UOL Notícias Internacional
 

25/09/2008

Tatuagens aparecem em lugares ainda mais visíveis

The New York Times
Guy Trebay
Quem seria capaz de tatuar-se no pescoço? Alguns anos atrás, poderíamos afirmar que apenas membros de gangues, presidiários, integrantes da máfia russa e o rapper Lil Wayne. Mas, a seguir, algo de novo ocorreu.

Em um processo misterioso e inexorável que parece transformar tudo o que faz parte da baixa cultura em algo elevado, as marcas de tinta permanentes começaram a movimentar-se em direção a tradicionais partes proibidas em todos os tipos de pessoas, ultrapassando colarinhos e punhos de camisas, aquelas duas linhas demarcatórias de vestuário que até hoje alguns artistas da tatuagem relutam em ultrapassar.

Não chegou a ser uma total surpresa o fato do piercing facial seguir esta tendência.

De repente não são mais apenas os retro-punks e os rappers radicais que exibem a aparência de pessoas que parecem ter jogado para o alto qualquer intenção de um dia arrumar um emprego sério.

Artistas que têm carreiras prósperas e que contam com exibições proeminentes em galerias de Chelsea, médicos, diretores de funerárias, modelos e estilistas estão abrindo em suas faces mais orifícios do aqueles que nos foram oferecidos pela natureza, além de fazer todos os tipos de marcas em suas gargantas e mãos.

Um ano atrás, Jeanny Dembrow, diretora-executiva do Lower Eastside Girls Club, um agência de serviço social em Manhattan, decidiu incluir na sua coleção de modificações corporais, que já incluía um colar grego tatuado abaixo da clavícula e dobrado sobre os ombros, buracos de piercings na face e perfurações dos lóbulos da orelha que com o passar do tempo alargaram-se, chegando a mais de dois centímetros.

"Sempre me senti atraída pelas tatuagens e pela contracultura", disse Dembrow em uma tarde da semana passada, quando presidia um evento da sua organização de apoio a meninas e moças. "Hoje em dia, porém, parece que quem não tem uma tatuagem é que foge à norma".

O desenho escolhido por Dembrow foi uma elaborada videira, destituída de qualquer base botânica real. Os seus ramos coloridos enrolam-se em torno da face de Dembrow e descem-lhe pelo pescoço. "Para mim é simplesmente muito decorativo, como se fosse um colar permanente", explicou ela.

O efeito da tatuagem de pescoço é adorável, apesar de chocante. "Sem dúvida deparei-me com pais que assustaram-se com a minha aparência", disse Dembrow. "E eu tive uma conversa com as garotas na qual disse a elas que as tatuagens limitam as suas opções, e que eu tenho sorte de contar com um emprego onde a tatuagem não é um problema. Não sei o que aconteceria comigo se fosse jogada de volta no mercado de trabalho. Será que eu seria obrigada a vender camisetas de rock punk em alguma lojinha horrível em Saint Marks Place?".

Talvez. Embora haja muitas indicações de que a tatuagem tem migrado da cultura alternativa para a tradicional (ou pelo menos para alguma parte do corpo de David Beckham), ainda estamos muito longe de ver tatuagens faciais na Bloomingdale's ou na bolsa de valores.

Em disputas na Justiça, os tribunais determinaram invariavelmente que as exigências quanto à aparência no trabalho - incluindo regras que proíbem tatuagens e modificações corporais - não são discriminatórias.

Entre os casos mais divulgados está o de Kimberly Cloutier, a mulher de Massachusetts que entrou com uma ação na justiça pelo direito de usar os seus 11 brincos e piercings de sobrancelha enquanto trabalhava como caixa na Costco. Alegando ser integrante da Igreja das Modificações Corporais, Cloutier argumentou que os piercings são uma forma de expressão religiosa. Embora no final ela tenha perdido a ação, em breve outros casos semelhantes surgiram em Massachusetts e no Estado de Washington.

"Existe muito ativismo de funcionários", afirma Laurel A. Van Buskirk, uma advogada de New Hampshire que escreveu bastante sobre modificações corporais e a lei. "E como o custo de defesa nesses casos é bem alto, os patrões sentem-se um pouco desconfortáveis quanto passam a agir nessa esfera".

Segundo Van Buskirk, um resultado da "reação dos funcionários" foi que o formato dessa esfera começou a mudar. Definir aquilo que no caso de Cloutier foi chamado de imagem profissional "arrumada, limpa e profissional" ficou mais difícil ao considerarmos que, em 2006, uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew revelou que 36% das pessoas com idade entre 18 e 25 anos, e 40% daquelas entre 26 e 40, possuem pelo menos uma tatuagem.

"A cultura popular teve um efeito enorme sobre a aceitação das tatuagens no local de trabalho", afirma Alexis Handelman, dona do Alexis Baking Co., um café em Napa, na Califórnia, cuja clientela inclui "banqueiros, pessoas que adotam estilos de vida alternativos e milionários".

"Vimos um show como o 'Project Runaway', no qual o cara que ganhou a Terceira Temporada tinha o nome do filho tatuado no pescoço", acrescentou Handelman, referindo-se a Jeffrey Sebelia. "Fiquei impressionada. Não se tratava de uma tatuagem de prisão. E nem de marinheiros ou criminosos. Era uma pessoa comum que você vê sendo criativa e bem-sucedida, e isso realmente afeta a sua idéia a respeito de quem possui tatuagens".

