UOL Notícias Internacional
 

27/09/2008

Na Bolívia, um crítico croata é mostrado de modo adverso

The New York Times
Simon Romero
Em Santa Cruz (Bolívia)
O documentário na televisão estatal boliviana começa com imagens granuladas de líderes do Ustashe, o movimento fascista que governou a Croácia durante a Segunda Guerra Mundial. O filme, parte de uma campanha de propaganda contra um dos maiores críticos do presidente Evo Morales, então mostra fotos em preto-e-branco de vítimas magérrimas em campos de concentração, seguidas pela pergunta, "quem é Branko Gora Marinkovic Jovicevic?"

Pegando um maço de Camel Lights em sua mesa, Branko Marinkovic, o herdeiro de 41 anos de um império de criação de gado e óleo de cozinha, está compreensivelmente irritado por ser associado aos nazistas que fugiram para a América do Sul. Após mostrar o documentário para os visitantes, ele fica olhando para o protetor de tela de seu laptop, uma foto do painel de seu avião particular. Seu olhar incomodado trai seus pensamentos: ele preferiria estar em outro lugar.

Mas Marinkovic está na Bolívia, e tentando responder à pergunta feita no filme rudimentar de propaganda: quem é Marinkovic?

Para muitas pessoas na baixada tropical, Marinkovic, 41 anos, cujos pais imigraram para cá nos anos 50 vindos da ex-Iugoslávia, é um exemplo de resistência empresarial e liderança diante das políticas radicais promovidas por Morales. Em suas próprias palavras, ele deu o salto dos negócios para a política para resistir ao "mergulho na intolerância e ódio" contra os bolivianos de pele clara como ele.

Mas para Morales e os movimentos sociais que o apóiam, Marinkovic é o tipo de magnata que simboliza tudo o que há de errado no leste rebelde da Bolívia. Ataques contra ele se intensificaram desde sua incursão na política, quando foi eleito no ano passado presidente do poderoso Comitê Pró-Santa Cruz, um grupo que busca maior autonomia para as terras baixas em relação ao governo central em La Paz.

Autoridades do governo de Morales o acusam de se tornar um dos homens mais ricos da Bolívia em parte por meio da tomada ilegal de terras em áreas habitadas pelos índios guaraiós, uma acusação que ele contestou na Justiça. Explorando suas origens e nome estrangeiro, alguns aqui o chamam de estrangeiro intrometido (Marinkovic tem dupla cidadania, boliviana e croata).

A mídia estatal também sugere que Marinkovic está buscando fomentar uma guerra civil para criar um Estado separatista nas terras baixas, assim como a Croácia se separou da Iugoslávia no início dos anos 90. Ela também insinua que o falecido pai de Marinkovic, Silvio, tinha ligação com os membros do Ustashe que fugiram para a América do Sul, juntamente com seus chefes nazistas.

"O croata Marinkovic", disse a agência de notícias estatal boliviana neste mês, "está promovendo a divisão da Bolívia com uma oposição fascista a Evo".

Em Morales e Marinkovic, a Bolívia dividida encontrou adversários notadamente diferentes. O presidente, que reduziu seu próprio salário para menos de US$ 2 mil por mês após assumir o cargo, é um ex-plantador de coca que defende o desenvolvimento guiado pelo Estado a partir de La Paz e a redistribuição de grandes propriedades de pessoas como Marinkovic para os camponeses indígenas.

Marinkovic possui uma fortuna multimilionária e promove uma visão de livre empreendimento somado a laços mais fracos com o governo central. Enquanto Morales tem sucesso na política boliviana, que é cada vez mais caracterizada pelo confronto e intimidação, Marinkovic ainda parece mais em casa em um gabinete executivo com ar condicionado.

"Meu pai foi um comunista que lutou com Tito contra os nazistas", disse um irritado Marinkovic em uma entrevista aqui, se referindo a Josip Briz Tito, o filho de camponês croata que uniu a Iugoslávia. Como um privilegiado criado na Bolívia, Marinkovic era levado por seus pais a visitas familiares a Zagreb, atualmente a capital croata, e a outros lugares nos Bálcãs.

