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26/09/2008

Alguns países podem não estar ameaçados pela crise financeira global

The New York Times
Mark Landler
Em Washington (EUA)
Enquanto a Europa e a Ásia minimizam a necessidade de um resgate dos seus bancos no estilo norte-americano, a crise pode ameaçar uma outra classe de países. Aqueles da Europa Oriental, América Latina e África que dependem de capital estrangeiro e que, como os Estados Unidos, enfrentam déficits da balança comercial.

Alarmado com esta ameaça, o diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, está solicitando uma reunião para consultas multilaterais - envolvendo Estados Unidos, Europa, China e outras potências econômicas - com o objetivo desenvolver uma resposta coordenada à crise.

"Estamos enfrentando uma crise sistêmica, e ela exige uma resposta sistêmica", disse Strauss-Kahn em uma entrevista na última quarta-feira. "O FMI é o local certo para organizar uma resposta global à debilidade do sistema financeiro mundial".

A iniciativa dele é uma tentativa de reinserir o fundo no centro dos acontecimentos mundiais - um papel que a instituição desempenhou durante crises financeiras anteriores na Ásia, na Rússia e na América Latina, mas não na crise atual.

Quer ele obtenha êxito ou não, economistas concordam que Strauss-Kahn, ex-ministro das Finanças da França, identificou um risco. Ao estrangular o fluxo de capital, a crise ameaça países do Báltico à África que dependem de fundos estrangeiros para financiarem os seus déficits.

"Existem vários países nos quais haverá muita preocupação caso o fluxo de capital seja estancado", diz Thomas Mayer, economista do Deutsche Bank em Londres. "Quando se observa os elevados déficits de conta corrente, a Europa Central e a Oriental parecem estar especialmente vulneráveis".

Uma outra categoria de países é a daqueles que exportam petróleo e outras commodities, e que são vulneráveis a um declínio dos preços - algo que, segundo os economistas, aconteceria caso a crise recrudescesse. O preço do petróleo caiu na semana passada, quando Wall Street vacilava, mas depois ele voltou a subir quando aumentaram as esperanças de que fosse aplicado um plano de resgate das instituições em apuros por parte do governo norte-americano.

"Caso a economia mundial experimente algo como uma recessão global no ano que vem, esses países estarão correndo risco", afirma Michael Mussa, do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Existem mais de 20 países com déficits de conta corrente que excedem 5% da sua produção econômica, afirmou Strauss-Kahn, e isso os insere naquilo que o fundo considera a categoria ameaçada.

Strauss-Kahn recusou-se a citar nomes, mas economistas externos disseram que a Bulgária, a Estônia, a Romênia e a Turquia estão entre os casos de risco na Europa. Na África, a Nigéria e a África do Sul são casos preocupantes; e na América Latina, a Venezuela e o Equador.

De acordo com Strauss-Kahn, a lista não inclui os quatro maiores mercados emergentes - China, Rússia, Brasil e Índia -, que estão com saudáveis superávits da balança comercial, ou possuem centenas de bilhões em reservas de moeda estrangeira, embora a Rússia esteja vulnerável a uma queda do preço do petróleo.

Segundo os economistas, seria difícil que a Europa Ocidental fosse seriamente afetada, apesar de possuir bancos que possuem ativos vinculados a hipotecas. Isso fez com que as autoridades européias relutassem em atender ao apelo do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos no sentido de que aplicassem medidas para fortalecer os seus sistemas financeiros.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry M. Paulson Jr., resistiu às tentativas do Congresso de excluir os bancos estrangeiros do rol de instituições que poderiam se beneficiar do plano de resgate. Mas autoridades do governo Bush afirmaram que pretendem estabelecer prioridades quanto a quem seria ajudado com base na disposição dos governos dos países de origem destes bancos em colaborar no processo de ataque à crise financeira.

Dois dos países mais ameaçados ficam na fronteira oriental da Europa: Bulgária e Romênia, que registraram déficits de conta corrente de dois dígitos e que estão com as economias superaquecidas.

"Esses países têm crescido muito rapidamente, e endividam-se excessivamente", afirma Peter Akos Bod, ex-presidente do Banco Central da Hungria. "Caso haja uma interrupção súbita do fluxo de capital, eles estarão em sérios apuros".

A América Latina é uma fonte perene de preocupações, tendo em vista a sua história de políticas fiscais problemáticas. Por ora, vários dos países da região, especialmente a Venezuela, estão se beneficiando com a disparada do preço do petróleo.

"Mas se o petróleo e outras commodities abaixarem de preço, a América do Sul será um lugar menos confortável", adverte John Williamson, pesquisador do Instituto Peterson e especialista na região.

Strauss-Kahn disse reconhecer que o fundo monetário será em grande parte um mero observador desta crise, já que os problemas começaram nos Estados Unidos e continuam sendo, em sua maioria, uma questão bancária doméstica daquele país.

Mas ele afirmou que pretende também enfrentar uma das questões politicamente mais polêmicas no fundo: aumentar a pressão sobre a China para que este país permita que a sua moeda, se valorize. "O fato de algumas moedas estarem subvalorizadas é uma grande fonte de instabilidade", argumentou ele. "No caso da China, existe um problema concreto que temos que enfrentar".

Críticos no governo Bush e no Congresso dos Estados Unidos afirmam que o fundo não pressionou suficientemente a China no que diz respeito à moeda do país. Strauss-Kahn admite a dificuldade de agir de forma mais dura, devido à política do fundo, que conta com 185 países membros e é administrado por uma poderosa diretoria.

A última reunião para consulta multilaterais do fundo, com o objetivo de discutir desequilíbrios globais, ocorreu em 2006. Participaram dela a China, o Japão, a União Européia, a Arábia Saudita e os Estados Unidos. Strauss-Kahn não disse quantos países serão convidados para participar da próxima reunião, mas outros funcionários da instituição dizem que os mesmos países serão incluídos, bem como emergentes como Brasil e Rússia. UOL

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