UOL Notícias Internacional
 

23/09/2008

Negociações do plano de resgate avançam, apesar da raiva e ceticismo no Congresso

The New York Times
David M. Herszenhorn
Em Washington
O governo Bush e os líderes do Congresso se aproximaram de um acordo em torno do resgate histórico de US$ 700 bilhões para as empresas do setor financeiro na segunda-feira, incluindo forte supervisão do Congresso e nova ajuda para os proprietários de imóveis sob risco de execução hipotecária.

Mas legisladores de ambos os partidos expressaram raiva diante do custo elevado e até mesmo ceticismo a respeito das chances de sucesso do plano.

Enquanto um feroz debate tinha início no Capitólio na segunda-feira, o Congresso e o governo permaneciam em desacordo a respeito das exigências específicas de alguns legisladores, incluindo limitação dos salários dos altos executivos cujas firmas buscarem ajuda e nova autoridade para permitir que os juízes de falência modifiquem os termos da hipoteca para mutuários sob risco de execução hipotecária.

Líderes do Congresso e autoridades do Tesouro também disseram estar próximos de um acordo em torno de uma proposta de alguns democratas, na qual os contribuintes poderiam receber uma participação acionária, na forma de garantias para compra de ações, das empresas que buscarem ajuda para se livrarem das dívidas pobres.
O governo aceitaria esta proposta desde que ele não seja obrigado a obter uma participação acionária, disse um funcionário do Tesouro.

Apesar do progresso, o debate rancoroso aumentou a pressão sobre o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., e sobre o presidente do Federal Reserve (o banco central americano), Bem S. Bernanke, os arquitetos da proposta de permitir que instituições financeiras de todo o mundo transfiram seus ativos relacionados a hipotecas problemáticas ao Tesouro dos Estados Unidos.

Ambos deverão aparecer perante o comitê bancário do Senado na terça-feira, onde terão que vender o plano de resgate para legisladores cheios de dúvidas e para um público cada vez mais frustrado e raivoso.

"Eu temo que a proposta do Tesouro não seja nem viável nem abrangente, apesar de seu enorme preço", disse o senador Richard C. Shelby, do Alabama, o líder da bancada republicana no comitê bancário, em uma declaração. "Seria tolice desperdiçar somas imensas de fundos dos contribuintes para testar uma idéia que foi elaborada às pressas."

Apesar dos líderes de ambas as casas do Congresso terem dito estar confiantes de que conseguirão chegar a um rápido acordo, também ficou claro que Paulson e Bernanke enfrentarão um duro questionamento e que o apoio inicial ao resgate começou a se desgastar. Alguns democratas disseram que simplesmente não confiam no presidente, e traçaram um paralelo ao pedido de Bush por autoridade para travar a guerra no Iraque.

Alguns republicanos conservadores também expressaram ultraje, repetindo os comentários zombeteiros de Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara, e de Lou Dobbs, o âncora da CNN, entre outros críticos de direita.

As autoridades do Tesouro afastaram os protestos de republicanos influentes, como Shelby. Eles disseram estar confiantes de que os líderes republicanos conseguirão dobrar seus membros. "Nós estamos fazendo progresso e temos confiança de que um plano será aprovado até o final desta semana", disse Michele Davis, uma porta-voz de Paulson.

Mas os mercados financeiros reagiram mal à discussão em Washington, com o índice industrial Dow Jones caindo 372 pontos.

Na segunda-feira, o presidente Bush pediu ao Congresso para aja depressa. "Os americanos estão de olho para ver se democratas e republicanos, o Congresso e a Casa Branca, serão capazes de se unir para resolver este problema com a urgência que exige", ele disse em uma declaração. "O mundo todo está de olho para ver se agiremos rapidamente para escorar nossos mercados."

O líder da maioria, o senador Harry Reid de Nevada, disse que os democratas estavam preparados para fazê-lo. "Os democratas no Senado não vão recuar", ele disse em um discurso no plenário do Senado. "Nós responderemos com a urgência que esta situação exige, mas após oito anos de negligência do dever fiscal, é hora de prestação de contas."

"Nós resolveremos esta questão em um dia?" ele perguntou. "Eu acho que não."

Funcionários disseram que o governo também está preparado para adotar regras de conflito de interesse para qualquer firma privada que seja contratada para ajudar o Tesouro a administrar o programa de resgate. Alguns legisladores temem que essas firmas possam ser donas de ativos que possam se valorizar dependendo de como o plano de resgate seja administrado.

Os líderes republicanos que apóiam o plano do governo alertaram na segunda-feira os democratas a exercerem moderação e não retardarem o pacote de resgate, ao mesmo tempo em que preparavam uma campanha interna agressiva para obter o apoio republicano.

"Quando há um incêndio na cozinha ameaçando queimar sua casa, você não deseja que alguém pare os bombeiros para exigir que primeiro distribuam detectores de fumaça ou que primeiro lhe dêem um sermão sobre manter latas de tinta no porão", disse o senador Mitch McConnell do Kentucky, o líder republicano, em um discurso no plenário do Senado. "Você quer que eles apaguem o incêndio antes que queime toda sua casa e tudo aquilo pelo que você economizou por toda sua vida."

