UOL Notícias Internacional
 

02/10/2008

Friedman: agora é necessário fazer o resgate do resgate do sistema financeiro

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Eu estava zapeando pelos canais na segunda-feira (29/09), acompanhando o quase colapso de 800 pontos do mercado de ações, quando um comentarista da "CNBC" chamou minha atenção. Foi pedido a ele que desse um conselho aos telespectadores sobre quais eram as melhores opções para enfrentar a tempestade do mercado. Sem hesitar, ele respondeu: "Sacar o dinheiro e ficar em posição fetal".

É como estou - porque conheço um momento sem precedente quando vejo um. Eu fiquei temeroso em relação ao meu país apenas poucas vezes na minha vida: em 1962, quando, aos 9 anos, eu acompanhei a tensão da crise dos mísseis em Cuba; em 1963, com o assassinato de JFK; em 11 de setembro de 2001; e na segunda-feira, quando os republicanos da Câmara derrotaram o pacote de resgate bipartidário.

Mas este momento é o mais assustador de todos para mim, porque os três anteriores foram provocados por ataques reais ou potenciais contra o sistema americano por pessoas de fora. Desta vez, nós mesmos somos os culpados. Desta vez, é nosso próprio fracasso em regular nosso próprio sistema financeiro e legislar o remédio apropriado que está acabando conosco.

Eu sempre acreditei que o governo dos Estados Unidos era um sistema político único - projetado por gênios para que pudesse ser dirigido até por idiotas. Eu estava errado. Nenhum sistema pode ser inteligente o suficiente para sobreviver a este nível de incompetência e imprudência por parte das pessoas encarregadas dele.

Isso é perigoso. Nós temos membros da Câmara, muitos dos quais suspeitos de não serem capazes de calcular seus gastos no talão de cheque, rejeitando um pacote de resgate complexo porque alguns eleitores, que temo que também não entendem, os sobrecarregaram de telefonemas. Eu aprecio esta revolta popular contra Wall Street, mas não se pode lidar com uma crise desta forma.

Esta é uma crise de crédito. Trata-se de confiança. O que você não pode ver é como o banco A não mais emprestará para a empresa boa B ou para a financiadora hipotecária C. Como ninguém sabe ao certo se os ativos e garantias do outro valem algo, este é o motivo da necessidade de intervenção do governo para dar algum tipo de garantia. Caso contrário, o sistema ficará desprovido de crédito, como um corpo privado de oxigênio.

Você pode dizer: "Eu não tenho ações - deixe que aqueles monstros gananciosos de Wall Street sofram". Você pode não ter ações pessoalmente, mas seu fundo de pensão pode ser dono de alguns papéis do Lehman Brothers e seu banco regional pode ter títulos hipotecários subprime (de risco), o motivo para você ter conseguido financiar a compra de seu imóvel há dois anos. E o aeroporto local foi segurado pelo AIG, e sua prefeitura local vendeu títulos municipais para Wall Street para financiar o novo sistema de esgoto de sua rua, e a fábrica de automóveis e a concessionária dependem do crédito para poder oferecer um financiamento para compra de carro - e agora que o mercado de crédito secou, o banco Wachovia quebrou e sua vizinha perdeu seu emprego de secretária lá.

Nós todos estamos interligados. Como outros apontaram, não é mais possível salvar o varejo e o cidadão comum e punir Wall Street, da mesma forma que uma pessoa em um barco a remo, acompanhada de alguém que odeia, possa achar que o furo no barco vai afundar apenas o lado do outro. O mundo ficou achatado. Nós estamos todos ligados. "Descolamento" é pura fantasia.

Eu entendo plenamente o ressentimento contra os titãs de Wall Street recebendo US$ 60 milhões em bônus. Mas quando o sistema de crédito está em perigo, como agora, é preciso se concentrar em salvar o sistema, mesmo que signifique socorrer pessoas que não merecem. Caso contrário, seria como dizer: vou prender minha respiração até que o gato gordo de Wall Street fique roxo. Mas ele não vai ficar roxo - você vai, ou nós todos vamos. Nós temos que consertar isso.

Meu rabino me contou esta história na celebração do Rosh Hashana na terça-feira: uma mãe frágil de 80 anos está comemorando seu aniversário e cada um de seus três filhos lhe dá um presente. Harry lhe dá uma nova casa. Harvey lhe dá um carro novo e um motorista. E Bernie lhe dá um papagaio enorme que consegue recitar a Torá inteira. Uma semana depois, ela chama seus três filhos e diz: "Harry, obrigado pela bela casa, mas só uso um cômodo. Harvey, obrigado pelo carro, mas não suporto o motorista. Bernie, obrigado por dar para sua mãe algo que realmente podia desfrutar. Aquele frango era delicioso".

Mensagem ao Congresso: não nos dê algo que não precisamos. Não nos dê algo projetado para resolver seus problemas políticos. Sim, Hank Paulson e Ben Bernanke precisam aceitar supervisão rígida e o contribuinte deve ter a garantia de receber uma parte dos lucros de todos os bancos resgatados. Mas fora isso, lhes dê o capital e a flexibilidade para apagar este incêndio.

Eu sempre digo para mim mesmo: nosso governo está tão quebrado que só consegue funcionar em resposta a uma crise imensa. Mas agora que temos uma crise imensa, o sistema ainda assim parece não funcionar. Nossos líderes, republicanos e democratas, estão tão sem prática em trabalharem juntos que mesmo diante deste colapso que ameaça o sistema, eles conseguem não concordar em um pacote de resgate, como se vivessem em Marte e estivessem apenas nos visitando por uma semana, sem que o resultado pudesse atingi-los.

A história não pode terminar aqui. Se terminar, assuma a posição fetal. George El Khouri Andolfato

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