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01/10/2008

Sobrevivente da guerra com a Rússia: alguns georgianos se orgulham de Stalin

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Gori (Geórgia)
Com seu bigode característico, uniforme militar soviético repleto de medalhas e a determinação de ser tratado como "camarada", o personificador de Stalin, Jamil Ziyadaliev, deveria estar desempregado na Geórgia, um país ainda cambaleando da guerra com a Rússia.

Mas Ziyadaliev, 64 anos, um afável pai de dois que se veste como Stalin mesmo nos dias em que está de folga, insiste que os negócios nunca estiveram melhores. Ele é freqüentemente contratado para casamentos, onde dança ao som da katyusha soviética da Segunda Guerra Mundial.

Os benefícios de se parecer tanto com o ex-ditador, ele se gaba, incluem refeições de graça, consertos gratuitos de carro e passagem livre pelos postos de controle russos.

"Parecer com Stalin é como ter um visto na Geórgia", disse Ziyadaliev, um muçulmano que veio do Azerbaijão, que foi taxista, mascateou legumes e trabalhou como contador antes de decidir pela carreira de encarnação moderna do tirano soviético brutal e diabolicamente brilhante.

"Todos os georgianos respeitam Stalin, porque ele foi um grande líder que criou um grande império - e, é claro, ele foi o georgiano mais famoso de todos", disse Ziyadaliev.

Mas nem todos concordam, Nika Jabanashvili, um operário de construção georgiano cujos avós foram deportados por Stalin de Tbilisi para a Ásia Central, como parte de sua repressão a minorias étnicas, vê Stalin como pouco mais que um assassino.

"Stalin era um Satanás", ele disse. "Ele matou mais pessoas que o Faraó. Não me importa que foi um georgiano. Ele foi um homem mau."

Independente das opiniões, um culto resistente a Stalin persiste nesta nação pequena e orgulhosa de 4,6 milhões de habitantes, onde o filho georgiano de sapateiro que virou um titã do século 20 permanece uma figura imponente, mesmo que controversa. Uma recente pesquisa do "Tbilisi Forum", um site político popular, perguntou se as pessoas se orgulhavam de Stalin ser um georgiano; uma minoria barulhenta de 37% dentre as várias centenas dos que responderam disse que sim, enquanto 52% disseram que não e 11% disseram não se importar.

Vakhtang Guruli, um historiador da Geórgia que trabalha nos arquivos da KGB em Tbilisi, disse que a maioria dos georgianos considera Stalin "maior que um homem, mais que humano e menos que Deus".

Ele disse que os livros de história georgianos contemporâneos ainda saúdam Stalin por derrotar o fascismo de Hitler e transformar a União Soviética em uma superpotência industrial, apesar de o criticarem por planejar a invasão do Exército Vermelho que pôs fim à curta independência da Geórgia, em 1921.

O desejo por poder de Stalin, acrescentou Guruli, era decididamente uma característica georgiana, resultado de ter um ego enorme em um país machista, minúsculo, há muito consumido pelo banditismo.

"Os russos tendem a esquecer que Stalin tinha um sobrenome georgiano, Dzhugashvili, que foi esquecido quando ele adotou o nome de guerra de Stalin, que significa 'homem de aço', quando tinha cerca de 34 anos", disse Guruli. "Mas todo georgiano sabe que Stalin veio daqui. Ele pode ter dado suas ordens de execução em russo, mas ele o fez com forte sotaque georgiano" - uma linhagem, disse Guruli, que Nikita Krushev explorou ao condenar o governo de Stalin em 1956, zombando dele e de seus homens como camponeses georgianos rudes.

Simon Sebag Montefiore, autor de "O Jovem Stalin", que narra a criação violenta de Stalin como seminarista que se transformou em revolucionário marxista em Tbilisi, disse que mesmo quando Stalin se transformou no líder supremo soviético, ele manteve uma profunda ligação com a Geórgia.

Ele escrevia com freqüência para sua mãe aqui, descansava nos balneários abkhazianos e manteve um profundo amor pelo vinho, culinária, poesia e música folclórica georgianos.

"Há dois Stalins: o Stalin russo e o Stalin georgiano", disse Sebag Montefiore. "Na versão georgiana, Stalin ainda é o ativista marxista, o menino georgiano de Gori. Na versão russa, Stalin é o líder mais importante do século 20 e sua identidade georgiana removida e russificada."