McConnell acrescentou: "O mesmo vale para nossa atual situação econômica. Nós sabemos que há uma ameaça séria à nossa economia, e sabemos que precisamos agir para evitar um golpe sério no varejo".

Nancy Pelosi, democrata da Califórnia e presidente da Câmara, após uma reunião com os líderes do partido na noite de segunda-feira, também disse que permanece comprometida em entregar um projeto de lei para ser sancionado pelo presidente o mais rápido possível.

Mas legisladores poderosos de ambos os partidos disseram que não se apressarão em atender ao pedido de Bush.

"Eu caminhei por LaSalle Street na sexta-feira, uma grande rua de Chicago, repleta de bancos e grandes prédios comerciais", disse o senador Richard J. Durbin, de Illinois, o Nº2 do Partido Democrata. "Muitas pessoas vieram e disseram 'oi'. Mas muitas delas vieram e disseram: 'Você realmente vai fazer isso? US$ 700 bilhões para resgatar bancos? E eu disse: 'Eu não sei. No final do dia, eu realmente não sei'."

Durbin, em um discurso no plenário do Senado, lembrou com raiva que o governo pediu de forma semelhante uma aprovação rápida de seu plano de ataque ao Iraque. "Da mesma forma que devíamos ter feito mais perguntas sobre as armas de destruição em massa há seis anos, antes de nos vermos nesta guerra", disse Durbin, "nós precisamos questionar hoje para onde isso nos leva".

O deputado Henry Waxman, democrata da Califórnia e presidente do comitê de reforma e supervisão do governo, disse: "Está sendo pedido que o contribuinte arrisque bilhões para proteger os bônus de banqueiros de investimento".

O ceticismo era igualmente palpável no outro lado do espectro ideológico.

"Isso está indo rápido demais", disse o deputado Mike Pence, republicano de Indiana e um líder conservador, que disse que os eleitores que encontrou em uma festa no fim de semana estavam pasmos com o plano. "O povo americano não quer que o Congresso se precipite com a legislação de recuperação financeira; ele quer que a gente entenda."

E Shelby, do comitê bancário, disse: "O Congresso deve realizar imediatamente um exame público e abrangente do problema e de soluções alternativas, em vez de aprovar rapidamente o plano atual com mínima mudança ou discussão. Nós devemos isso ao contribuinte americano".

Gingrich, o ex-presidente da Câmara, disse que espera que os legisladores republicanos se oponham ao plano em número cada vez maior. "Eu acho que será uma batalha muito maior do que ele esperava", disse Gingrich, se referindo a Bush. Ele acrescentou: "Eu acho que este projeto está longe de ser algo certo".

Diante de quão complicadas podem se tornar as negociações em torno de artigos específicos do resgate, o senador Mel Martinez, republicano da Flórida e membro do comitê bancário, disse que apoiaria fortemente uma limitação do salário dos executivos cujas firmas buscarem ajuda do governo. Mas Martinez disse que é veementemente contrário a mudanças na lei de falência.

Em seu depoimento preparado perante o comitê bancário do Senado, Paulson buscará ressaltar os riscos imensos para os americanos comuns. "A turbulência no mercado que estamos experimentando hoje traz um grande risco aos contribuintes americanos", Paulson planeja dizer. "Quando o sistema financeiro não funciona como deve, as economias pessoais dos americanos, e a capacidade dos consumidores e empresas de financiarem gastos, investimentos e criação de empregos, ficam ameaçadas."

Bernanke, em seus comentários, implorará pela ação do Congresso. "Apesar dos esforços do Federal Reserve, do Tesouro e outras agências, os mercados financeiros globais continuam sob tensão extraordinária", ele dirá em seus comentários. "A ação por parte do Congresso é urgentemente necessária para nossos mercados financeiros e para nossa economia."

Na manhã de segunda-feira, o senador Christopher J. Dodd, democrata de Connecticut e presidente do comitê bancário, apresentou um texto de 44 páginas de um projeto de lei que seu gabinete reuniu no domingo, incorporando muitas prioridades dos senadores democratas - uma contraproposta de peso à proposta inicial do governo de três páginas.

O deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts e presidente do comitê de serviços financeiros da Câmara, que já submeteu uma série de exigências ao Tesouro, trabalhou ao longo de toda a segunda-feira para revisar sua versão da legislação, para refletir os vários acordos com o governo a respeito de supervisão e outras questões.

Como os mercados financeiros estão ávidos por um acordo final e como o Congresso está tentando voltar suas atenções após esta semana às eleições de novembro, os legisladores estão contornando o processo normal de comitê e trabalhando no sentido de um acordo negociado, visando a votação em ambas as casas em questão de dias.

E alguns legisladores disseram que pode ser feito. "Nós estamos convencidos de que a inação pode ser um desastre", disse o senador Robert Bennett, republicano de Utah. "Nós não acreditamos que a inação é uma opção, portanto faremos todo o possível para assegurar que a ação que venha a ser tomada seja a mais responsável e bem refletida possível." George El Khouri Andolfato

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