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12/10/2008

Povo dos broches

The New York Times
Peter H. Schweitzer
Em 1845, David Levy Yulee, um democrata da Flórida, tornou-se o primeiro judeu a ser eleito senador nos EUA. Isso foi muito antes que seu Estado tivesse aposentados judeus suficientes para preencher os primeiros restaurantes durante o jantar e constituir um bloco eleitoral significativo.

Não levou muito tempo, entretanto, para que os políticos começassem a seduzir o voto judeu. E também não levou muito tempo para que o voto judeu se tornasse crucial. Este ano, os votos do colégio eleitoral da Flórida podem influenciar a maneira como os aposentados judeus votam.

Basta observar o "Great Schlep", uma campanha - impulsionada por um vídeo de Sarah Silverman na internet - estimulando os netos de judeus a persuadirem seus avôs e avós a votarem em Barack Obama.

Na minha experiência, as formas mais óbvias pelas quais os políticos tentam seduzir os judeus hoje é demonstrando seu apoio a Israel e apelando para valores sociais tradicionais. As maneiras menos óbvias são, bem, os broches políticos.

Em 1940, o candidato republicano Wendell Willkie sofreu uma derrota avassaladora para Franklin D. Roosevelt. Normalmente isso mereceria apenas uma nota de rodapé na história. Mas é de grande interesse para os judeus o broche de campanha que foi entregue na tentativa de ganhar seus votos.

Essa parece ter sido o primeiro exemplo de uso da caligrafia em estilo hebraico para comunicar - de forma codificada - a lealdade política de alguém. Como alguns rabinos disseram, "Quem sabe, sabe" - quem entende não precisa de explicação. Os não-judeus podem achar que isso é algum tipo de artesanato chique, mas os judeus recebiam a mensagem secreta de que Willkie era "um de nós".

Willkie, que foi democrata até um ano antes de sua nomeação, era franco em lutar contra o racismo e opor-se à Ku Klux Klan. Ele também era considerado um internacionalista, a favor do serviço militar obrigatório, enquanto muitos republicanos eram isolacionistas. Ambas as visões sem dúvida teriam apelo para muitos judeus, mas ele terminou como uma nota de rodapé, e recebeu apenas 10% do voto judeu, a mesma quantidade angariada por Barry Goldwater - um candidato de raízes judaicas - em 1964.

Nas últimas décadas, a abordagem dissimulada foi substituída por uma clara e ousada: grafar abertamente os nomes dos candidatos em hebraico. Os eleitores judeus estão orgulhosos de serem judeus, e os candidatos querem se identificar com eles.

Em 2000, ou no ano 5761 de acordo com o calendário judaico, coforme nos lembra outro broche, que mostra Al Gore frente a frente com George W. Bush. Isso incitou uma piada inteligente baseada num trocadilho bilíngüe. Lendo da direita para esquerda, no estilo hebraico, sob a foto de Gore estava a grafia de seu nome em hebreu, "Gore". Sob a foto de Bush estava a palavra "Gore-nisht", que literalmente significa "Não Gore" ou, em iídiche, "Gornisht", que significa "nada". Não é preciso ser um especialista para saber que esse broche foi feito pelos democratas.

A campanha de George W. Bush, por outro lado, evocou a memória de uma era anterior com o retorno das letras no estilo hebreu antigo. Em sua declaração de que havia "Judeus por Bush", ele parecia afirmar que nem todos os judeus eram automaticamente democratas e que o eleitor não estaria sozinho se votasse para os republicanos. No final, entretanto, isso permaneceu como um apelo para uma minoria dentro de uma minoria.
Bush recebeu apenas 19% dos votos judeus em 2000, e só um pouco mais em 2004, 24%.

E os candidatos desse ano? John McCain tem um broche digno com uma fonte elegante. Em contraste, Barack Obama adotou um estilo novo que está na moda - chamado "chutzpadik", ou audacioso - que dispensa totalmente o inglês.

Com seu nome escrito somente em hebraico, o broche de Obama representa um verdadeiro entendido dos assuntos da comunidade. É uma piscadela inteligente para o público judeu que diz: "Você sabe que eu sei que nós somos um". E aquele que sabe, não apenas sabe, mas pode também ganhar os votos.

(Peter H. Schweitzer é rabino da Congregação para o Judaísmo Humanista da Cidade de Nova York.)

(Tradução: Eloise De Vylder)

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