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27/09/2008

Piratas somalis capturam cargueiro ucraniano que transportava tanques de guerra

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Nairóbi (Quênia)
Por um momento os piratas devem ter acreditado que encontraram de fato um veio de ouro - no estilo somali.

Esses ladrões marítimos armados até os dentes, que atacam rotineiramente os navios cargueiros que navegam pelo Oceano Índico, viram-se de repente no comando de uma embarcação carregada de lançadores de granadas, pilhas de munição e até tanques de guerra, no valor de US$ 30 milhões.

Mas desta vez eles podem ter metido os pés pelas mãos. Ao contrário de tantos outros seqüestros ocorridos ao largo da costa da Somália que passaram praticamente despercebidos - e impunes -, o ataque na noite da última quinta-feira contra o Faina, um navio ucraniano que transportava ecquipamento militar para o Quênia, provocou a ira de duas das mais poderosas forças armadas do planeta.

Na sexta-feira a Marinha dos Estados Unidos estava no encalço do navio seqüestrado. E os russos não estavam muito atrás.

"Essa situação está realmente saindo de controle", afirmou Mohamed Osman Aden, um diplomata somali no Quênia. "Viram só quantos países estão envolvidos? Esses piratas não vão sair desta impunes".

A costa da Somália, que tem 3.000 quilômetros de extensão, está cheia de piratas, um problema grave, levando-se em conta que grande parte do país depende de auxílio alimentar emergencial, que chega em sua maior parte por navio.

Os piratas são altamente organizados. Eles trabalham em equipes. Há até um porta-voz dos piratas (que na sexta-feira não pôde ser encontrado para tecer comentários).

Eles parecem atacar com uma impunidade cada vez maior, capturando tudo o que encontram, desde veleiros até petroleiros. Depois dos seqüestros eles geralmente exigem milhões de dólares como resgate pelos navios e as suas tripulações.

E as pessoas geralmente pagam - uma resposta que, segundo autoridades somalis e ocidentais, faz o problema aumentar. Este ano foi um dos piores já registrados, com mais de 50 navios atacados, 25 seqüestrados e pelo menos 14 mantidos atualmente em poder dos piratas. Atualmente as águas da Somália são consideradas as mais perigosas do mundo.

Quanto ao Faina, ele pode ter dado a impressão de ser aquele tipo de presa lenta e fácil que os piratas atacam periodicamente. Mas a sua carga não é do tipo que pode ser contrabandeada facilmente no porto.

Cada tanque T-72 de projeto soviético pesa mais de 36 toneladas. Os piratas precisariam de técnicas especiais, isso sem mencionar equipamentos específicos, para descarregá-los - assumindo, é claro, que eles conseguissem chegar ao porto com as marinhas norte-americana e russa no seu encalço.

Os piratas somalis são geralmente ex-pescadores que migraram para a atividade mais lucrativa de vasculhar os mares com binóculos e granadas lançadas por foguetes. Eles navegam em lanchas rápidas, lançadas no alto-mar por um navio-base, e já atacaram petroleiros a até 300 milhas da costa. Nesta semana os piratas chegaram até a tentar atacar um navio norte-americano de suprimento naval. O navio disparou tiros de advertência contra eles. Os piratas fugiram em alta velocidade.

"Esses piratas estão ficando cada dia mais ousados", afirma Andrew Mwangura, coordenador do Programa de Assistência Marítima no Quênia, que faz registros dos ataques dos piratas.

As autoridades somalis afirmam que o número de piratas está aumentando - hoje em dia há mais de mil deles -, e eles transformaram-se em uma sofisticada organização criminosa, com bases ao longo da costa pedregosa do norte da Somália.

Um funcionário público próximo ao governo somali descreveu os piratas como uma "máfia oceânica", e afirmou que eles obtiveram milhões de dólares, que usam para comprar carros luxuosos e mansões.

"O pagamento de resgates apenas piora a situação", afirma o funcionário, que não revelou o seu nome por não ter autorização para falar publicamente.

