UOL Notícias Internacional
 

10/10/2008

Nações avaliam uma abordagem global à medida que o caos financeiro se espalha

The New York Times
Mark Landler e Edmund L. Andrews
Em Washington (EUA)
Os Estados Unidos e o Reino Unido parecem estar convergindo para uma solução comum para o caos financeiro que está tomando conta do mundo, um dia antes de um encontro crucial de líderes financeiros ter início em Washington, um que a Casa Branca espera que resulte em uma resposta mais unida.

Os planos britânico e americano, apesar de longe de idênticos, têm dois elementos comuns: injeção de dinheiro do governo nos bancos em troca de participação acionária e garantias de quitação de vários tipos de empréstimos.

Ambos os remédios estarão no centro das atenções no sábado, quando o presidente Bush se reunirá com os ministros das finanças dos países mais ricos do mundo em um encontro incomum na Casa Branca para troca de idéias.

O convite de Bush aos ministros das finanças do Reino Unido, Itália, Alemanha, França, Canadá e Japão ocorreu em um dia de telefonemas e troca de cartas entre líderes europeus e Washington. As autoridades lutavam para elaborar uma resposta coordenada ao sistema bancário global em dificuldades antes de seguirem para Washington para as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

"À medida que esta coisa se espalhou, surgiram as oportunidades de cooperação", disse David H. McCormick, o subsecretário do Tesouro para assuntos internacionais. "Nós precisamos promover e destacar essas áreas comuns."

Com os mercados de crédito ainda congelados e os mercados de ações de todo o mundo desfalecendo, há um crescente consenso de que a crise agora está avançando tão rapidamente e é tão prejudicial à economia mundial que exige um grau sem precedente de coordenação mundial.

A abertura do Tesouro a injeções diretas de dinheiro é uma mudança notável de tom em relação há poucas semanas, quando o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., e o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben S. Bernanke, desencorajavam essas ações em um depoimento perante o Congresso.

"Colocar capital nas instituições representa fracasso", declarou Paulson em 23 de setembro. "Isto se trata de sucesso."

Mas as autoridades do Tesouro disseram que a ênfase mudou na semana passada, em grande parte por causa do contínuo mergulho em parafuso dos mercados de ações.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, defendeu em uma carta ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, outra opção que está ganhando força entre os economistas - a garantia aos empréstimos de curto e médio prazo entre bancos. Ao persuadir os bancos a retomarem os empréstimos uns aos outros, o plano visa retirar da paralisia o mercado de crédito. "Esta é uma área onde uma abordagem internacional orquestrada poderia ter um efeito muito poderoso", disse Brown na quinta-feira, na carta de duas páginas.

Funcionários do governo americano estão discutindo aspectos da proposta britânica, mas disseram que economias diferentes têm regras diferentes que complicam uma ação conjunta.

Um alto funcionário do governo argumentou que a expectativa por um acordo em torno de propostas como a de Brown "elevaria irracionalmente as expectativas".

Ainda assim, a recapitalização dos bancos e fazê-los retomarem os empréstimos estão no topo da lista de remédios que muitos economistas estão sugerindo. Ao agir de forma orquestrada, os países podem maximizar o impacto de suas ações, disseram esses especialistas, evitando ao mesmo tempo as distorções que ocorrem quando países agem de formas diferentes.

"No mínimo, você deseja reduzir os danos", disse Carmen M. Reinhart, uma professora de economia da Universidade de Maryland. "Você não deseja as políticas 'empobreça teu vizinho' que caracterizaram a Grande Depressão."

"No máximo", ela continuou, "você consegue os princípios gerais - a necessidade de rápida recapitalização dos bancos, a necessidade de liquidez - para não termos um arrocho de crédito ainda maior".

Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), alertou os países contra tomarem medidas que possam desestabilizar os sistemas financeiros de seus vizinhos. Medidas unilaterais, ele disse, "precisam ser evitadas e inclusive condenadas".

O diretor do FMI anunciou que o fundo ativou um mecanismo de financiamento de emergência, que lhe permitiria emprestar dinheiro mais rapidamente para os países com problemas financeiros, em conseqüência da crise.

A Casa Branca confirmou que o Departamento do Tesouro está considerando adquirir participações acionárias dos bancos como parte de seu pacote de resgate de US$ 700 bilhões. Mas os funcionários disseram que a idéia está menos desenvolvida do que o plano para compra de ativos problemáticos dos bancos por meio "leilões reversos".

A meta, disseram os funcionários do Tesouro, é um plano que esteja amplamente disponível para todos os bancos, em vez de pacotes de resgate específicos negociados caso a caso. Isso torna provável que o governo possa arcar em assumir apenas uma pequena participação em cada instituição individual.

As injeções diretas de dinheiro seriam para bancos comparativamente saudáveis. Se um banco estiver correndo risco de falência e precisar ser resgatado ou fechado, o Seguro Federal de Depósitos Bancários seria o encarregado por meio de seus próprios procedimentos.

