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04/10/2008

Com a aprovação do pacote nos EUA, o próximo desafio é colocá-lo em ação

The New York Times
Mark Landler e Edmund L. Andrews
Em Washington (EUA)
Esta será uma das maiores firmas de gerenciamento de ativos do mundo, dona de um cofre recheado com a impressionante quantia de US$ 700 bilhões. Nada menos do que a economia global depende do sucesso desta firma. E o Departamento do Tesouro tem apenas um mês para colocá-la em ação.

A lei de socorro financeiro que o presidente assinou rapidamente na sexta-feira (03/10) precisa fazer aquilo que os especialistas financeiros foram incapazes de realizar no ano passado - estabelecer um valor em dólares para ativos vinculados a hipotecas que ninguém quer, retirá-los da lista contábil de bancos debilitados e reativar os mercados de crédito que encontram-se congelados.

Ao assinar a medida, Bush avisou aos norte-americanos que eles não devem esperar resultados instantâneos. "Isto será feito da forma mais rápida possível, mas não é algo que se realize da noite para o dia. Demoraremos o tempo que for necessário para elaborar um programa efetivo que alcance os objetivos - e que não desperdice os dólares do contribuinte".

Mesmo após ter trabalhado febrilmente nas últimas duas semanas, o Tesouro ainda demorará cerca de seis semanas para adquirir os primeiros ativos problemáticos de um banco, e certamente isso só será feito após as eleições de 4 de novembro.

As autoridades do Tesouro não pretendem elas próprias administrar os ativos hipotecários. Em vez disso, elas terceirizarão quase todo o trabalho, deixando-o a cargo de profissionais que fiscalizarão as enormes carteiras de títulos e outros securities mediante o pagamento de uma taxa de gerenciamento.

Acredita-se que o Tesouro nomeie uma autoridade graduada para supervisionar o programa. Por ora, vários grupos de trabalho responsáveis pela criação do plano estão respondendo diretamente ao secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr.

Paulson recrutou diversos ex-colegas do Goldman Sachs para assessorá-lo, embora autoridades do governo enfatizem que estes indivíduos não estão dominando o processo, e apontem para outros funcionários do Tesouro que estão desempenhando papéis fundamentais.

"Nós nos mobilizaremos rapidamente para implementar as novas delegações, mas também agiremos metodicamente", declarou Paul, depois que a Câmara dos Deputados aprovou o pacote na sexta-feira.

Segundo autoridades do governo, só serão contratados cerca de 24 profissionais que formarão uma equipe técnica interna dotada de conhecimentos em gerenciamento de ativos, contabilidade e questões legais. O grosso do programa será terceirizado com a contratação de entre cinco e dez firmas de gerenciamento.

Autoridades do governo afirmam que ainda não selecionaram a lista de firmas que realizarão leilões ou gerenciarão os ativos. Nas últimas semanas, o Tesouro consultou informalmente algumas grandes firmas - incluindo a BlackRock, a Pacific Investment Management Corporation e a Legg Mason - mas nenhuma delas foi formalmente escolhida.

As firmas de gerenciamento de ativos selecionadas receberão um montante de US$ 250 bilhões que o Congresso está autorizando o Tesouro a gastar na primeira fase do pacote. A essas firmas serão pagas taxas provavelmente inferiores ao padrão vigente na indústria, que é de cerca de US$ 1 para cada US$ 100 sob gerenciamento.

As autoridades governamentais afirmam que tentarão reduzir esses pagamentos por meio de um processo competitivo de licitações. Mas com US$ 700 bilhões para desembolsar, o plano poderá ainda assim gerar dezenas de bilhões de dólares em pagamentos de taxas, caso as firmas resolvam negociar com valores próximos ao padrão.

O principal mecanismo para a compra desses ativos serão os leilões reversos, utilizando os mesmos princípios que governam os leilões no setor de eletricidade ou de telefonia celular. Neste caso, o governo fará uma oferta para a compra de uma categoria de ativos - por exemplo, securities vinculadas às hipotecas subprime -, sendo que o preço final será determinado pela quantidade de bancos dispostos a vender.

