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01/10/2008

Piratas dão a sua versão da história: eles só querem dinheiro

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Nairóbi (Quênia)
Os piratas somalis que seqüestraram um navio cargueiro ucraniano carregado de tanques de guerra, peças de artilharia, lançadores de granadas e munições afirmaram em uma entrevista na terça-feira (30) que não faziam idéia de que o navio transportava armas quando o capturaram no alto-mar.

"Nós simplesmente avistamos um grande navio", disse em uma entrevista por telefone Sugule Ali, o porta-voz dos piratas. "Então, nós o detivemos".

Porém, os piratas logo descobriram que o roubo consistia de cerca de US$ 30 milhões em armamentos pesados que seguiam para o Quênia ou o Sudão, dependendo do indivíduo a quem se pergunte.

Em uma entrevista de 45 minutos, Sugule explicou tudo, incluindo aquilo que os piratas querem ("só dinheiro"), o motivo pelo qual estão fazendo isso ("para acabar com a pesca ilegal e o despejo de lixo nas nossas águas") e o que comem a bordo (arroz, carne, pão, macarrão, "você sabe, comida normal de seres humanos"). Ele disse que, até o momento, aos olhos do mundo, os piratas têm sido incompreendidos. "Não nos consideramos bandidos do mar", disse ele. "Para nós, bandidos são aqueles que pescam ilegalmente, despejam lixo e transportam armas em nossas águas. Estamos simplesmente patrulhando o nosso mar. Pense em nós como sendo uma guarda-costeira".

Os piratas que atenderam ao telefonema na manhã da terça-feira disseram que falavam através de um telefone por satélite no convés do Faina, o navio cargueiro ucraniano que foi seqüestrado a 200 milhas da costa da Somália na quinta-feira. Vários piratas falaram, mas, segundo eles, apenas Sugule tinha autorização para revelar o nome. Sugule admitiu que neste momento eles estão cercados por navios norte-americanos, mas não pareceu estar com medo. "A gente só morre uma vez", argumentou Sugule.

Ele afirmou que tudo está em paz no navio, apesar de relatos não confirmados de organizações marítimas no Quênia de que três piratas foram mortos durante um tiroteio entre eles próprios na noite do último domingo ou da segunda-feira.

Ele insistiu que os piratas não estão interessados nas armas, e que não pretendem vendê-las a insurgentes islamitas que lutam contra o fraco governo de transição da Somália. "A Somália sofreu vários anos de destruição por causa dessas armas", disse o pirata. "Não queremos que o sofrimento e o caos continuem. Não desembarcaremos as armas. Só queremos dinheiro".

Ele afirmou que os piratas estão pedindo US$ 20 milhões em dinheiro. "Só trabalhamos com dinheiro vivo". Mas ele acrescentou que estão dispostos a barganhar. "É uma negociação comercial", explicou.

A pirataria na Somália é um negócio altamente organizado e lucrativo, baseado no pagamento de resgates. Somente neste ano, os piratas seqüestraram 25 navios, e, em diversos casos, receberam milhões de dólares em resgates. Os resgates substanciais atraíram pistoleiros de toda a Somália, e acredita-se que atualmente existam milhares de piratas no país.

Segundo autoridades somalis, a indústria da pirataria teve início dez ou 15 anos atrás, como resposta à pesca ilegal. O governo da Somália implodiu em 1991, jogando o país no caos. Na ausência de patrulhas ao largo da costa, as águas da Somália, que são ricas em atum, logo foram tomadas por frotas pesqueiras comerciais de todo o mundo. Os pescadores somalis armaram-se e transformaram-se em vigilantes que confrontavam os barcos que pescavam ilegalmente e exigiam que eles pagassem uma taxa.

"A partir disso, eles tornaram-se gananciosos", diz Mohamed Osman Aden, um diplomata somali no Quênia. "Eles passaram a atacar todo mundo".

No início desta década, muitos pescadores somalis trocaram as suas redes por metralhadoras e passaram a seqüestrar qualquer embarcação que fossem capazes de capturar: veleiros, petroleiros, navios fretados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o transporte de alimentos.

"É verdade que os piratas começaram defendendo a atividade pesqueira somali", afirma Mohamed. "E a pesca ilegal é um problema concreto para nós. Mas isso não justifica o fato de esses garotos agirem agora como guardiões. Eles são criminosos. O mundo precisa nos ajudar a reprimi-los".

Os Estados Unidos e diversos países europeus, especialmente a França, têm discutido formas de patrulhar as águas da Somália em conjunto. As Nações Unidas estão até cogitando algo como uma força de paz marítima. Devido aos seqüestros, as águas ao largo da costa da Somália são consideradas a rota naval mais perigosa do mundo.

Na terça-feira, várias belonaves norte-americanas - cerca de cinco, segundo um diplomata ocidental - cercaram o cargueiro seqüestrado ao longo da acidentada costa somali. Os navios norte-americanos permitiram que os piratas trouxessem comida e água a bordo, mas não deixaram que retirassem armas. Uma fragata russa também está seguindo para a área.

O tenente Nathan Christensen, um porta-voz da Marinha dos Estados Unidos, disse na terça-feira que ouviu os relatos não confirmados a respeito do tiroteio entre os piratas, mas afirmou que a marinha não conta com maiores informações. "Para ser honesto, não estamos vendo muita atividade no navio", disse ele.

Em Washington, Geoff Morrell, o secretário de imprensa do Pentágono, recusou-se a fazer comentários sobre a possibilidade de operações militares norte-americanas para capturar o navio.

"No momento a nossa preocupação é garantir que haja uma solução pacífica para isso, que a carga não vá parar nas mãos de alguém que possa usá-las de forma a desestabilizar a região", disse Morrell aos repórteres no Pentágono. Ele afirmou que o governo dos Estados Unidos não está envolvido em negociações com os piratas. Morrell afirmou ainda que não tem informações a respeito dos relatos de que os piratas teriam trocado tiros entre si.

Autoridades quenianas continuam afirmando que os armamentos a bordo são parte de uma venda legítima de armas às forças armadas do Quênia, ainda que vários diplomatas ocidentais, autoridades somalis e os próprios piratas afirmem que as armas fazem parte de um acordo secreto no sentido de enviar armas para o sul do Sudão.

Autoridades somalis estão pedindo às marinhas ocidentais que invadam o navio e prendam os piratas, porque, segundo elas, o pagamento de resgates só agrava o problema. Porém, diplomatas ocidentais dizem que uma operação desse tipo seria muito difícil, porque o navio está cheio de explosivos e os piratas poderiam usar os 20 membros da tripulação como escudos humanos.

Sugule disse que os seus homens estão tratando bem a tripulação (os piratas não deixaram os tripulantes falar ao telefone, alegando que isto feriria as suas regras). "Matá-los não faz parte dos nossos planos", afirmou o pirata. "Só queremos dinheiro, de forma que possamos nos proteger da fome".

Quando a reportagem perguntou a ele por que os piratas precisariam de US$ 20 milhões para protegerem-se da fome, Sugule riu e disse, "Porque temos muitos homens".

Mohamed Ibrahim, em Mogadício, na Somália, e Eric Schmitt, em Washington, contribuíram para esta matéria. UOL

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