UOL Notícias Internacional
 

02/10/2008

No Iraque, até o progresso traz riscos

The New York Times
Alissa J. Rubin
Em Bagdá (Iraque)
As tempestades de areia que cobrem Bagdá, dificultando a visão durante grande parte do verão (no hemisfério norte), parecem uma metáfora para o momento atual.

A situação atual da segurança é incontestavelmente boa. A violência está em queda. O Parlamento aprovou tanto uma lei para realização do primeiro recenseamento em mais de três décadas e uma lei eleitoral provincial que permitirá que eleições sejam realizadas em todas as províncias, exceto uma, no final de janeiro. Este é um claro progresso.

Mas olhando mais atentamente - mesmo com a aprovação da lei eleitoral - é possível vislumbrar caminhos que levam tanto ao sucesso quanto ao fracasso.

Do ponto de vista americano, as eleições são uma coisa boa, uma chance de resolver a divisão de poder pacificamente. As eleições permitiriam a vários grupos atualmente excluídos da composição política ter um lugar à mesa. Os principais entre eles são os representantes dos sunitas tribais e dos pobres xiitas.

Mas isso também significa que os grupos atualmente no poder provavelmente perderão terreno. E no Iraque, um país que acertou suas diferenças mais freqüentemente com armas do que com palavras, as pessoas estão acostumadas a lutar para manter o poder, não a usar a arte da persuasão.

Saddam Hussein executou rivais potenciais após uma reunião do Partido Baath, em 1979. Anteriormente, na história do Iraque do século 20, pelo menos quatro golpes de Estado sucessivos depuseram um líder após o outro, com o novo líder usando execuções e prisões para eliminar qualquer oposição.

O modelo democrático defendido pelos americanos - um governo da maioria equilibrado pelos direitos das minorias e a regra da lei - continua entrando em conflito com as realidades iraquianas. O problema por trás é que ainda não há um acordo político geral, aceitado por todos os lados, para distribuição do poder entre os interesses concorrentes no Iraque. Apesar de raramente ser comentado de forma explícita, há acertos de contas pendentes.

"De agora em diante, a violência seguirá a política", disse um alto funcionário ocidental que está acompanhando as manobras pré-eleitorais.

Basta olhar para o norte, sul e oeste de Bagdá para ver rivalidades potencialmente letais ameaçando virem à tona em curto prazo, à medida que as eleições se aproximam, quando há novos vencedores e perdedores. As eleições acentuam a probabilidade de um maior número de tentativas de assassinato, prisões daqueles vistos como "inimigos" do governo central ou local, e intimidação dos rivais políticos que ameaçam o status quo.

Apesar da violência contra os civis em geral estar em queda, membros de algumas facções políticas, desde os seguidores do clérigo xiita Muqtada al Sadr aos Conselhos do Despertar dominados por sunitas, podem listar pessoas que acreditam que foram mortas por motivos políticos. Os líderes militares americanos discordam entre si sobre se os assassinatos estão aumentando ou se alguns deles foram apenas atos criminosos. Mas eles estão "observando os números atentamente", disse um oficial militar que participa de reuniões sobre os ataques.

Olhe para o norte, e os curdos estão lutando pela hegemonia nas áreas situadas ao longo da fronteira de sua região semi-autônoma. Eles estão competindo com os turcomanos e árabes sunitas que alegam direito de propriedade de parte do mesmo território, particularmente a cidade de Kirkuk e a província ao seu redor. Os políticos tentaram repetidas vezes, desde 2003, chegar a um acordo para resolver as disputas. Mas cada esforço fracassou diante das ambições dos curdos de expandir a região curda.

Por grande parte dos últimos cinco anos a situação foi tensa, mas não explodiu em violência étnica. Isso mudou nos últimos seis meses, à medida que começaram os ataques contra os quartéis-generais dos partidos dos diferentes grupos. Então em agosto, soldados curdos em Kirkuk abriram fogo contra os turcomanos após um atentado suicida; o tumulto que se seguiu resultou na morte de dezenas de pessoas. A violência se espalhou. No início de setembro em Khanaqin, uma cidade predominantemente curda que fica na província vizinha de Diyala, tanques do exército iraquiano enfrentaram os pesh merga, as forças de segurança do Curdistão.

No sul xiita do país há uma luta pelo poder entre os principais partidos: o Conselho Islâmico Supremo do Iraque e o Partido Dawa, liderado pelo primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki. Os dois, antes aliados no governo, agora estão disputando território, cargos e uma visão para o país.

O partido de Al Maliki detém as alavancas de poder em Bagdá e está ávido em expandir seu poder e influência sobre os cargos da esfera provincial, ao obter controle de assuntos como contratação e demissão dos chefes de polícia locais. O Conselho Supremo, liderado por Abdul Aziz al Hakim, há muito quer um modelo mais federalista, com grande parte do poder nas mãos dos governadores e conselhos locais. O Conselho Supremo controla pelo menos quatro províncias do sul e também é poderoso em Bagdá.

"O governo central está sendo ampliado às custas do governo local e das províncias, e consideramos isso ilegal", disse Hadi al Ameri, um parlamentar do Conselho Supremo e chefe da Organização Badr, seu ex-braço armado. "Nós temos um governo federal e governos locais nas regiões, com o governo central tendo uma autoridade restrita. Por exemplo, o desejo deles é nomear e afastar os comandantes da polícia", ele disse.

Para a Badr, que buscou nomear comandantes policiais em várias províncias-chave, tamanho envolvimento do governo significaria que o Conselho Supremo perderia seu controle exclusivo sobre a polícia e os cargos de segurança relacionados. Isso pode se transformar em apenas discussão entre dois partidos políticos, mas também pode crescer até virar algo letal.

Recentemente o partido de Al Maliki, que conta com o apoio do exército, mas não de milícias próprias, tem tentado dialogar com os xiitas alinhados com Al Sadr, o clérigo antiamericano, que conta com alguns seguidores armados. O Conselho Supremo é igualmente capaz de reunir homens armados; alguns membros estão na polícia ou no exército. Há evidência que sugere que os assassinatos já se tornaram comuns em muitas províncias do sul, mais notadamente em Hilla, onde muitos sadristas foram detidos ou mortos.

Na província de Anbar, que envolve uma grande área do oeste do Iraque, uma dinâmica intra-sunita está se desenrolando, na qual o Partido Islâmico Iraquiano, que agora detém o poder no conselho provincial, está preocupado que os recém-criados Conselhos do Despertar, apoiados pelas forças armadas americanas, o removerão do poder. Os Conselhos do Despertar, que recebem o crédito de terem ajudado a expulsar a Al Qaeda na Mesopotâmia de grandes áreas do oeste e centro-norte do Iraque, assim como de Bagdá, acreditam que chegou a hora delas terem poder na política tanto quanto em terra.

Como vários membros dos conselhos são ex-rebeldes ou já apoiaram a insurreição, o governo suspeita deles.

Nos últimos meses, o exército iraquiano começou a prender alguns dos líderes, especialmente em Anbar. A ação foi recebida com apenas fracos protestos dos partidos sunitas, que agora detêm o poder, já que as prisões enfraqueceram seus concorrentes políticos. Mas os membros do Despertar estão armados e dificilmente tolerarão os esforços para amordaçá-los.

Isso é mais importante agora do que nunca, já que as forças armadas americanas estão em um trajeto claro de retirada, primeiro das ruas iraquianas, e depois do país.

O futuro está lançado ao ar e será de quem agarrá-lo. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host