"Eles nos chamam de neonazistas, quando nunca poderia estar mais longe da verdade", ele prosseguiu, passando a falar brevemente em um inglês com sotaque, que aprendeu quando estudou engenharia e administração em universidades no Texas. "Há mentiras demais sendo ditas de forma flagrante."

Mas onde se encontra a verdade em Santa Cruz também é difícil de determinar.

Esta cidade continua sendo um bastião de grupos abertamente xenofóbicos como a Falange Socialista Boliviana, cuja saudação com mão no ar é inspirada na Falange fascista do ex-ditador espanhol, o general Francisco Franco.

Outro grupo, a União Jovem de Santa Cruz, é um braço quase independente do comitê liderado por Marinkovic.

"Nós protegeremos Branko com nossas vidas", disse Juan del Mar Paz, um membro do conselho da União Jovem, em uma entrevista na sede de seu grupo, em um escritório vizinho ao de Marinkovic. "Branko é um líder visionário que está resistindo à ditadura do planalto."

Provocar tamanha admiração de grupos que entram em choques violentos com os migrantes empobrecidos nas favelas de Santa Cruz deixa Marinkovic aberto às alegações de que é indiferente ao racismo sofrido pelos grupos indígenas das terras altas.

"É uma vergonha que Don Branko Marinkovic, um filho de imigrantes, não queira ver a realidade dos migrantes internos aimarás e quéchuas", disse Fabian Yaksic, o vice-ministro da descentralização da Bolívia, cujos pais croatas também vieram décadas atrás da ex-Iugoslávia.

Toda a comunidade croata da Bolívia chega a apenas poucos milhares em um país de 9 milhões. Muitos croatas se estabeleceram no século passado em Santa Cruz, uma região de agricultura vibrante que também é lar de produtores de soja brasileiros, menonitas canadenses que cultivam girassóis e uma colônia japonesa que produz arroz.

Mas com a ascensão de Marinkovic, é a Croácia, com população de 4,5 milhões, que ganhou destaque. Da mesma forma, Marinkovic também atraiu a atenção de terra natal de seu pai.

A mídia croata enviou correspondentes para cá para escrever sobre seu domínio da língua (ele fala croata fluentemente), suas propriedades na Croácia e sobre sua esposa, Nicole Dauelsberg, uma ex "magnífica", como as misses de pele clara de Santa Cruz são conhecidas.

Eles também investigaram as acusações contra Marinkovic, incluindo a de que buscou formar uma força paramilitar com mercenários de Montenegro, o país dos Bálcãs onde sua mãe nasceu. Marinkovic rejeita veementemente a acusação, afirmando que deseja manter a Bolívia intacta, com um movimento que é democrático e transparente.

"Uma guerra civil seria um suicídio econômico, dados meus interesses", ele disse, explicando que seu óleo de cozinha, o Aceite Rico, é vendido por toda a Bolívia e que um banco do qual tem grande participação acionária, o Banco Economico, tem agências por todo o país.

Com a atenção voltada a estas propriedades e sua posição de elite na sociedade boliviana, Marinkovic recentemente está tentando mudar sua imagem aos olhos do público, dizendo ser vítima de uma campanha de desinformação por parte do governo de Morales.

Ávido em ser visto como um boliviano, ele fala apenas espanhol nas entrevistas e encontros públicos. Ele diz que defende políticas que beneficiariam os grupos indígenas das terras baixas, como os guaranis e guaraiós. E ele insiste na manutenção da integridade do país caso este queira sobreviver à sua mais recente crise.

Mas quanto à possibilidade de nova violência nas ruas de Santa Cruz e outras cidades bolivianas, Marinkovic é claro. "Se não houver uma mediação internacional legítima em nossa crise, haverá confronto", ele disse. "E, infelizmente, será sangrento e doloroso para todos os bolivianos." George El Khouri Andolfato

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