UOL Notícias Internacional
 

25/09/2008

Friedman: Queridos amigos iraquianos

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
De: Presidente George W. Bush

Para: Presidente Jalal Talabani do Iraque, primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki, presidente do Parlamento Mahmoud al-Mashadani

Prezados senhores,

Escrevo por uma questão de grave importância. É difícil expressar quão profunda é a crise econômica nos EUA hoje. Estamos discutindo um plano de resgate de US$ 1 trilhão (em torno de R$ 1,8 trilhão) para nosso sistema bancário em dificuldades. É um 11 de setembro financeiro. Enquanto perdem suas casas e se afundam em dívidas, os americanos não entendem mais porque estamos gastando US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 1,8 bilhão) por dia para fazer os iraquianos se sentirem mais seguros em suas casas.

Nos últimos dois anos, houve um debate neste país se deveríamos estabelecer um limite de prazo para a retirada americana do Iraque. Parecia que a resolução do debate dependeria de quem vencesse as próximas eleições. Não é mais o caso. O prazo limite está chegando. Os contribuintes americanos que não deixaram seu dinheiro ser usado para subsidiar suas próprias empresas - Lehman Brothers, Bear Stearns e Merrill Lynch- não querem que os dólares que pagam em impostos sejam usados para subsidiar sua interminável hesitação sobre qual comunidade iraquiana dominará Kirkuk.

Não me entendam mal. Muitos americanos e eu estamos aliviados pela forma que vocês, o povo iraquiano e o exército se recuperaram da beira da autodestruição. Originalmente, iniciei essa guerra em busca de armas de destruição em massa. Eu estava errado. Mas rapidamente tornou-se aparente que a Al Qaeda e seus aliados no Iraque estavam determinados a fazer os EUA fracassarem em sua tentativa de construir um Iraque decente e encaminhar o Oriente Médio por uma via mais democrática, independentemente de quantos iraquianos tivessem que morrer no processo. Não foi a guerra pela qual viemos, mas foi aquela que encontramos.

A Al Qaeda entendeu que, se pudesse derrotar os EUA no coração do mundo árabe muçulmano, ia ter reflexos em toda a região e colocar a Al Qaeda e seus aliados em ascensão. Por outro lado, nós entendemos que se pudéssemos derrotar a Al Qaeda no Iraque, em colaboração com outros árabes e muçulmanos, isso ia ter reflexos em toda a região e pagar dividendos. Algo muito grande estava em jogo. Fomos longe para vencer essa guerra.

Ao mesmo tempo, também compreendi que, ao ajudar os iraquianos organizarem as eleições, estávamos facilitando a primeira tentativa de um povo de um Estado árabe moderno em escrever seu próprio contrato social - em vez deste ser imposto sobre eles por reis, ditadores ou poderes coloniais. Se os xiitas, sunitas e curdos iraquianos puderem criar seu próprio contrato social, então, alguma forma de governo consensual é possível no mundo árabe. Se não puderem, então existirão reis e ditadores para sempre - com todas as patologias que vêm com isso. Algo muito grande também está em jogo aqui.

Não é que o que está em jogo tenha mudado e sim o fato que agora vocês vão ter que avançar e terminar esse trabalho. Vocês presumiram que teriam uma rede de segurança americana infinita para permitir que barganhassem sem fim sobre quem levaria o quê. Fui muito, muito paciente com vocês. Isso terminou. Compramos tempo para vocês com o aumento de tropas para que alcançassem um acordo político formal, e vocês devem usar isso rapidamente, porque é um bem que está em rápido declínio.

Vocês xiitas têm de trazer para o governo e para o exército as tribos sunitas e do Despertar que combateram a guerra contra a Al Qaeda do Iraque. Vocês curdos têm de encontrar uma solução para Kirkuk e aceitar maior integração no sistema estatal iraquiano, enquanto mantêm sua autonomia. Vocês sunitas no governo têm de concordar em fazer eleições para que os novos grupos emergentes sunitas e do Despertar possam concorrer e se tornarem "institucionalizados" no sistema iraquiano.

Então aprovem suas legislações sobre eleições e petróleo, gastem parte dos lucros do petróleo para reassentar os refugiados iraquianos e institucionalizem as recentes conquistas de segurança enquanto ainda têm uma presença americana substancial. Leiam meus lábios: ela não ficará lá indefinidamente - mesmo que McCain vença.

Nosso embaixador, Ryan Crocker, me contou o problema de vocês: os xiitas ainda têm medo do passado, os sunitas ainda têm medo do futuro e os curdos ainda têm medo de ambos.

Bem, vocês querem ver medo: olhem nos olhos dos americanos que estão vendo suas poupanças serem extintas, suas empresas desaparecendo, suas residências arrestadas. Somos outro país hoje. Depois de uma década em que o mundo tinha medo do poder americano excessivo, agora terá de presente um mundo de pouco poder americano demais, enquanto nós voltamos para dentro para colocar a casa em ordem.

Ainda acredito que um resultado decente no Iraque, se vocês conseguirem, terá implicações positivas de longo prazo para vocês e para todo o mundo árabe, apesar do preço ter sido alto demais. Esperarei minha redenção pela história, mas o povo americano não. Querem que a construção da nação agora seja nos EUA. Não vão sair do Iraque da noite para o dia, mas não vão ficar em grandes números por longo tempo. Repito: não percam esse momento. Deus esteja com vocês.

George W. Bush Colunista imagina como seria se, pressionado pela crise, George W. Bush escrevesse uma carta aos líderes iraquianos Deborah Weinberg

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