UOL Notícias Internacional
 

30/09/2008

Derrota do plano de resgate mostra fracasso da liderança política

The New York Times
Jackie Calmes
Em Washington (EUA)
O colapso do plano proposto de resgate ao sistema financeiro foi produto de um fracasso maior - da liderança política em Washington - em um momento em que o mundo espera que os Estados Unidos contenham a crise econômica em cascata.

Da Casa Branca ao Congresso à campanha presidencial, os principais personagens não obtiveram os votos que precisavam na Câmara. Eles pareceram não compreender ou não tratar de forma convincente a intensa oposição entre os legisladores. Eles permitiram que a política partidária interferisse em momentos sensíveis.

Se havia alguma dúvida de que o presidente Bush ficou politicamente impotente devido aos problemas dos últimos anos, ela desapareceu na segunda-feira quando, apesar de seus apelos pessoais e esforço pleno de lobby por parte da Casa Branca, os republicanos na Câmara abandonaram o plano em grande número.

Apesar de alguns legisladores se oporem ao pacote devido aos seus méritos - e dado que ninguém antes enfrentou uma situação como essa, de forma que não há uma regra comprovada de como enfrentá-la - uma porção substancial de ambos os partidos, ciente de que as eleições estão a apenas cinco semanas de distância, achou que aprovar o pacote poderia colocar em risco seu próprio futuro político.

Mas os líderes de ambos os partidos fracassaram, concordaram muitos especialistas, ao levar a medida ao plenário da Câmara sem saber se tinham votos suficientes para a aprovação - sempre um passo ruim, especialmente neste caso, dado o risco aos mercados e a possibilidade de uma reação ruim por parte de um sistema financeiro já seriamente debilitado.

O deputado John Boehner, o líder republicano na Câmara, implorou de forma emocionada ao seu partido para que aprovasse o pacote. Após dois terços de seus membros terem votado contra, ele tentou transferir a culpa ao discurso partidário feito no plenário pela deputada Nancy Pelosi, a presidente da Câmara, pouco antes da votação.

Pelosi conseguiu os votos democratas que prometeu, mas não conseguiu obter o suficiente deles para evitar uma derrota que será lembrada por muito tempo.

Os candidatos para sucessão de Bush, os senadores John McCain e Barack Obama, que estavam longe de Washington, foram personagens insignificantes na ajuda para obtenção de uma solução para uma crise que um deles herdará.

O fracasso, mesmo que temporário, dramatizou as dificuldades em lidar com emergências que se desdobram velozmente por meio de um processo legislativo lento e inerentemente político. E apesar do raro acordo bipartidário entre os líderes dos partidos neste caso, o abismo entre o que os legisladores estavam ouvindo em Washington e o que estavam ouvindo em casa provou ser grande demais para muitos, particularmente os republicanos.

Como um estudo de seu estilo de liderança, o papel de McCain, o candidato presidencial republicano, não lhe fez nenhum bem político. Após suspender sua campanha na semana passada e prometer trabalhar com os republicanos até que uma solução fosse encontrada, McCain estava fazendo campanha em Ohio na segunda-feira, ao lado de sua companheira de chapa, a governadora Sarah Palin, enquanto começava a votação na Câmara. Lá ele implicitamente assumiu o crédito pelo acordo acertado no fim de semana para aprovação do pacote de ajuda, ao mesmo tempo em que esse era derrotado na votação.

Em seu avião antes de decolar para Iowa, McCain falou por telefone com o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., e com o presidente do Federal Reserve (o banco central americano), Ben Bernanke. Sem reivindicar nenhum crédito pela derrota do pacote, ele voou para Iowa sem fazer nenhuma declaração para os repórteres a bordo. Em Iowa, ele criticou Obama, seu adversário democrata, antes de acrescentar que "agora não é hora de atribuir culpa".

Mesmo antes da votação, os republicanos da Câmara tinham dificuldade em apontar qualquer contribuição de McCain às suas deliberações desde o final da semana passada, quando eles e McCain forçaram o governo e os líderes do Congresso a reabrirem as negociações e alterarem o pacote, impondo algumas salvaguardas aos bilhões dos contribuintes.

Obama, que fazia campanha no Colorado, ficou igualmente surpreso. Ele revisou rapidamente seu discurso, que anunciava o acordo bipartidário, para pedir ao Congresso que "dê seu melhor para que o pacote seja aprovado". Apesar de Obama ter endossado tepidamente o plano e mantido contato diário com Paulson e com os líderes do Congresso, assessores disseram que ele não pressionou os democratas hesitantes a apoiá-lo.

Na Casa Branca, os assessores descreveram o presidente como trabalhando assiduamente ao telefone para fazer lobby junto a muitos legisladores. O vice-presidente Dick Cheney, um ex-vice-líder republicano na Câmara, também fez o mesmo, sem melhor sorte. "Eu acho que todo mundo com um telefone está ligando para ver se podemos convencer alguém que está cético em relação à proposta", disse Tony Fratto, um vice-secretário de imprensa da Casa Branca, antes da votação.

Mas vários outros republicanos, incluindo legisladores e veteranos de governos anteriores, reclamavam que era muito pouco, tarde demais. Ele disse que Bush deveria ter convocado os legisladores até a Casa Branca e ido pessoalmente ao Capitólio para defender seu argumento - como outros presidentes, incluindo seu pai, fizeram no passado para vender suas maiores prioridades. "Reagan fez isso", um disse.

"Provavelmente um contato poderia ter ocorrido mais cedo, e não apenas nos últimos dois dias", disse Adam Putman, deputado da Flórida e membro da liderança republicana, que apoiou o plano. "Mas é muito difícil lidar com um governo que está de saída" - e seu poder decrescendo - "do que com um em início de mandato".

O episódio ressaltou que a credibilidade e poder político de Bush, há muito perdido entre os democratas, também está sumindo entre os republicanos. "Há um bom número de pessoas que acreditam que não estamos diante do abismo como foi dito", disse Putnam. "E algumas pessoas acreditam que estamos diante de um colapso do mercado e que algo precisa ser feito, mas não querem ser elas a terem que decidir isso."

Putnam, que fez lobby junto a colegas contrários ao plano, disse que eles diziam que a proporção de e-mails e telefonemas contra o resgate era de várias centenas para um a favor.

Ambos os partidos concordaram que o resgate poderia se aprovado facilmente no Senado controlado pelos democratas, com o apoio da maioria dos senadores republicanos. Logo, os republicanos da Câmara fizeram a diferença. O motim deles mostrou quanto o Partido Republicano mudou desde suas raízes no século 19, como o partido dos negócios e da intendência econômica.

A base do partido mudou para uma mais socialmente conservadora e populista do Sul e Oeste, e se afastou de suas raízes históricas no Nordeste, incluindo Wall Street. Os republicanos da Câmara, a maioria deles de distritos propositalmente traçados para estarem repletos de eleitores conservadores de mentalidade semelhante, refletem esta mudança.

"Eu não acho que se tratou de um fracasso de liderança, mas sim de um fracasso em segui-la", disse Thomas Mann, um estudioso do Congresso para a Instituição Brookings. "Isso é uma ação de um grupo de republicanos da Câmara que são filosoficamente contrários a fazer qualquer coisa como este resgate, e que está preparado para correr o risco." George El Khouri Andolfato

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