs reformas dos procedimentos de acordo imobiliários e da Administração Federal de Moradia, duas áreas que ela identificou como as que representavam o maior risco sistêmico para os mercados. Eles afirmam que os democratas no Congresso bloquearam esses esforços.

Quando Bush nomeou Paulson, o diretor-executivo do Goldman Sachs, para suceder a Snow em 2006, o Departamento do Tesouro finalmente obteve um especialista em mercados. Mas, antes disso, o presidente concentrou-se em aumentar a competitividade do setor financeiro norte-americano, que ele temia que estivesse perdendo terreno para a Europa e a Ásia.

Falando nesta semana, antes que o governo decidisse resgatar os bancos, Paulson repeliu as sugestões de que fosse o culpado. "Estou jogando com as cartas que recebi", disse ele. Quanto ao presidente, que assumiu a Casa Branca seis anos antes que ele passasse a comandar o Departamento do Tesouro, Paulson afirma: "Ele deixará história para os historiadores". UOL

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