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20/09/2008

Krugman: O estágio final da crise

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
No domingo, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, tentou traçar uma linha na areia contra novos resgates de instituições financeiras em dificuldades; quatro dias depois, diante de uma crise que saía do controle, grande parte de Washington parece ter decidido que o governo não era o problema, mas a solução. O impensável - uma compra pelo governo de grande parte da dívida podre do setor privado- se tornou inevitável.

A história até aqui: o verdadeiro choque após o governo federal não ter resgatado o Lehman Brothers não foi o despencar do índice Dow Jones, mas a reação dos mercados de crédito. Basicamente, os emprestadores entraram em greve: houve uma corrida aos títulos da dívida do governo americano, que ainda são vistos como o mais seguro de todos os investimentos - se o governo quebrar, o que valerá tudo mais? - mesmo que não pagassem quase nada, enquanto os candidatos a tomadores de empréstimo privados ficaram de mãos vazias.

Os bancos normalmente podem tomar emprestado uns dos outros a taxas apenas ligeiramente acima da taxa de juros dos títulos do Tesouro americano. Mas na manhã de quinta-feira, a taxa de juros média para empréstimo interbancário de três meses era de 3,2%, enquanto a taxa de juros dos títulos do Tesouro correspondentes era de 0,05%. Sim, é isso mesmo que você está lendo.

Esta fuga para segurança deixou muitas empresas sem crédito, incluindo empresas de peso do setor financeiro - e isso, por sua vez, abria caminho para mais grandes falências e maior pânico. Também estava deprimindo os gastos das empresas, um mau negócio à medida que se acumulam os sinais de que a desaceleração econômica está se aprofundando.

E o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que normalmente assume a liderança no combate às recessões, não pôde fazer muito dessa vez, porque as ferramentas-padrão de política monetária perderam sua força. Geralmente o Fed responde à fraqueza econômica comprando títulos do Tesouro, visando derrubar as taxas de juros. Mas a taxa de juros dos títulos do Tesouro já estão a zero, para todos os fins práticos; o que mais o Fed pode fazer?

Bem, ele pode emprestar dinheiro para o setor privado - e está fazendo isso em uma escala impressionante. Mas este empréstimo não impediu a deterioração da situação.

Há apenas um ponto positivo na imagem: as taxas de juros das hipotecas caíram acentuadamente desde que o governo federal assumiu o Fannie Mae e Freddie Mac e garantiu a dívida deles. E aqui há uma lição para aqueles dispostos a ouvir: nacionalizações podem ser a única forma de fazer o sistema financeiro funcionar de novo.

Algumas pessoas defendem essa posição há algum tempo. Mais recentemente, o ex-presidente do Fed, Paul Volcker, e dois outros veteranos de crises financeiras anteriores publicaram um artigo de opinião declarando que a única forma de evitar "a mãe de todas as contrações de crédito" é criar uma nova agência do governo para "comprar todos os papéis problemáticos" - isto é, que os contribuintes assumam toda a dívida pobre criada pelo estouro das bolhas de crédito e imobiliária. Vindo de Volcker, esta proposta tem uma séria credibilidade.

Membros influentes do Congresso, incluindo a senadora Hillary Clinton e o deputado Barney Frank, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, têm apresentado argumentos semelhantes. E na quinta-feira, o senador Charles Schumer, o presidente do Comitê Financeiro do Senado (e um defensor da criação de uma nova agência para resolver a crise financeira) disse aos repórteres que "o Federal Reserve e o Tesouro estão percebendo que precisamos de uma solução mais abrangente".

Certamente, o presidente do Fed, Ben Bernanke, e Paulson se reuniram na noite de quinta-feira com líderes do Congresso para discutir uma "abordagem abrangente" para o problema.

Nós ainda não sabemos como será essa "abordagem abrangente". Foram feitas comparações úteis com o resgate financeiro realizado pelo governo sueco no início dos anos 90, um resgate que envolveu uma nacionalização temporária de grande parte do sistema financeiro do país. Mas não se sabe se os autores de políticas em Washington estão preparados para exercer um grau comparável de controle.

E se não estiverem, isso poderia se transformar no tipo errado de socorro - um resgate dos acionistas e do mercado, na prática resgatando o setor financeiro das conseqüências de sua própria ganância.

Além disso, mesmo um resgate bem planejado custaria muito dinheiro. O governo sueco fez uso de 4% do PIB, o que em nosso caso seria US$ 600 bilhões - apesar de que o ônus final aos contribuintes suecos foi muito menor, porque o governo conseguiu vender os ativos que adquiriu, em alguns casos com bom lucro.

Mas não adiante choramingar (desculpe, senador Gramm) a respeito da perspectiva de um plano de resgate financeiro. O sistema político americano atual não vai seguir o famoso conselho de Andrew Mellon para Herbert Hoover: "Liquide o trabalho, liquide as ações, liquide os agricultores, liquide os imóveis". O grande resgate está a caminho; a questão é apenas se será feito corretamente. George El Khouri Andolfato

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