Especialistas do setor dizem que o uso de firmas contratadas externas em tal escala gera uma série de questões delicadas. Entre as mais espinhosas: como é que o Tesouro evitará conflitos de interesse que os gerenciadores de fundos encontrarão ao trabalharem no sentido de, simultaneamente, defender os interesses dos seus clientes - capazes de pagar taxas maiores - e os interesses do contribuinte?

"Caso não se tenha alguém com a estatura e a honestidade de um Paul Vocker administrando este programa, haverá motivos para muita preocupação quanto aos conflitos de interesse", adverte Alan S. Blinder, ex-vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), referindo-se ao seu ex-chefe. "Infelizmente, simplesmente não existem muitas pessoas que apresentem ao mesmo tempo o conhecimento necessário e um perfil que evite os potenciais conflitos de interesse".

As autoridades do Tesouro dizem que ainda estão redigindo uma política relativa ao conflitos de interesse, bem como diretrizes sobre compensação.

Como se esse esquema não fosse suficientemente complicado, os funcionários do Tesouro precisam tomar decisões duras que determinarão quem serão os vencedores e os perdedores com este pacote. Com tanto dinheiro em jogo, os lobistas de grupos de interesse já estão assediando o governo para que este os beneficie.

A perspectiva de ação durante uma crise nacional gerou ofertas não solicitadas de famosos gerentes de ativos, como William H. Gross, diretor-gerente do Pimco, que ofereceu os seus serviços gratuitamente.

Ao elaborar o programa, Paulson baseou-se nas orientações de ex-executivos do Goldman Sachs: Edward C. Forst, ex-co-diretor de gerenciamento de investimentos do Goldman, que está de licença do seu emprego como vice-presidente-executivo da Universidade Harvard; Kendrick Wilson, ex-diretor dos grupos de instituições financeiras do banco; e Dan Jester, que foi ex-diretor-financeiro da instituição.

Mas funcionários graduados do governo afirmam que várias outras autoridades do Tesouro estão desempenhando papéis cruciais, incluindo seis secretários-assistentes: Peter McCarthy, Phill Swagel, Neel Kaskari, Ken Carfine, Dave Nason e Kevin Fromer, que chefiou a equipe de negociações do Departamento do Tesouro em Capitol Hill.

Forst deverá retornar em breve a Harvard, onde ele ajuda a gerenciar o fundo de doações. E com a iminência de uma mudança de governo, muitas das pessoas envolvidas com a organização do programa não estarão presentes para administrá-lo.

Mesmo assim, é possível que o Tesouro não encontre problemas para recrutar substitutos, ao levar-se em consideração as demissões que têm assolado a indústria financeira.

"Tem muita gente que, devido à contração em Wall Street, está sem salários", diz Joshua S. Siegel, diretor-gerente do Stone Capital Partners, um fundo que gerencia US$ 2,2 bilhões. "Essas pessoas adorariam participar".

Dentre todos os desafios enfrentados pelo Departamento do Tesouro, o mais delicado poderá ser a determinação de um preço para os papéis que comprará e que ninguém mais quer. Muitos dos contratos de financiamento podres e securities vinculadas a hipotecas não possuem nenhum valor de mercado porque não existem potenciais compradores. As firmas contratadas pelo governo contarão com um poder enorme para pressionar o "mercado" para cima ou para baixo, conforme lhes der na telha.

Se o governo pechinchar com o objetivo de comprar pelo menor preço possível, ele protegerá o contribuinte. Mas obrigar os bancos a absorver grandes perdas será um tiro no pé caso eles não sejam capazes de voltar a financiar até levantarem novos capitais. Se o governo concordar em comprar os ativos pelos valores mantidos pelos bancos nas suas folhas de balanço, é quase certo que o contribuinte pagará valores excessivos.

O preço "correto" vai depender de quem governo optará por favorecer: os compradores ou os vendedores. Muitos bancos estão esperando que o governo pague valores próximos àqueles registrados nas suas contabilidades.