Mohamed, o diplomata somali, afirma: "Este não é um problema somali. É um problema internacional. A navegação em toda a região está em perigo por causa disso".

Os países ocidentais têm procurado reprimir a pirataria. Várias marinhas patrulham a área e escoltam navios fretados pela Organização das Nações Unidas (ONU) que transportam alimentos para a Somália. Em duas ocasiões neste ano, comandos da França trocaram tiros com piratas que seqüestraram iates franceses.

Na sexta-feira (26), autoridades quenianas e ocidentais disseram que uma belonave norte-americana rumava em direção ao navio seqüestrado para interceptá-lo, e a Marinha Russa também anunciou que estava enviando um navio de guerra chamado Dauntless. Isso poderá resultar em um confronto com os piratas no meio do Oceano Índico. Com mais de 20 reféns a bordo de um depósito flutuante de munições, as coisas podem se complicar.

As armas ucranianas no valor de US$ 30 milhões foram compradas pelo governo queniano, um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos na África.

"Esta é uma tremenda perda para nós", afirmou Alfred Mutua, porta-voz do governo queniano.

Mas Mutua não perdeu tempo em acrescentar que, como o navio ainda não chegou ao Quênia, a carta ainda é responsabilidade dos ucranianos.

O navio, registrado em Belize, deveria chegar ao porto queniano de Mombaça na próxima segunda-feira. Mas na quinta-feira, por volta das 17h, quando o Faina estava a 200 milhas da costa, a embarcação foi cercada por três lanchas, segundo a agência de notícia russa Interfax. As comunicações foram subitamente interrompidas. Foi uma típica tática pirata.

Segundo o website do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, 21 pessoas estavam a bordo: 17 ucranianos, três russos e um letão. Uma autoridade do porto de Mombaça disse que o navio transportava 2.320 toneladas de "carga projeto", o termo geralmente utilizado para descrever maquinário pesado.

Mas, segundo diplomatas e a Interfax, a carga inclui 33 tanques T-72 reformados, "uma quantidade bastante significativa de munição" e lançadores de granada. O fornecedor é uma companhia estatal ucraniana. Autoridades ucranianas e quenianas enfatizaram que a venda das armas foi perfeitamente legal.

Os piratas somalis costumam ocultar os navios capturados em baías isoladas, transportando pessoas e cargas em botes, que não são exatamente construídos para transportar equipamentos militares de aço maciço de 40 toneladas.

"Se há tanques a bordo, não creio que exista a menor chance de eles conseguirem desembarcá-los", afirmou um diplomata ocidental no Quênia.

Segundo ele, o mais preocupante é a possibilidade de armas menores, como os lançadores de granada, caírem nas mãos de insurgentes.

Na semana passada, insurgentes vinculados ao movimento islamita somali que foi derrubado do poder lançaram ataques contra forças do governo de transição da Somália, na capital, Mogadício. Dezenas de civis ficaram entre o fogo cruzado, e milhares estão mais uma vez fugindo dessa cidade marcada por balas.

A Somália está mergulhada no caos há 17 anos, desde que o governo central entrou em colapso e os clãs armados dividiram o país em feudos. Porém, a luta intensificou-se a partir de dezembro de 2006, quando tropas etíopes invadiram o país e derrubaram um movimento islamita apoiado pelo povo e que controlava grande parte da Somália.

Autoridades etíopes e norte-americanas afirmaram que os islamitas abrigavam terroristas da Al Qaeda, e as forças armadas dos Estados Unidos ajudaram os etíopes a caçar os líderes muçulmanos.

Segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, o conflito e as secas recentes provocaram a fome de milhões de somalis. Mais de três milhões de pessoas, o que é quase a metade da população do país, dependem de ajudas emergenciais de alimentos para sobreviver. Os piratas ameaçam a rota de envio de alimentos ao país devido aos constantes seqüestros que praticam no alto-mar.

Michael Schwirtz, em Moscou, e um jornalista somali em Mogadício contribuíram para esta matéria. UOL

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