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03/10/2008

Em meio às incertezas, países latino-americanos repreendem os Estados Unidos

The New York Times
Alexei Barrionuevo e Simon Romero, do The New York Times
Em São Paulo (Brasil)
Quando a velocidade da crise financeira norte-americana aumentava, o presidente do Brasil parecia alheio aos problemas do país do norte, mostrando-se às vezes quase alegre.

"Que crise?", disse o presidente Luis Inácio Lula da Silva quando lhe perguntaram no mês passado a respeito do problema financeiro. "Pergunte a Bush sobre isso".

Assim como vários outros países sul-americanos, o Brasil tem exibido uma recém-descoberta confiança que é fruto de uma iniciativa deliberada no sentido de reduzir a dependência política e econômica em relação aos Estados Unidos. Mas, na segunda-feira passada, pouco após o Congresso norte-americano rejeitar a proposta de um pacote de socorro financeiro de US$ 700 bilhões, Lula mudou de tom, afirmando no seu programa semanal de rádio que o Brasil na verdade não está imune à disseminação do problema.

"Uma crise recessiva em um país como os Estados Unidos pode trazer problemas para todos os países", explicou ele aos brasileiros.

Em apenas alguns dias, os líderes latino-americanos fizeram uma transição da schadenfreude para o medo. Apesar do vigoroso crescimento econômico desta década e de algumas tentativas de sair da órbita norte-americana, existe um nervosismo crescente quanto à possibilidade de a América Latina não ser capaz de escapar das conexões globalizadas no setor financeiro que passam pelos Estados Unidos.

Após parecer ter exultado com o colapso do Lehman Brothers, Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, deixou de comparecer à abertura da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada, para visitar a China, afirmando que agora Pequim é muito mais relevante do que Nova York.

Mas, na terça-feira, depois que o mercado de ações norte-americano desabou quase 778 pontos, arrastando consigo as bolsas de valores latino-americanas, Nova York, e especialmente Wall Street, voltou subitamente a tornar-se relevante, e Chávez declarou em uma reunião de cúpula no Brasil que a crise financeira teria a força de "uma centena de furacões".

Nos últimos dez anos, vários governos da região têm trabalhado no sentido de reduzir a dependência em relação à economia dos Estados Unidos. Eles diversificaram o comércio com o resto do mundo, e esforçaram-se também para poupar dezenas, e às vezes centenas, de bilhões de dólares para os períodos em que a situação da economia internacional piorasse.

À medida que as suas economias fortaleciam-se e a cooperação política aumentava, parecia que os Estados Unidos eram empurrados rapidamente para fora do cenário. Os líderes latino-americanos faziam frente aos Estados Unidos, vangloriando-se cada vez mais.
No mês passado, a Venezuela e a Bolívia expulsaram os embaixadores norte-americanos de seus territórios. E o Brasil, tido como o mais forte aliado dos Estados Unidos na região, não só apoiou a expulsão promovida pela Bolívia, país que é uma grande fonte de gás natural como Lula também se manifestou contra a presença naval norte-americana na região, alertando que, como resposta a isso, o seu país precisou colocar os seus próprios navios de guerra em estado de alerta.

Tais sentimentos anti-americanos refletem um ressentimento antigo em relação às fórmulas econômicas de Washington para a América Latina. Alguns países da região afirmam que essas políticas os prejudicaram. Quando a própria Wall Street começou a entrar em crise, alguns líderes latino-americanos sentiram que os seus argumentos foram confirmados por esse colapso.

"Estamos vendo o Primeiro Mundo - que em determinado momento foi retratado como uma Meca que deveríamos lutar para atingir - explodindo como uma bolha", afirmou duas semanas atrás a presidente da Argentina, Cristina Fernandez Kirchner.

A crise financeira explodiu bem além de Wall Street.

Os castigados mercados globais já estão provocando uma reação em cadeia na América Latina. À medida que nervosos investidores retiravam o seu dinheiro dos mercados emergentes, o real, a moeda brasileira, sofria uma desvalorização de 16% em relação ao dólar no mês passado, o que resultou em prejuízos de milhões de dólares para grandes exportadores de alimentos e de celulose de eucalipto que apostaram erradamente na direção do real.

No México, a redução do envio de dinheiro dos Estados Unidos também está fazendo com que cresçam as preocupações, e o ministro das Finanças, Augustin Carstens, afirmou que as remessas monetárias enviadas pela fronteira poderão sofrer uma queda de US$ 2,8 bilhões, ou 8%, neste ano. Na Venezuela, uma queda acentuada do valor dos títulos do país nas últimas duas semanas reflete os temores quanto à queda dos preços do petróleo, especialmente porque os Estados Unidos continuam sendo de longe o maior comprador de petróleo venezuelano, apesar da deterioração do relacionamento entre os dois países.