Handelman foi testada quanto a esta idéia no verão passado, quando Jay Sizemore inscreveu-se para o emprego. "Ele é todo tatuado", disse Handelman, referindo-se ao artista de 18 anos. "Jay tem piercings nas duas faces, ombros tatuados, uma tatuagem dentro da boca e argolas do tamanho de moedas nas orelhas".

Mesmo temendo que os clientes achassem a aparência de Sizemore "hostil ou desrespeitosa", ela o contratou, e descobriu que não houve reação nenhuma por parte dos fregueses.

Algo semelhante ocorreu no caso da modelo Freja Beha, que recentemente colocou a palavra "float" ("fluir") em letras manuscritas no pescoço, uma tatuagem visível que não atrapalhou em nada a carreira dela, segundo Ivan Bart, vice-presidente da IMG Models, que a representa.

E os anéis que tatuou em uma das mãos também não atrapalharam a carreira dela. Muito disputada nos desfiles de moda dos Estados Unidos e da Europa nesta estação, Beha também apareceu em campanhas publicitárias do Emporio Armani, da Gucci e da Gap.

"Eu mesmo não ligo para tatuagens", disse Bart. "Prefiro o corpo humano no seu estado natural, sem adornos. Mas, sob o ponto de vista dos negócios, a tatuagem de Beha é irrelevante. Não creio ter me deparado com alguém que se recusasse a usá-la em um trabalho. E, em se tratando de um trabalho impresso, basta editar eletronicamente a imagem, removendo a tatuagem".

No Morgan Stanley não há empregos para caixas, garçons de cafés e modelos (e, na verdade, o Morgan Stanley não tem mais emprego algum). Ainda parece distante o dia em que a maior parte das empresas não se importará com tatuagens visíveis nos seus funcionários. Mas, por outro lado, faz relativamente pouco tempo que os artistas usam tranqüilamente tatuagens em pescoços e mãos.

"Antigamente os tatuadores não fariam tais tatuagens", afirma Bob Baxter, editor da revista especializada em tatuagem "Skin & Ink". "Existem aproximadamente 528 casas de tatuagem em Nova York, e atualmente talvez apenas dez delas recusassem-se a aplicar tatuagens em tais partes do corpo".

Joshua Lord, proprietário do East Side Ink, na região de Lower East Side, em Manhattan, afirma que pescoços e mãos foram o último tabu. "Agora é comum que os clientes peçam tatuagens nesses locais. Antes quem fazia isso eram pessoas que faziam parte principalmente da área de música ou arte. Mas recentemente tenho feito tatuagens desse tipo em médicos, agentes funerários, professores e vários cabeleireiros, que utilizam as mãos tatuadas como iniciadores de conversas", diz Lord.

Antes, as únicas pessoas que usavam tatuagens no pescoço e nas mãos - além daquelas que desejavam exibir a sua filiação a organizações ilegais - eram as que não tinham mais onde colocar tatuagens no corpo.

Na verdade, segundo Baxter, "existe ressentimento" entre os adeptos antigos devido à recente onda de tatuagens nas mãos e no pescoço, feitas antes que o indivíduo tenha experimentado o custo e o desconforto vinculados à injeção de tinta no resto do corpo. E existe ainda a sensação, familiar entre aqueles que fazem parte de subculturas que foram inseridas na moda tradicional, de que está ficando cada vez mais difícil diferenciar-se da manada.

"A comunidade da tatuagem vê essas pessoas como exibicionistas", afirma Baxter, referindo-se aos recém-tatuados. "É algo como, na década de 1960, sair à rua para comprar uma peruca dos Beatles".

Mas perucas dos Beatles são retiradas facilmente, e as tatuagens não. "É 20 vezes mais doloroso retirar uma tatuagem do que aplicá-la", afirma Baxter. Parte da dor deve-se sem dúvida à mortificação provocada por uma tatuagem com tema ultrapassado.

"Não há dúvida que nos últimos dois anos, mais pessoas passaram a tatuar-se mais em áreas mais visíveis", afirma o médico Roy G. Geronemus, diretor do Centro de Laser e Cirurgia de Pele de Nova York. "Presenciamos um aumento do número de pessoas que vêm até aqui para retirar tatuagens cosméticas e decorativas, por motivos que não chegam a ser nenhuma surpresa. Alguns indivíduos, ao tornarem-se pais, descobrem que subestimaram a imagem que desejam projetar. E aí a tatuagem não encaixa-se mais na imagem exigida pelo establishment".

No entanto, é possível que o establishment esteja relaxando as suas exigências quanto à imagem. "Tenho um doutorado, mas também uso tranças e tenho tatuagens visíveis nos dois braços", afirma Robin Turnbow, fisioterapeuta infantil que trabalha em Manhattan. "Às vezes, quando vou fazer a avaliação de uma criança na Park Avenue, sou parada pelo porteiro antes mesmo de poder interfonar. Mas muitas vezes eles me vêem e dizem, 'Uau! Não acredito! Que legal! Você é a fisioterapeuta!'". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host