UOL Notícias Internacional
 

04/10/2008

Explorando a ligação de Obama com um ex-radical

The New York Times
Scott Shane
Em Chicago (EUA)
Em um tumultado encontro de militantes antiguerra do Vietnã no Chicago Coliseum, em 1969, Bill Ayer ajudou a fundar os radicais Weathermen, lançando uma campanha de atentados a bomba contra o Pentágono e o Capitólio federal.

Vinte e seis anos depois, em um almoço para tratar de reformas em escolas em um arranha-céu de Chicago, Barack Obama se encontrou com Ayers, na época um professor de ensino. Seus caminhos se cruzaram esporadicamente desde então, em um encontro promovido por Ayers para a primeira candidatura de Obama, no projeto das escolas e em um conselho de caridade, além de encontros casuais como vizinhos em Hyde Park.

O relacionamento entre eles se tornou uma arma para os adversários de Obama, o senador democrata, em sua candidatura à presidência. Vídeos no YouTube, incluindo uma nova propaganda exibida na sexta-feira, sobrepõem o rosto de Obama ao do jovem Ayers ou de imagens granuladas dos atentados. Em uma entrevista exibida pela televisão há vários meses, o senador John McCain, o rival republicano de Obama, perguntou: "Como alguém pode apoiar uma pessoa que se envolveu em atentados a bomba que poderiam ter matada ou mataram pessoas inocentes?"

Mais recentemente, críticos conservadores que acusam Obama de esconder uma agenda radical afirmaram que ele minimizou de forma enganadora seu relacionamento com Ayers, a quem o candidato tratou como se fosse apenas "um sujeito que mora no meu bairro" e "alguém que eu conheço que cuidava de questões do ensino em Chicago".

Uma revisão dos registros dos projetos escolares e entrevistas com uma dezena de pessoas que conhecem ambos os homens sugerem que Obama, 47 anos, atenuou seus contatos com Ayers, 63 anos. Mas os dois homens não parecem ter um relacionamento estreito. Nem Obama jamais expressou simpatia pelas posições e ações radicais de Ayers, a quem ele chamou de "alguém que se envolveu em atos detestáveis há 40 anos, quando eu tinha 8 anos".

Assessores da campanha de Obama disseram que o relacionamento com Ayers foi enormemente exagerado pelos adversários visando difamar o candidato.

"A sugestão de que Ayers foi um conselheiro político de Obama ou alguém que moldou suas posições políticas é absolutamente falsa", disse Ben LaBolt, um porta-voz da campanha. LaBolt disse que os homens se conheceram em 1995 por meio de um projeto dedicado às escolas, o Chicago Annenberg Challenge, e que eles se encontravam ocasionalmente na vida pública ou no bairro. Ele disse que eles nunca conversaram por telefone ou trocaram e-mail desde que Obama assumiu a cadeira de senador federal em janeiro de 2005, e que se encontraram pela última vez há mais de um ano, quando seus caminhos se cruzaram na rua em Hyde Park.

Na apresentação da propaganda de 30 segundos ou de um clipe de vídeo, as ligações de Obama com um homem que já promoveu atentados a bomba a prédios e que não se arrepende disso pode levantar suspeitas. Mas em Chicago, Ayers se reabilitou.

As acusações federais contra ele de conspiração e fomentação da desordem pública foram retiradas em 1974, por causa de grampos telefônicos ilegais e outras condutas indevidas no processo, e ele foi aceito de volta à sua grande e proeminente família após passar anos escondido. Seu pai, Thomas G. Ayers, já foi presidente-executivo da Commonwealth Edison, a companhia elétrica local.

Desde que obteve um doutorado em pedagogia pela Universidade de Columbia em 1987, Ayers trabalha como professor de pedagogia na Universidade de Illinois, em Chicago, foi autor ou editor de 15 livros e é um defensor da reforma do ensino.

"Ele tem feito muitas coisas boas para a cidade e o país", disse o prefeito Richard M. Daley em uma entrevista nesta semana, explicando que há muito tempo consulta Ayers sobre questões de ensino. Daley, cujo pai foi prefeito de Chicago durante a violência de rua que acompanhou a Convenção Nacional Democrata de 1968 e os chamados Dias de Fúria no ano seguinte, disse que vê os atentados daquela época no contexto de uma era turbulenta e polarizada.

"Nós estamos em 2008", disse Daley. "As pessoas cometem erros. Você julga a pessoa por toda a sua vida."

Esta postura é amplamente compartilhada em Chicago, mas não é universal. Steve Chapman, um colunista do "Chicago Tribune", defendeu o relacionamento de Obama com o reverendo Jeremiah A. Wright Jr., seu antigo pastor, cuja teologia da libertação negra e o sermão "Deus amaldiçoe a América" se tornaram notórios meses atrás. Mas ele condenou Obama por se associar a Ayers, que ele acha que a Universidade de Illinois nunca deveria ter contratado.

