UOL Notícias Internacional
 

23/09/2008

Krugman: dinheiro em troca de lixo

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Alguns críticos estão chamando o plano de resgate de US$ 700 bilhões (em torno de R$ 1,2 trilhão) de Henry Paulson para o sistema financeiro americano de "dinheiro em troca de lixo". Outros estão chamando o projeto de lei de "Autorização para Uso de Força Financeira", em uma comparação com a "Autorização para Uso de Força Militar", a lei infame que deu ao governo Bush luz verde para invadir o Iraque.

Há justiça nessas zombarias. Todo mundo concorda que algo grande deve ser feito. Paulson, entretanto, está exigindo extraordinário poder para si mesmo - e para seu sucessor, para que possa empregar o dinheiro do contribuinte em um plano que, até onde eu posso ver, não faz sentido.

Algumas pessoas dizem que devemos simplesmente confiar em Paulson, porque ele é um sujeito inteligente que sabe que está fazendo. Mas isso é apenas meia verdade: ele é um sujeito inteligente, mas o que, exatamente, na experiência do último ano e meio, justifica a crença de que sabe o que está fazendo? Nesse tempo, Paulson repetidamente declarou que a crise financeira estava "contida" e depois ofereceu uma série de soluções fracassadas. Ele está lidando com as coisas na medida em que aparecem, como nós.

Então vamos tentar pensar por nós mesmos. Eu tenho uma forma de ver a crise em quatro passos:

1. A explosão da bolha imobiliária provocou um surto de calotes e falências, que por sua vez levaram a um mergulho nos preços das securities lastreadas em hipotecas - títulos cujo valor, no fim, vinham de pagamentos de hipotecas.

2. Essas perdas financeiras deixaram muitas instituições financeiras com pouco capital em relação a sua dívida. Esse problema é especialmente severo porque todo mundo assumiu tanta dívida durante os anos de bolha.

3. Como as instituições financeiras estão com pouco capital em relação a sua dívida, elas não tiveram capacidade ou disposição de fornecer o crédito que a economia precisa.

4. As instituições financeiras vêm tentando pagar suas dívidas vendendo títulos, inclusive aquelas securities lastreadas em hipotecas, mas isso força seus preços para baixo, tornando a situação financeira ainda pior. Esse círculo vicioso é o que alguns chamam de "paradoxo da desalavancagem".

O plano de Paulson sugere que o governo federal compre US$ 700 bilhões de títulos problemáticos, principalmente obrigações lastreadas em hipotecas. Como isso resolve a crise?

Bem, pode - talvez - romper o círculo vicioso da desalavancagem do ponto 4 na minha curta descrição. Contudo, nem isso não está claro: os preços de muitos títulos, não apenas os que o Tesouro se propõe a comprar, estão sob pressão. E mesmo que o círculo vicioso seja limitado, o sistema financeiro ainda estará sem capital adequado.

Ou talvez não fique sem capital adequado, se o governo federal pagar enormemente pelos títulos que comprar, dando para as financeiras - e a seus acionistas e executivos - um gigantesco benefício às custas do contribuinte. Será que mencionei que não estou feliz com esse plano?

A lógica da crise parece pedir uma intervenção não no quarto ponto, mas no segundo: o sistema financeiro precisa de mais capital. E se o governo vai fornecer capital para as firmas, deve receber em troca o que aqueles que provêm capital têm direito - uma parcela da propriedade, para que de todos os ganhos de um plano de resgate bem sucedido não vão para as pessoas que criaram a confusão em primeiro lugar.

Foi isso o que aconteceu na crise da poupança e empréstimos: os federais assumiram a propriedade dos bancos em dificuldades, não só os títulos podres. Foi isso também o que aconteceu com Fannie e Freddie. (E por falar nisso, esse resgate fez o que deveria. Os juros de hipotecas caíram fortemente desde a tomada federal.)

Paulson, entretanto, insiste que quer um plano "limpo". "Limpo", nesse contexto, significa uma saída financiada pelo contribuinte sem nenhuma condição - nenhuma retribuição por parte dos que estão sendo liberados da confusão. Por que isso é uma coisa boa? Acrescente a isso o fato de Paulson também estar exigindo uma autoridade ditatorial, com imunidade a qualquer análise por parte da "justiça ou das agências do governo", e o plano torna-se uma proposta inaceitável.

Tenho consciência que o Congresso está sob enorme pressão para concordar com o plano de Paulson nos próximos dias, com, no máximo, algumas poucas modificações que o tornem menos pior. Basicamente, depois de ter passado um ano e meio dizendo a todos que as coisas estavam sob controle, o governo Bush diz que os céus estão caindo e que para salvar o mundo temos que fazer exatamente o que diz agora, já.

Eu, contudo, instaria o Congresso a fazer uma pausa de um minuto, respirar fundo e tentar seriamente reestruturar o plano, de forma que aborde o problema de verdade. Não se deixe ser atropelado - se esse plano for aprovado em sua forma atual ou parecida, todos nós ficaremos muito arrependidos no futuro não muito distante. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host