UOL Notícias Internacional
 

26/09/2008

Mianmar padece nas mãos de sua junta

The New York Times
Em Yangun (Mianmar)
Há um ano, a polícia e os militares de Mianmar tomaram as ruas desta cidade antiquada, em ruínas, e deram início a uma repressão mortal a milhares de monges budistas que protestavam contra os aumentos de preços dos alimentos e combustíveis.

Agora os generais que governam o país estão se preparando para uma reprise.

À medida que se aproxima o aniversário, a polícia ergueu barreiras nos arredores de Yangun e tem realizado revistas noturnas de casa em casa, logo após a meia-noite, à procura de dissidentes ou críticos do regime - qualquer um que possa querer comemorar os protestos.

Após uma explosão na quinta-feira, perto de Pagode Sule e da prefeitura, o centro das manifestações no ano passado, policiais armados isolaram a área e homens em uniformes verdes patrulhavam as ruas carregando pés-de-cabra. Um lojista local disse que quatro pessoas ficaram feridas na explosão.

O domínio dos generais em Mianmar, ex-Birmânia, tem sido testado repetidas vezes ao longo das duas últimas décadas - pelos monges em setembro passado, por Aung San Suu Kyi, a líder democrática sob prisão domiciliar, e por um poderoso ciclone neste ano, que colocou os generais em confronto com o mundo exterior, confuso com a resistência deles em aceitar ajuda.

Mas hoje, com seus principais rivais colocados de lado, exilados ou presos, os generais parecem estar no ápice de seu poder.

"Não é um regime em fuga ou prestes a cair", disse Charles Petrie, que até o ano passado coordenava as operações da ONU aqui. Os generais podem parecer desatentos ao mundo exterior ou fora de contato com as dificuldades econômicas da população daqui, disse Petrie. "Mas em termos militares e de segurança", ele acrescentou, "eles definitivamente sabem o que está acontecendo".

Grupos de dissidentes birmaneses mantêm a esperança de que uma mudança de regime promoverá uma maior prosperidade para uma população empobrecida que vive em meio a terras incrivelmente férteis, madeiras tropicais abundantes, amplas reservas de gás natural e muitas outras riquezas.

Mas a única mudança em vista é muito menos grandiosa: Than Shwe, o general que está no comando desde 1992, atualmente está com mais de 70 anos. As perguntas sobre quem ou o que o sucederá levam a intensa e interminável especulação aqui.

A Ásia já teve sua cota de ditadores militares nas últimas décadas, mas poucos foram tão sigilosos e poderosos quanto o general Than Shwe. Quando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, tentou contatá-lo em maio para discutir a ajuda às vítimas do ciclone Nargis, o general nem atendeu e nem retornou suas ligações. (Após repetidas tentativas ao longo de vários dias, Ban desistiu e passou a enviar cartas.)

Than Shwe tem sido chave para a resistência do governo militar, por meio de seu controle magistral, mas maquiavélico, de outros oficiais militares. De muitas formas, Than Shwe - individualmente - é o governo.

"É uma das coisas mais estranhas", disse Priscilla A. Clapp, a chefe de missão da embaixada americana de 1999 a 2002. "Quando eu conversava com altos generais que estavam no alto escalão, eles diziam: 'Até mesmo pessoas no topo não sabem o que está acontecendo'. Ninguém tem conhecimento de tudo o que Than Shwe está fazendo, exceto o próprio Than Shwe."

Esta centralização total - que lembra o status do líder norte-coreano, Kim Jong-il - leva a uma grande incerteza sobre que tipo de líder ou sistema político Than Shwe deixará para trás.

Entre seus poderes mais importantes está o controle de bilhões de dólares das vendas de gás natural para a Tailândia, disse Clapp. A quantia totalizará pelo menos US$ 3,5 bilhões neste ano, segundo dados do banco central da Tailândia, e não há supervisão deste dinheiro exceto a dele próprio.

A linha que divide serviço público e negócios pessoais também freqüentemente é indistinta. As famílias dos altos generais estão envolvidas em muitas das maiores empresas do país. Na mesma linha, o ministro da Saúde de Mianmar, Kyaw Myint, é também o médico pessoal de Than Shwe.

O general conseguiu se manter no topo por meio de uma série de expurgos e aposentadorias forçadas, incluindo exonerações drásticas em 2004, que afastaram Khin Nyunt, um primeiro-ministro de mentalidade relativamente liberal, e cerca de 1.000 a 2.000 oficiais da inteligência militar sob comando do primeiro-ministro.

Os expurgos eliminaram muitos dos possíveis sucessores e criaram um vácuo intelectual nos altos escalões do governo. Paulo Sérgio Pinheiro, o emissário especial de direitos humanos da ONU para Mianmar de 2000 até o ano passado, disse que há uma óbvia falta de experiência internacional nos altos escalões.