"Eu não acho que exista um estatuto de limitação para atentados terroristas", disse Chapman em uma entrevista, falando não da lei, mas das implicações políticas e morais.

"Se você está na vida pública, é preciso dizer: 'Eu não quero estar associado a este sujeito'", disse Chapman. "Se John McCain tivesse uma longa associação com um sujeito que cometeu atentados a bomba contra clínicas de aborto, eu não acho que as pessoas diriam 'isso é história antiga'."

Ayers e sua esposa, Bernardine Dohrn, uma professora associada da Escola de Direito da Universidade do Noroeste e que também foi fundadora do Weather Underground, não responderam aos múltiplos pedidos de comentário.

O projeto de reforma das escolas

A ligação entre Ayers e Obama veio à tona meses atrás, quando tanto a senadora Hillary Rodham Clinton, a rival de Obama nas primárias democratas, quanto McCain a expuseram. Ela se tornou tema de uma propaganda de televisão em agosto, de autoria da American Issues Project anti-Obama, e atraiu nova atenção recentemente em uma coluna de opinião do "Wall Street Journal" e em outros veículos, quando os arquivos do Chicago Annenberg Challenge, da Universidade de Illinois, foram abertos aos pesquisadores.

Esse projeto fez parte de um esforço nacional para a reforma das escolas, financiado com US$ 500 milhões de Walter H. Annenberg, o editor e filantropo bilionário e embaixador no Reino Unido no governo do presidente Richard Nixon. Muitas cidades se candidataram ao dinheiro de Annenberg, e Ayers se uniu a outros dois ativistas locais de ensino para liderar um amplo esforço municipal que obteve quase US$ 50 milhões para Chicago.

Em março de 1995, Obama se tornou presidente do conselho de seis membros que supervisionou a distribuição da verba em Chicago. Alguns blogueiros especularam recentemente que Ayers realizou manobras para colocá-lo no cargo.

Na verdade, segundo várias pessoas envolvidas, Ayers não teve nenhum papel na indicação de Obama. Ele foi sugerido por Deborah Leff, na época presidente da Fundação Joyce, com sede em Chicago, de cujo conselho Obama, um jovem advogado, passou a fazer parte no ano anterior. Em um almoço com outros dois chefes de fundação, Patricia A. Graham, da Fundação Spencer, e Adele Simmons, da Fundação MacArthur, Leff sugeriu que Obama seria um bom presidente para o conselho, ela disse em uma entrevista. Ayers não estava presente e não sugeriu Obama, ela disse.

Graham disse que convidou Obama para um jantar em um restaurante italiano em Chicago e ficou impressionada. "No final do jantar eu disse: 'Eu realmente quero que você seja o presidente'. Ele disse: 'Eu aceito se você for a vice-presidente'", lembrou Graham, e ela aceitou.

Arquivos do projeto Chicago Annenberg, que canalizou dinheiro para redes de escolas de 1995 a 2000, mostram que ambos participaram de seus reuniões do conselho no início do projeto - Obama como presidente e Ayers como aquele que apresentava relatórios aos membros sobre as necessidades das escolas.

Foi no final de 1995 que Ayers e Dohrn foram anfitriões de um encontro na casa deles, a três quadras da casa de Obama, no qual a senadora estadual Alice J. Palmer, que planejava concorrer ao Congresso, apresentou Obama a alguns amigos democratas como sua escolha para sucedê-la. Esse foi apenas um dentre os muitos eventos de bairro que ocorreram enquanto Obama se preparava para concorrer, disse A.J. Wolf, o rabino emérito de 84 anos da Sinagoga KAM Isaiah Israel, que fica em frente à atual residência de Obama.

"Se você perguntar para minha esposa, nós realizamos uma reunião para Barack", disse Wolf. Ele disse que conhece Ayers há décadas, mas acrescentou: "Bill está louco comigo porque eu disse a um repórter que ele é um ex-radical inofensivo".

"Foi um comentário um tanto desagradável", disse Wolf. "Mas é verdade. Por Deus, o homem é um professor."

Outras ligações

Em 1997, após Obama assumir sua cadeira, o "Chicago Tribute" perguntou ao novo senador estadual o que ele estava lendo. Ele elogiou um livro de Ayers. "A Kind and Just Parent: The Children of Juvenile Court", que Obama chamou de "um relato doloroso e oportuno sobre o juizado de menores". Em 2001, Ayers doou US$ 200 para a campanha de reeleição de Obama.