A proposta do Tesouro de recapitalizar os bancos vem do entendimento de que à medida que o mercado de ações continua caindo, e os ativos ligados a hipotecas presentes nos balancetes dos bancos também despencam, fica cada vez mais difícil para os bancos levantarem capital junto aos investidores.

O governo concluiu que poderia fornecer o capital mais rapidamente e com maior garantia se o fizesse diretamente.

A mudança também pode refletir as crescentes dúvidas em torno do plano do Tesouro de compra dos ativos ligados a hipotecas. Por meio dos leilões reversos, os interessados em se desfazer dos ativos difíceis de vender competiriam para oferecê-los ao governo. Os leilões supostamente reanimariam o mercado para esses ativos e permitiriam aos investidores atribuir um valor para eles nos balancetes. Assim que os balancetes dos bancos estiverem limpos dos ativos tóxicos, prossegue a teoria, eles seriam capazes de atrair novo capital.

Mas o conceito nunca foi testado, disseram especialistas, e a deterioração das condições do mercado diminui ainda mais suas perspectivas.

"Eu não acho que o plano esteja decolando", disse Martin N. Baily, um economista da Instituição Brookings. "Eu não sei se obteríamos a descoberta do preço, mas mesmo que conseguíssemos, quantos Warren Buffetts ou xeques do Oriente Médio existem que estejam dispostos a investir em bancos?"

Outra vantagem do plano de recapitalização é mais sutil: o Tesouro receberia um retorno maior pelo dinheiro investido. Como os bancos têm uma relação de dívida para patrimônio de 10 para 1 ou mais, um dólar gasto na compra de uma participação acionária apoiaria 10 vezes mais ativos do que um dólar gasto comprando ativos individuais.

Funcionários disseram que o governo poderia adquirir participações acionárias na forma de ações comuns, ações preferenciais pagando dividendos específicos ou alguma outra forma de participação. Mas os funcionários disseram que a oferta pelo governo de capital adicional deve ser feita de forma uniforme a todos os bancos.

Está longe de claro que outros países aceitarão a necessidade de uma recapitalização por atacado de todos os bancos. Mesmo se aceitarem, nem o plano britânico e nem o americano necessariamente seriam um modelo.

"Há muita gente esfolando o gato de muitos modos diferentes", disse McCormick, o responsável do Tesouro pela organização das reuniões dos ministros das finanças, em uma entrevista. "Está claro que um modelo tamanho único não serve."

Por sua vez, os funcionários americanos questionaram como o governo britânico e os bancos avaliariam o capital injetado nestes, para fins de tomada de participações acionárias. Eles também disseram que a proposta era vaga a respeito de como o governo trataria da remuneração dos executivos.

Na lei de resgate aprovada na semana passada, o Congresso americano estipulou que o Tesouro deve limitar severamente a remuneração dos executivos de bancos aos quais fornecer capital - incluindo artigos que proíbem os ricos pacotes de rescisão e que ordenam que o governo retome os bônus baseados em lucros declarados que provarem estar incorretos.

O plano do Reino Unido também depende da disposição de vários grandes bancos - Royal Bank of Scotland, Barclays e HSBC Holdings, entre eles - de vender ações preferenciais para o governo. Não está claro, disseram funcionários do governo, se os grandes bancos americanos concordariam com isso, particularmente dadas as restrições à remuneração dos executivos.

Outra preocupação que os bancos provavelmente terão é que qualquer participação acionária do governo diluiria a participação dos atuais acionistas.

Para os europeus, encontrar um ponto em comum tem sido difícil. Sarkozy tentou sem sucesso unir os líderes europeus em torno de um esforço de resgate. A Alemanha, em particular, resistiu ao esforço europeu, em parte por acreditar que acabaria resgatando seus vizinhos.

"Apenas uma ação coordenada por parte dos governos e bancos centrais será capaz de deter o risco ao sistema e assegurar o financiamento das economias", disse Sarkozy. Ele sugeriu um encontro especial de líderes do Grupo dos Oito países industrializados antes do fim do ano.

Na quinta-feira, Nancy Pelosi, a presidente da Câmara federal dos Estados Unidos, e Harry Reid, o líder da maioria no Senado, fizeram o mesmo, dizendo que Bush deveria convocar uma reunião de emergência do G-8, que também inclui a Rússia. A Casa Branca já disse que Bush está aberto a essa reunião.

Enquanto o mercado de ações despencava para seu ponto mais baixo em cinco anos na quinta-feira, a Casa Branca anunciava que Bush apareceria no Jardim das Rosas na manhã de sexta-feira para fazer uma declaração sobre a economia. Um alto funcionário do governo disse que seus comentários novamente buscariam acalmar os nervos, argumentando que o governo está fazendo tudo o que pode dentro do pacote de resgate, mas que isso leva tempo.

Steven Lee Myers contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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