Liana Imanidze, 71 anos, em cujo lar em Tbilisi há uma escultura de Stalin no quintal dos fundos e que é decorado no interior com uma réplica da máscara mortuária dele, colocada em um pedestal, lamentou o fato dos georgianos mais jovens serem tão ignorantes em relação a Stalin, incluindo seus próprios netos, que ela se queixou que se interessam mais por Paris Hilton do que pela Segunda Guerra Mundial.

Ela lamentou que seu marido que idolatrava o líder soviético era "mais apaixonado por Stalin do que por mim", mas mesmo assim considera Stalin como um gênio imperfeito.

Sociólogos daqui disseram que o apelo residual é resultado da falta de conhecimento histórico a respeito dos feitos mais sombrios de Stalin após a Geórgia ter obtido a independência da União Soviética, em 1991.

Em Gori, a provincial cidade natal de Stalin onde uma estátua de mármore dele domina a praça central, brindes ao "nosso grande camarada" continuam comuns em nascimentos e casamentos. Georgianos embaraçados no Ministério do Interior disseram que ficaram desapontados por uma bomba russa não ter atingido a estátua, durante a guerra em agosto.

Recentemente no Museu de Stalin daqui, jovens funcionários georgianos vestindo uniformes militares soviéticos vendiam camisetas de Stalin, livros de poesia de Stalin e garrafas de vinho tinto com Stalin em relevo, enquanto técnicos removiam um morteiro do recente ataque russo.

Olga Topchishvili, a principal guia do museu, disse que enalteceu os feitos de Stalin por quase 30 anos, até três meses atrás, quando o museu adicionou uma nova "seção gulag". A seção consiste de uma folha de papel laminada, do tamanho para carta, citando três sentenças de uma edição de 1997 do "Pravda", o jornal russo: "Cerca de 3,8 milhões de pessoas foram perseguidas entre 1921 e 1954", diz o jornal. "Cerca de 643 mil foram condenadas à morte. E isso aconteceu em um país que experimentou três revoluções, duas guerras mundiais, uma guerra civil e várias guerras locais."

Números exatos são desconhecidos, mas historiadores dizem que a realidade foi muito pior: que até 18 milhões de pessoas foram condenadas ao gulag sob Stalin, enquanto até 10 milhões de camponeses morreram ou foram mortos na coletivização do início dos anos 30, e quase 1 milhão de pessoas foram executadas nos expurgos de 1937-1938.

Mas Topchishvili disse que a nova exposição foi um progresso. "Até três meses atrás, ninguém queria falar sobre esta parte da história", ela disse.

Jacob Jugashvili, o bisneto de 36 anos do ditador e um artista em Tbilisi, disse que se os georgianos sentem nostalgia por Stalin, é porque ele tornou um país pequeno parte de uma grande superpotência.

Jugashvili, que cresceu em Moscou, disse que quando os georgianos ouvem seu sobrenome famoso, eles quase sempre respondem: "Stalin foi georgiano; é por isso que ele foi grande!"

O artista disse que crescer como bisneto de Stalin na Rússia dos anos 80 foi emocionalmente difícil, à medida que a liderança de Stalin era atacada durante o período de Mikhail Gorbachev. Naquela época, ele disse, os georgianos tinham muito mais respeito pelo legado dele - apesar de que na Rússia de Vladimir Putin, disse Jugashvili, a estatura de Stalin ter se elevado de novo.

Em 1989, ele estava no colégio e "a perestroika tinha atingido seu ponto de fervura", ele disse, acrescentando: "Os jornais de Moscou publicavam histórias com a manchete 'Dzhugashvili é um assassino! ' Eu tinha 16 anos e fiquei muito mal com aquilo. Eu não sabia como me defender".

Atualmente o respeito por Stalin pode unir georgianos e russos.

Nodari Baliashvili, 72 anos, um natural de Gori que tem uma grande tatuagem de Stalin em suas costas e outra de Stalin e Lenin no peito, lembrou que quando a guerra estourou em 7 de agosto, ele trabalhava como segurança em uma garagem de ônibus quando um coronel russo apareceu e lhe apontou uma pistola.

Baliashvili lembrou que tirou sua camisa e o coronel "baixou sua arma, me beijou na bochecha, me deu uma garrafa de vodca e chocolates e disse: 'Vovô, vá para casa'". Baliashvili, que fez as tatuagens quando era soldado do exército soviético, disse que seu avô, um órfão pobre de Gori, foi adotado pelo pai de Stalin, que o tornou um aprendiz de sapateiro.

"Eu me orgulho de Stalin ter vindo de Gori", disse Baliashvili. "Ele construiu a União Soviética. Ele trouxe ordem para onde antes havia caos. Hoje, tudo está à venda." George El Khouri Andolfato

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