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23/09/2008

Friedman: um assunto que não é brincadeira

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Dentre tudo o que foi falado por diferentes analistas sobre a economia na semana passada, certamente o melhor foi a lembrança pelo deputado Barney Frank, no programa de entrevistas "Charlie Rose", de que a piada favorita que Ronald Reagan costumava dizer às platéias era que "as nove palavras mais assustadoras na língua inglesa são: 'Eu sou do governo e estou aqui para ajudar'".

Há, há, há.

Você ainda está rindo? Se não fosse o resgate do governo ao Fannie Mae, Freddie Mac e AIG, socorrer pessoas do furacão Ike e injetar toneladas de liquidez no sistema bancário, nossa economia estaria em pedaços. Quanto você gostaria de ouvir hoje: "Eu sou do governo e não posso fazer nada por você".

Nesta era de globalização, o governo importa mais do que nunca. Governos inteligentes, fiscalmente fortes, são aqueles melhor capacitados a dar poder para seus cidadãos competirem e vencerem. Eu estive em Michigan para dar uma palestra sobre energia. Eu não tenho como dizer quantos cartões de visita eu recebi de inovadores que abriram empresas de energia renovável ou que estavam trabalhando para grandes empresas, como a Dow Chemical Company, em soluções de energia limpa.

Isso me lembrou quanta proeza inovadora e energia empresarial está explodindo na parte de baixo deste país. Se fosse canalizada e ampliada por uma melhor liderança em Washington, ninguém poderia nos tocar.

Se eu fosse elaborar uma imagem dos Estados Unidos atuais, seria a do ônibus espacial decolando. Há toda aquela propulsão vindo de baixo. Mas o foguete lançador -Washington - está rachado e vazando energia, além dos pilotos na cabine estarem discutindo o plano de vôo. Logo, nós não conseguiremos atingir velocidade de escape para entrar na próxima órbita - a próxima grande revolução industrial, que será em tecnologia de energia.

De muitas formas, esta eleição se trata de retomarmos nosso caminho como país. Nós estamos vivendo com tempo emprestado e centavos emprestados. O presidente Bush não tem mais nada a oferecer. Isso nos deixa com Barack Obama e com John McCain. Nenhum me surpreendeu com sua reação à turbulência no mercado. Para ser justo, nenhum tem qualquer poder para exercer. Mas o que poderiam dizer para transmitir confiança de que serão capazes de nos tirar dessa situação? Meu teste é simples: qual deles é capaz de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir - especialmente sua própria base.

Pense em quão melhor McCain seria hoje se tivesse escolhido Michael Bloomberg como seu vice-presidente em vez de Sarah Palin. McCain poderia dizer: "Eu não sou um especialista em mercados, mas tenho um dos melhores na minha equipe". Em vez de um vice-presidente para reestimular os Estados Unidos, McCain preferiu uma vice-presidente para reestimular a base republicana.

E o que McCain poderia dizer para contar com minha atenção? Se ele dissesse o seguinte: "Meus caros americanos, eu decidi por ora não dar continuidade às reduções de impostos de Bush, porque o mais importante para nosso país agora é colocar o balancete do governo em ordem. Nós não podemos prosseguir reduzindo impostos sem reduzir gastos. Por tempo demais meu partido foi indulgente nessa tolice. Segundo, eu tenho a intenção de retirar a maioria das tropas americanas do Iraque em 24 meses. Nós fizemos tudo o que podíamos para fazer o parto da democracia lá. Os iraquianos precisam assumir a partir daqui. Agora nós precisamos de cada dólar para construção de país na América. Nós faremos tudo o que pudermos para reduzir nossa presença e facilitar as eleições iraquianas, mas não seremos babás de políticos iraquianos que não têm a vontade e nem a coragem de conciliar suas diferenças - a menos que queiram nos pagar por isso. Na América, as babás são remuneradas".

E o que me impressionaria vindo de Obama? Que tal isto: "As Três Grandes fabricantes de automóveis e o sindicato United Auto Workers querem ser socorridos por Washington. A única forma para obterem um centavo do meu governo é se os fabricantes de automóveis e os sindicatos chegarem a um plano conjunto para capacitar suas frotas para obter uma média de 17 km por litro até 2015 - em vez dos 15 km por litro até 2020 que aceitaram de forma relutante. Eu não vou socorrer Detroit com dinheiro do contribuinte, mas investirei na transformação de Detroit com dinheiro do contribuinte, desde que as empresas e sindicatos concordem com a mudança radical. Ao mesmo tempo, se por um lado darei continuidade ao resgate do sistema bancário, só o farei sob a condição de que as instituições que nos colocaram nesta confusão aceitem amplas reformas - em termos de transparência e limites à alavancagem que podem obter - para que nunca mais tenhamos algo assim de novo. Para me ajudar a resolver isso, eu vou manter o secretário do Tesouro, Hank Paulson, no cargo por ora. Eu estou impressionado pelo modo como tem lidado com esta crise".

São palavras deste tipo que chamariam minha atenção. O último presidente que desafiou sua base foi Bill Clinton, quando reformou o bem-estar social e criou um superávit orçamentário com um programa tributário justo. George W. Bush nenhuma vez desafiou os americanos a fazerem qualquer coisa difícil, muito menos grande. O próximo presidente não terá esse luxo. Ele terá que pedir a todos que façam algo difícil - e eu quero saber quem está à altura da tarefa. George El Khouri Andolfato

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