Além disso, de 2000 a 2002, os dois participaram do conselho de sete membros do Fundo Woods, uma caridade de Chicago que apoiava o trabalho inicial de Obama como organizador comunitário nos anos 80. Representantes disseram que o conselho se reuniu uma dúzia de vezes durante aqueles três anos, mas se recusaram a divulgar as minutas das reuniões, dizendo que eles pediam aos membros que fossem francos na avaliação de pessoas e organizações que se candidatavam a receber os recursos.

Um membro do conselho na época, R. Eden Martin, um advogado corporativo e presidente do Clube do Comércio de Chicago, descreveu ambos como escrupulosos no exame dos projetos comunitários propostos, mas que não se recordava de nada notável no relacionamento entre eles. "Havia pessoas que eram liberais e algumas bem conservadoras, mas geralmente chegávamos a um consenso", disse Martin sobre o conselho.

Desde 2002, há pouca evidência pública de relacionamento entre eles.

Se àquela altura o político ambicioso estava tentando se distanciar, não seria uma surpresa. Em um artigo que por acaso foi publicado em 11 de setembro de 2001, o "New York Times" escreveu a respeito de Ayers e seu livro de memórias recém publicado, "Fugitive Days", abrindo com uma citação do autor: "Eu não me arrependo de ter armado as bombas. Eu sinto que não fizemos o suficiente".

Três dias após os ataques da Al Qaeda, Ayers escreveu uma resposta postada em seu site para esclarecer seus comentários citados, dizendo que o significado foi distorcido. "Meu livro de memórias é do início ao fim uma condenação ao terrorismo, do assassinato indiscriminado de seres humanos, seja ele movido pelo fanatismo ou por uma política oficial", ele escreveu. Mas ele acrescentou que os Weathermen "mostraram notável restrição" dada a natureza da campanha americana de bombardeios no Vietnã que eles buscavam deter.

A maioria das bombas atribuídas aos Weathermen foi armada para provocar apenas danos materiais, um fato que Ayers enfatiza em suas memórias. Mas uma bomba de cano em 1970 em San Francisco, atribuída ao grupo, matou um policial e feriu gravemente outra pessoa. Uma explosão acidental em 1970, em uma residência em um porão de Greenwich Village, matou três radicais; os sobreviventes disseram posteriormente que estavam preparando bombas de pregos para detonar em um baile militar no Forte Dix, em Nova Jersey. E em 1981, em um assalto armado a um carro blindado da Brinks em Nanuet, Nova York, que envolveu membros da Weather Underground, incluindo Kathy Boudin e David Gilbert, dois policiais e um guarda da Brinks foram mortos.

Em seu livro de memórias, Ayers foi evasivo a respeito de quais atentados participou, escrevendo que "alguns detalhes não podem ser contados". Na época do assalto à Brinks, ele e Dohrn tinham deixado o submundo para criar seus dois filhos, e depois Chesa Boudin, cujos pais foram presos por seu envolvimento no assalto.

Pouca influência vista

Os amigos de Obama dizem que a história é completamente irrelevante para julgar o candidato, porque Ayers nunca foi uma influência significativa para ele. Até mesmo alguns conservadores que conhecem Obama disseram que se ele tinha alguma atração pelo radicalismo ao estilo Ayers, ele o escondeu bem.

"Eu nunca vi evidência de radicalismo, seja às claras ou escondido, quando estivemos juntos na Escola de Direito de Harvard", disse Bradford A. Berenson, que trabalhou na publicação "Harvard Law Review" juntamente com Obama e que atuou como consultor jurídico associado da Casa Branca no governo do presidente Bush. Berenson, que apóia McCain, descreveu seu colega de universidade como "um liberal pragmático", cuja moderação frustrava outros na "Law Review", cujas posições eram bem mais à esquerda.

Cerca de 15 anos depois, os simpatizantes de esquerda de Obama têm a mesma queixa. "Nós apoiamos plenamente Obama, mas discordamos de algumas de suas posições", disse Tom Hayden, o ativista dos anos 60 e ex-legislador da Califórnia que ajudou a organizar a Progressistas por Obama. Seu grupo é contrário ao pedido do candidato de envio de mais soldados ao Afeganistão, por exemplo, "porque achamos que é um atoleiro igual ao Iraque. Muito de nosso trabalho visa tentar convencer outros progressistas que consideram Obama conservador demais".

Hayden, 68 anos, disse que conhece Ayers há 45 anos e que estava no outro lado da divisão do movimento radical antiguerra, que levou Ayers e outros a formarem os Weathermen. Mas Hayden disse que considera as tentativas de associar Obama aos atentados e radicalismo como "típica manobra eleitoreira".

"Se Barack Obama diz que está disposto a conversar com líderes estrangeiros sem pré-condições", disse Hayden, "eu posso imaginar que esteja disposto a conversar com Bill Ayers sobre escolas. Mas acho que isso é o mais longe que vai o relacionamento entre eles". George El Khouri Andolfato

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