UOL Notícias Internacional
 

22/09/2008

Um sul-africano carismático e misterioso

The New York Times
Barry Bearak
Em Johannesburgo, África do Sul
No ano passado, "The Financial Mail", uma das principais revistas de negócios da África do Sul, colocou uma foto de Jacob Zuma na capa e ao lado, em letras grandes, o aviso: "tenham medo".

Mas o que exatamente havia para se temer?

Para todos os efeitos, Zuma não representava - e não representa - nenhuma crença política ou econômica extrema ou ameaçadora. De fato, a revista concluiu que ele estava muito mais interessado em sustentar o poder do que em fazer política, com muito charme e pouco intelecto.

Nos últimos meses, conforme Zuma se aproximou cada vez mais da presidência da África do Sul, suas bases ideológicas, se é que existem, permaneceram obscuras. Será que ele é o capitalista a favor da iniciativa privada que assegurou aos investidores que "nada irá mudar"? Ou seu coração está do lado dos sindicalistas e comunistas, sua base de apoio?
Há uma terceira possibilidade, é claro. A de que Zuma, como muitos sugerem, seja um camaleão político exemplar, moldando-se aos desejos de todos; alguém que sente o que sua audiência quer ouvir e então toca a música certa.

Neste fim de semana, essas perguntas assumiram grande urgência quando o Congresso Nacional Africano, partido do governo da África do Sul, persuadiu o presidente Thabo Mbeki a renunciar. Um substituto irá assumir seu posto em breve, e eleições serão feitas no ano que vem. Nesse ponto, Zuma provavelmente se tornará o líder da nação.

A África do Sul continua tendo uma economia saudável, a maior do continente. Mas mais de metade da população vive desamparada, e o abismo extremo entre ricos e pobres cresce cada vez mais.

Zuma, 66, tem esperado pela presidência desde dezembro, quando ultrapassou Mbeki na disputa pelo posto principal na hierarquia do partido. Sua sombra pairou sobre o governo desde então, e agora se tornou ainda mais forte.

Ele é um homem rústico, de cabeça raspada, um sorriso brilhante e uma personalidade maior que o comum. Será que as pessoas devem temê-lo?
"Não posso dizer por que, mas morro de medo dele", disse Rita Middleton, enquanto lia a as manchetes dos jornais de domingo numa mercearia de bairro.

Para todos os efeitos, Jacob Gedleyihlekisa Zuma é barulhento e carismático. No palco, ele agarra o microfone e dança conforme o ritmo. Sua música característica é uma canção da era da liberação chamada "Bring Me My Machine Gun" ("Traga-me Minha Metralhadora", em português).

Membro da etnia zulu, ele nasceu na zona rural de Natal, hoje chamada KwaZulu-Natal. Seu pai morreu quando Jacob era pequeno. Sua mãe se mudou com a família para o subúrbio de Durban, onde tornou-se empregada doméstica.

Zuma cresceu sem educação formal. Juntou-se ao Congresso Nacional Africano, então ilegal, aos 17 anos e serviu no Umkhonto, seu braço militar.

Em 1963, o regime do apartheid condenou-o por tentar derrubar o governo. Ele passou dez anos na prisão.

Zuma considera a si mesmo um tradicionalista zulu. Alguns aspectos da tradição incomodaram grupos de direitos humanos: ele defende a prática de testar as virgens - inspecionando as garotas para certificar que elas preservaram sua virtude. Polígamo praticante, acumulou seis esposas ao longo dos anos, segundo a maioria dos relatos.

Em 2005, num julgamento por estupro de uma amiga de família de 31 anos, o político declarou que ela o havia seduzido ao usar uma minissaia e sentar-se de forma provocante. Ele disse que a "cultura zulu" não lhe deixava outra opção a não ser forçá-la. Depois, disse ele, tomou um banho, acreditando que minimizaria o risco de contrair o HIV. Foi considerado inocente.

No mesmo ano, Mbeki demitiu Zuma, que era seu deputado desde 1999. As evidências mostraram que um negociante de Durban acusado por suborno havia intermediado os pagamentos de um fornecedor de armas francês. O dinheiro havia supostamente ido para Zuma.

"Alguns podem pensar que Zuma é desonesto, mas não acham que ele seja o peixe grande", diz Barney Mthombothi, editor da "The Financial Mail".
A maior parte do apoio de Zuma dentro de seu partido vem dos outros dois integrantes da "Aliança Tripartite", o Congresso de Sindicatos da África do Sul e o Partido Comunista.

"Entenda que esses comunistas não são muito comunistas", diz o analista político Adam Habib. "Hoje em dia, quem é? Eles são mais como social-democratas". De qualquer forma, Zuma freqüentemente abraça o populismo econômico deles.

Para os sindicatos ou o Partido Comunista, "o primeiro prêmio é colocar alguém que pense como eles no poder", disse William Gumede, autor de um livro sobre o Congresso Nacional Africano, que continuou: "o segundo prêmio é colocar alguém que eles acreditam poder manipular".

Zuma sabe bem que muitos o acham problemático e ambíguo. E se ocupa com o que a mídia noticiosa da África do Sul chama de "fazer média".
Ele vai para Davos, Suíça, para confortar os banqueiros internacionais, depois volta para Johannesburgo para se misturar com os oprimidos nos bairros negros, e depois para Pretória para apertar as mãos dos africâneres céticos.

Quase sempre ele dá uma impressão favorável: um cara bom, inteligente, engraçado. Certamente ninguém para se temer. Eloise De Vylder

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