Mas os gerentes de fundos de hedge e outros potenciais compradores estão exigindo que o governo faça pressão para obter preços bem inferiores, baseados no atual valor de negociação desses ativos. Esses potenciais compradores estão esperando pegar uma carona no programa do Tesouro, talvez até adquirindo ativos problemáticos juntamente com o departamento durante os leilões.

Existem debates similares a respeito de como o Tesouro deveria organizar o plano. A maioria dos especialistas financeiros concorda que seria impossível criar uma operação interna do tamanho necessário em umas poucas semanas.

"É essencial que eles terceirizem tudo o que for possível", diz Tim Ryan, presidente da Associação da Indústria de Securities e Mercados Financeiros. "A única coisa que eles não podem terceirizar é a decisão final, e tampouco a infra-estrutura - pessoas, políticas de contratação, regras para os contratos. Mas eles podem contratar pessoas para fazer tudo o mais".

Ryan é ex-diretor do Departamento de Supervisão de Gerenciamento Monetário, onde ele desempenhou um papel fundamental nas áreas de poupança e enxugamento de empréstimos. Mesmo assim, alguns investidores estão perturbados com o fato de o governo recorrer pesadamente a empresas privadas. Eles dizem que será difícil impedir que tais firmas administrem o capital de forma a favorecer os seus clientes particulares.

É inevitável que as grandes firmas de gerenciamento de ativos sejam donas, ou estejam vinculadas a bancos proprietários, de algumas das exatas securities que o governo está procurando vender. A Pimco, por exemplo, pertence à Allianz, uma das maiores companhias de seguros da Alemanha. O Merryl Lynch é dono de uma parcela acionária do BlackRock.

"Não consigo sequer imaginar como eu administraria isto", afirma Siegel. "Como é que eu administraria um lado, no qual estou procurando maximizar os lucros, e o outro lado, onde o meu objetivo é o bem social?".

A legislação estipula que o governo tem que prevenir conflitos de interesse na contratação de firmas, na decisão de que bens comprar, no gerenciamento desses ativos e até mesmo com relação aos empregos mantidos pelos funcionários depois que eles deixarem o programa. Mas ela deixa os detalhes a cargo do Tesouro.

O Departamento do Tesouro pretende publicar diretrizes para a contratação de firmas de gerenciamento de ativos nos próximos dois dias. Alguns especialistas dizem que o departamento simplesmente precisa preparar-se para os inevitáveis protestos.

"Será impossível contornar os conflitos de interesse, portanto é necessário absorver os problemas que virão por aí", adverte Peter Wallison, que foi conselheiro-geral do Departamento do Tesouro no governo de Ronald Reagan.

A legislação do pacote ressalta as metas contraditórias com as quais o governo se defrontará quando começar a comprar. Entre as metas cogitadas está a "proteção do contribuinte"; "evitar a perturbação dos mercados financeiros", e "a necessidade de ajudar as famílias a manterem as suas casas".

Os parlamentares democratas insistem que o Tesouro use a sua autoridade para ajudar a reestruturar várias hipotecas subprime, de forma que pelo menos alguns proprietários de imóveis em apuros possam evitar o despejo.

Mas o plano de leilões do Tesouro tornará isto difícil. Mais de 90% de todas as hipotecas subprime fazem parte de grupos gigantescos, ou trustes, que vendem securities vinculadas a hipotecas para investidores de todo o mundo.

Os especialistas em securities dizem que antes que o governo fosse capaz de modificar qualquer hipoteca que integre um truste, ele teria que obter a aprovação de 100% dos proprietários dos títulos. Mas uma autoridade graduada do Departamento do Tesouro diz que o governo provavelmente desejará comprar não mais do que a metade das securites integrantes de um truste, o que tornará difícil obter a aprovação de todos os investidores.

As autoridades do Tesouro enfatizaram que o governo também comprará hipotecas integrais, que não foram securitizadas, e que ele poderá muito bem comprar tais hipotecas por meio de negociações pontuais com bancos individuais. As autoridades dizem que também experimentarão usar outras abordagens. UOL

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