UOL Notícias Internacional
 

08/10/2008

Friedman: o tipo de patriotismo de Sarah Palin

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Sarah Palin é de fato um alvo muito fácil para críticas. Mas, tendo em vista a enorme atenção que ela está recebendo, não dá para simplesmente ignorar o que a candidata a vice-presidente vem dizendo. E há uma coisa que ela afirmou durante o debate com Joe Biden que realmente me irritou. A candidata declarou ao democrata: "Recentemente você afirmou que pagar impostos é algo patriótico. Nos Estados Unidos da classe média, onde eu estive durante a maior parte da minha vida, isso não é considerado patriótico".
Que declaração terrível. Palin defendeu o plano do governo para socorrer as instituições financeiras, no valor de US$ 700 bilhões. Ela apoiou o aumento do número de soldados no Iraque, onde o seu próprio filho está servindo. Palin mostrou-se favorável ao envio de mais tropas ao Afeganistão. Mas, ao mesmo tempo, ela declarou que os norte-americanos que pagam as suas parcelas justas de impostos para apoiar todas estas iniciativas do governo não devem ser considerados patriotas.

Tudo o que eu desejaria é que alguém perguntasse a ela: "Governadora Palin, se o pagamento de impostos não é considerado patriótico no seu bairro, quem vai pagar pelo colete a prova de balas que protege o seu filho no Iraque? Quem pagará pelo plano de socorro aos bancos que você aprovou?" Se este dinheiro não for obtido com impostos, só há duas maneiras de cobrir o custo desses grandes projetos - imprimir mais dinheiro ou tomar mais dinheiro emprestado. Você acha que pegar dinheiro emprestado com a China é mais patriótico do que obter essas verbas dos norte-americanos por meio de impostos? Isto não é colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. É vender os Estados Unidos em primeiro lugar.

Sinto muito, mas eu cresci em uma família típica da classe média, em um subúrbio típico da classe média, em Mineápolis, e os meus pais me ensinaram que, embora pagar impostos não seja divertido, é desta forma que pagamos os custos com a polícia, o exército, as universidades e escolas públicas, a pesquisa científica e a assistência de saúde aos idosos. Ninguém exprimiu isto melhor do que Oliver Wendell Holmes: "Gosto de pagar impostos. Com os impostos eu compro civilização".

Posso entender que não é tarefa do governo resgatar o sistema financeiro, mas não consigo compreender alguém que argumenta que devemos salvar os bancos, mas que afirma que não podemos pagar por isto com o dinheiro arrecadado com impostos. Dá para entender que uma pessoa afirme que estamos nos intrometendo no Iraque, mas não entendo como alguém pode defender a nossa permanência naquele país até a "vitória", declarando, ao mesmo tempo, que pagar impostos para financiar isto não é patriótico.

Como é que os comentaristas conservadores são capazes de escrever de cara limpa que esta mulher deveria ser a vice-presidente dos Estados Unidos? Será que essas pessoas têm noção da encrenca séria em que este país está metido neste momento?

Estamos no meio de uma tempestade econômica perfeita, e não sabemos o quanto a situação vai piorar. Pessoas em todo o mundo estão acumulando dinheiro vivo, e nenhum banco sente-se capaz de confiar inteiramente em nenhuma pessoa com a qual faça negócios em qualquer lugar do mundo. Vocês perceberam que o governo da Islândia acaba de assumir o controle sobre o segundo maior banco do país, e está suplicando à Rússia que lhe empreste US$ 5 bilhões para impedir uma "falência nacional? Que mensagem pode ser lida nestes fatos? A mensagem é que a amplitude e a velocidade da globalização financeira ultrapassaram a capacidade de administração deste processo por parte das organizações reguladoras. A nossa crise foi capaz de quebrar a Islândia! Quem sabia disto?

E nós ainda não sentimos todo o impacto econômico por aqui. Temo que possamos estar naquele momento que antecede o impacto do tsunami - quando os pássaros levantam vôo e os insetos deixam de estrilar porque os seus sentidos aguçados podem captar o que está vindo antes que os humanos percebam qualquer anomalia. Neste momento, somente a boa governança é capaz de salvar-nos. Não estou certo de que esta crise vá acabar sem que todo governo de toda grande economia garanta a segurança de toda instituição financeira regulada por ele. Esta pode ser a única forma de fazer com que o crédito volte a fluir. A organização de algo tão grande e complexo exigirá uma governança realmente inteligente e uma liderança experiente.

Independentemente de eu concordar ou não com John McCain, ele tem capacidade para ser presidente. Mas colocar o país em uma situação na qual uma novata total como Sarah Palin poderia ser solicitada a nos conduzir através daquela que possivelmente é a pior crise econômica das nossas vidas é uma irresponsabilidade total. É o oposto do conceito de conservador.

E, por favor, não me venham dizer que ela arranjará assessores inteligentes. O que acontecerá quando os seus dois assessores mais inteligentes discordarem em relação a algo?

E não me digam também que ela é uma "especialista em energia". Ela é especialista em energia exatamente da mesma forma que o rei da Arábia Saudita também é - pelo fato acidental de morar em determinada região. Palin é a governadora da Arábia Saudita dos Estados Unidos - o Alasca -, e o único conhecimento sobre energia que ela possui é aquele que o rei da Arábia Saudita também tem. Este conhecimento diz respeito a como os lucros inesperados oriundos do petróleo nos respectivos reinados devem ser divididos entre as companhias de petróleo e o povo.

Pelo menos o rei da Arábia Saudita, ao defender o "perfure poços, baby, perfure", está atendendo aos interesses do seu país, ao prolongar a dependência norte-americana do petróleo. O meu problema com Palin é que ela também está atendendo aos interesses da Arábia Saudita - ao prolongar a nossa dependência do petróleo. Isto não é patriótico. Patriótico é oferecer um plano para construir a nossa economia - não por meio de redução de impostos, ou da perfuração de mais poços de petróleo, mas dando condições a mais norte-americanos para que estes trabalhem em empregos produtivos e inovadores. Se Palin possui este tipo de plano, eu ainda não ouvi nada sobre ele. UOL

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