Segundo os economistas, o problema diz respeito em grande parte ao crédito, que é necessário para manter aquecidas as economias latino-americanas baseadas nas exportações.

"A contração do crédito e as restrições de liqüidez que estamos presenciando afetarão o mundo inteiro", afirma Alfredo Coutino, economista da agência de classificação de crédito Moody's. "Isso significa que os custos para as companhias latino-americanas, especialmente aquelas que necessitam de fundos externos, serão maiores".

A queda dos preços das commodities também poderá prejudicar o crescimento em países como a Argentina e o Equador, e o efeito psicológico da crise nos Estados Unidos já está ecoando pelas bolsas de valores da América Latina. Isso poderia provocar uma retração dos gastos dos domicílios, que foram responsáveis por grande parte do crescimento recente das economias da região, especialmente a do Brasil.

Alguns governos também estão diretamente vinculados às instituições norte-americanas em relação às quais manifestaram desprezo, como ocorre na Venezuela, cujo governo perdeu cerca de US$ 300 milhões em investimentos ligados ao Lehman.

Ricardo Sanguino, diretor do comitê de finanças na Assembléia Nacional da Venezuela, afirmou que as perdas foram pequenas se comparadas às reservas do banco central de mais de US$ 30 bilhões e ao se levar em conta as decisões anteriores de converter algumas dessas reservas em ouro e de transferir os investimentos em bancos norte-americanos para bancos suíços.

"A crise nos afeta porque não somos uma economia totalmente fechada, mas o impacto não será desastroso", afirmou Sanguino.

Os economistas dizem que, com uma maior disciplina fiscal, alguns países criaram fundos de estabilização que devem ajudá-los a suportar os efeitos da confusão em Wall Street. O governo brasileiro orientou o seu banco nacional de desenvolvimento, o BNDES, a conceder US$ 2,5 bilhões em créditos a exportadores agrícolas para a próxima safra, na tentativa de prevenir uma grande contração neste setor.

Outros países da região poderão sofrer mais. Antes da crise, os investimentos estrangeiros já haviam diminuído na Bolívia e no Equador, onde governos que estavam repletos de reservas antes que os preços das commodities começassem a cair nacionalizaram companhias estrangeiras e entraram em atrito com multinacionais.

A Argentina, que ainda sofre com a questão da dívida, poupou muito menos do que o Brasil ou o Chile durante a sua expansão econômica. Agora o país enfrenta a queda dos preços das commodities, especialmente da soja, o principal produto de exportação, e terá menos flexibilidade para injetar verbas nas suas indústrias. Nas últimas semanas, o governo argentino, ao perceber que poderia enfrentar uma contração fiscal, passou a concentrar-se nos investidores estrangeiros para obter novos fundos, e recorreu à Venezuela para refinanciar bilhões de dólares em dívidas. Mas com os preços do petróleo em queda, a Venezuela poderá impor condições mais rígidas para os empréstimos à Argentina.

Antes mesmo da crise em Wall Street, o calcanhar de Aquiles da região - a inflação elevada - já retornava em vários países, especialmente na Venezuela, na Bolívia e na Argentina. Os economistas vêm advertindo há meses que a Argentina poderá rumar para uma crise financeira caso não controle a inflação.

Uma esperança para alguns países poderá ser a China, que se tornou o mais sólido parceiro para as exportações da soja, do petróleo e de outras commodities latino-americanas. Se o crescimento da China mantiver-se robusto, o país asiático continuará recorrendo ao Brasil e à Argentina para a importação de grãos. Com a viagem à China no mês passado a fim de assinar um acordo com o objetivo de triplicar as exportações de petróleo para aquele país, Chávez poderá reduzir a dependência do seu país em relação ao mercado norte-americano. "O mundo jamais será o mesmo após esta crise", declarou Chávez aos repórteres no Brasil. "Um novo mundo precisa emergir, e será um mundo multipolar. Estamos nos desatrelando do vagão da morte".

Outros líderes, como Lula, passaram do desprezo pela crise à franca irritação: "Fizemos o que deveríamos fazer para colocar a nossa casa em ordem", declarou na última segunda-feira um furioso Lula. "Eles passaram anos nos dizendo o que fazer, mas eles próprios não fizeram o que pregaram..." UOL

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