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07/10/2008

Friedman: Aqui fala-se sueco

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Outro dia eu falava com uma amiga em Nova York sobre a atual crise financeira, e ela me contou sobre uma cena que tinha acabado de testemunhar no lobby do Warwick Hotel. Quatro turistas suecas, que claramente tinham saído às compras em Manhattan, estimuladas pelo dólar ainda barato, estavam tentando espremer todas as compras dentro de quatro malas. Elas compraram uma balança portátil daquelas que você prende na mala e levanta, para assegurar que todos seus produtos americanos não ultrapassassem o peso para o vôo de volta para casa.

Outro amigo meu no setor de remessa de produtos em Baltimore, Alan Kotz, me contou sobre um cliente alemão que recentemente tinha dobrado sua encomenda normal. Quando Alan lhe perguntou se ele estava ciente de quanto tinha encomendado, o alemão riu: "Alan, não se preocupe, tudo para nós está pela metade do preço".

E isso é uma coisa boa. Apesar de o dólar ter valorizado um pouco recentemente, nós precisaremos dos estrangeiros e dos fundos soberanos da China, Ásia, Europa e Oriente Médio mais do que nunca para sobreviver à crise - e eles precisarão de nós para também permanecerem com saúde. No processo, nós nos tornaremos ainda mais interligados e dependentes do restante do mundo.

Sarah Palin não terá que se preocupar com o fato de não saber qual é a doutrina Bush. Ninguém realmente sabia o que ela significava. Mas tinha algo a ver com exercício unilateral do poder americano, e a capacidade do próximo presidente de agir unilateralmente em relação a qualquer coisa fora assuntos vitais de segurança nacional será reduzida. Como diz o velho ditado: aquele que tem o ouro dita as regras. Bem, nós não temos mais tanto ouro, e até termos algum, nós teremos que prestar mais atenção às regras daqueles que nos emprestam o deles.

Em uma época em que o governo americano toma metade de seus empréstimos no exterior, em um momento em que a taxa de poupança dos lares americanos está pairando próxima de zero e a China sozinha detém cerca de US$ 1 trilhão em notas do Tesouro americano e títulos do Fannie Mae e Freddie Mac - sim, é como você consegue aquela hipoteca subprime barata - não dá para ser de outra forma.

É melhor alguém dizer a John McCain: nós todos somos suecos agora. Esqueça o "Viva Livre ou Morra". Até nos acertarmos financeiramente, nosso lema será: "Aqui fala-se sueco - ou árabe, chinês, alemão..."

Eu também apostaria que mais e mais investidores estrangeiros vão querer comprar ativos tangíveis - arranha-céus, imóveis e empresas- não apenas fundos mútuos, títulos do Tesouro, ações de bancos ou outros papéis. Sem problema. Os americanos possuem ativos em todo o mundo; os estrangeiros há muito desejam adquirir posições substanciais em empresas americanas. Isso é a globalização - e agora você verá a globalização e a integração financeira em esteróides. Isso deverá nos ajudar, mas também nos mudará.

"A próxima rodada de capital que virá do exterior será muito mais exigente e ingressará em ativos reais", argumentou Jeffrey Garten, professor de comércio e finanças da Escola de Administração de Yale. "Ser um grande país devedor significa perder ainda mais de nossa soberania. Significa conduzir nossas políticas econômicas com o olho voltado para saber se os outros aprovam. Significa suportar os conselhos e críticas que demos ad nauseam a outros países por mais de meio século. Significa realizar consultas mais intensivas a outras capitais sobre nossas políticas fiscais e nossas políticas monetárias."

Ao mesmo tempo, acrescentou Garten, "decisões corporativas se tornarão mais sensíveis a fatores internacionais, em parte porque mais não-americanos estarão nos conselhos diretores". No final, isso poderia tornar a indústria americana ainda mais competitiva globalmente - mas para aqueles que não passarem pela inspeção global ou não alistarem colaboradores globais, as conseqüências poderiam ser duras.

É claro, nem Barack Obama nem John McCain ousariam falar sobre isso agora. Eles querem fingir que nada realmente mudou. No minuto em que um deles pisar no Escritório Oval, eles nos dirão o contrário. Essa será a surpresa de janeiro.

Houve muita conversa após a Rússia ter invadido a Geórgia de que a globalização tinha acabado e que estávamos vendo o retorno da "história", com a primazia da política sobre a economia. Eu acho que não. Política e economia estão sempre inseparavelmente interligadas. Fazer história raramente é gratuito. O mercado de ações russo sofreu um duro golpe em conseqüência da invasão à Geórgia, e a desaceleração global encolheu a receita do gás e petróleo russos. Nenhum país é uma ilha atualmente.

Fazer história não envolve simplesmente a vontade de fazê-la. Também envolve a forma - os recursos que você dispõe para atingir seus fins. Sejam quais forem as vontades do próximo presidente americano, ele descobrirá que seus modos foram reduzidos e restringidos - até arregaçarmos nossas mangas e trabalharmos até sair destes estrago.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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