"É uma das elites mais despreparadas, em termos de ditaduras, que se pode encontrar no mundo", disse Pinheiro. "Ela é isolada demais."

Até os anos 90, quando o presidente Clinton aplicou duras sanções contra Mianmar, os oficiais militares treinavam ou participavam de programas de intercâmbio com o Pentágono. Hoje, grande parte da liderança está barrada de entrar nos Estados Unidos, Europa e Austrália por causa das sanções.

Em uma era em que a informação básica sobre a maioria dos líderes mundiais está a apenas uma busca no Google de distância, o governo de Mianmar não oferece qualquer informação pessoal sobre Than Shwe. Não há biografias - oficiais ou não - nas livrarias daqui, e o general nunca dá entrevistas para jornalistas, locais ou estrangeiros. Diferentemente da dinastia Kim na Coréia do Norte, Than Shwe não é celebrado em um culto da personalidade.

Talvez a informação mais detalhada sobre ele foi publicada há 27 anos, quando as forças armadas de Mianmar eram ligeiramente mais acessíveis. Ela cabe em uma folha de papel com metade do tamanho de uma folha de papel de fotocopiadora, e é o curriculum vitae mais completo do governante de Mianmar: Than Shwe nasceu perto de Mandalay, em 1933, no coração rural daquela que na época era a Birmânia colonial, administrada pelos britânicos. Ele concluiu o ensino médio, mas nunca foi para a faculdade. Ele trabalhava como carteiro antes de ingressar no exército, onde foi treinado em guerra psicológica e travou vários combates contra os rebeldes.

Mais do que qualquer outra coisa, os anos como comandante de campo parecem ter forjado sua imagem de si mesmo.

"Ele acredita ser um verdadeiro nacionalista", disse Razali Ismail, o emissário especial da ONU de 2000 a 2004. "Na primeira vez que nos encontramos, ele disse: 'As pessoas acham que estamos fazendo isso pelo poder. Não, isso é pelo bem da nação. Eu lutei pelo país. Eu tenho cicatrizes no meu corpo' - ele apontou para si mesmo - 'ferimentos de bala'."

Por décadas após sua independência do Reino Unido, em 1948, Mianmar foi duramente dividida segundo linhas étnicas. As forças armadas enfrentaram os rebeldes comunistas apoiados pela China, que, a certa altura, controlavam grandes áreas do país. Alguns grupos étnicos permanecem armados até hoje, mas acordos de cessar-fogo e a retirada do apoio da China e Tailândia aos rebeldes levaram a um período de relativa segurança.

Analistas políticos daqui dizem que Than Shwe vê a si mesmo na tradição dos antigos reis da Birmânia, que unificaram o país pela força e então construíram represas, estradas e pontes.

"Você sente que Than Shwe acredita que entrará para a história como um dos grandes líderes do país", disse Petrie.

Em cada um dos últimos oito anos, o governo alega que a economia cresceu mais de 12%, mais que a China ou qualquer outro país na região. Mas sua população é tão pobre que o Programa Mundial de Alimentos estima que 5 milhões de pessoas carecem de alimento.

Nos últimos meses, a cooperação entre os generais e o mundo exterior melhorou um pouco. O ciclone em maio, que inicialmente causou grande tensão entre Mianmar e os governos ocidentais que ofereceram ajuda, pode ter criado uma pequena abertura para uma melhor cooperação, disse Mark Canning, o embaixador britânico em Mianmar.

"A esperança é de que isto se mantenha e leve a um maior benefício", disse Canning.

Mesmo o referendo constitucional que foi promovido pela junta e amplamente condenado como uma farsa - o governo prendia as pessoas que faziam campanha pela rejeição - pode forçar os generais a adotarem uma nova configuração de poder.

Se 1933 for realmente o ano do nascimento do general Than Shwe, ele terá 77 anos quando a Constituição entrar em vigor em 2010. Analistas políticos se perguntam se ele abrirá mão dos assuntos cotidianos da administração do país.

Também não se sabe que papel seu segundo em comando, o vice alto general Maung Aye, terá, ou se o general Thura Shwe Mann, o chefe do Estado-Maior, que freqüentemente é descrito como potencial sucessor de Than Shwe, realmente será.

A única coisa que parece certa é a sobrevivência do exército, disse Clapp, a ex-diplomata americana aqui.

"Os militares não serão derrubados no futuro próximo", ela disse. "Eles são poderosos demais, coesos demais. Independentemente das rivalidades que possam existir internamente, eles se manterão unidos no final." George El Khouri Andolfato

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