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14/10/2008

Uma mudança política silenciosa à medida que os negros vencem eleições

The New York Times
Rachel L. Swarns
Em Brookline, New Hampshire
Melanie Levesque pegou os cartazes de campanha em seu utilitário esportivo da Mercedes e se misturou ao público branco de um festival anual de outono daqui. As vacas leiteiras estavam mugindo, as prensas de maça trabalhavam e Levesque, uma legisladora estadual negra, estava caçando votos e um lugar na história.

Os negros representam menos de 1% da população deste pequeno distrito suburbano perto da divisa com Massachusetts. Mas nada disso parecia importar para as pessoas presentes na feira daqui, neste mês.

Um grupo de aposentados de cabelos grisalhos prontamente convidou Levesque para um jantar. Art Fenske, um ex-soldado de 91 anos que serviu na Segunda Guerra Mundial, a presenteou com uma camiseta que dizia: "Jamais desista".

No próximo mês, Levesque, 51 anos, deverá conquistar a reeleição para sua cadeira na Câmara dos Deputados de New Hampshire, onde ela representa um dos distritos mais brancos de um dos Estados mais brancos do país. Ela faz parte de uma geração de negros eleitos que estão conquistando eleitores brancos e vencendo eleições em comunidades predominantemente brancas por todo o país.

Analistas políticos dizem que esses ganhos eleitorais estão mudando silenciosamente o cenário político, aumentando o número de legisladores negros adeptos de cruzar as fronteiras da cor assim como as fileiras de eleitores brancos que estão familiarizados, e cada vez mais à vontade, com uma liderança política negra.

As autoridades negras, que freqüentemente servem em cidades de pequeno e médio porte, foram ofuscadas pela candidatura presidencial do senador Barack Obama, que, se eleito, será o primeiro negro a ocupar a presidência.

Mas nos últimos 10 anos, cerca de 200 políticos negros conquistaram posições antes ocupadas por brancos em legislativos e prefeituras em Estados como New Hampshire, Iowa, Kentucky, Minnesota, Missouri, Carolina do Norte e Tennessee.

Em 2007, cerca de 30% dos 622 legisladores estaduais negros do país representavam distritos predominantemente brancos, em comparação a cerca de 16% em 2001, segundo dados reunidos pelo Centro Conjunto de Estudos Políticos e Econômicos, um grupo de pesquisa com sede em Washington que mantém estatísticas sobre autoridades eleitas negras há quase 40 anos.

Cientistas políticos e autoridades locais também apontam para um aumento no número de prefeitos negros que representam cidades predominantemente brancas, em lugares como Asheville, Carolina do Norte, com 74 mil habitantes, e Columbus, Ohio, com 748 mil habitantes. Segundo um estudo conduzido por Zoltan L. Hajnal, um cientista político da Universidade da Califórnia, em San Diego, cerca de 40% dos americanos viveram em cidades ou perto de cidades que elegeram prefeitos negros ou em Estados com governadores negros.

Hajnal e outros analistas disseram que ainda existe animosidade em relação a candidatos negros e que isso pode afetar os resultados de eleições locais e nacionais, incluindo a corrida presidencial. Mas ele disse que esses sentimentos estão em declínio.

"Atualmente há uma boa dose de experiência entre os eleitores brancos, o que diminuiu os temores em relação a candidatos negros", disse Hajnal, cujo livro sobre a experiência dos brancos com candidatos negros, "Changing White Attitudes Toward Black Political Leadership" (a mudança das posturas dos brancos em relação à liderança política negra), foi publicado no ano passado pela Cambridge University Press.

No festival de outono aqui em New Hampshire, os eleitores brancos encheram Levesque - um dos seis legisladores estaduais negros em New Hampshire - com perguntas sobre impostos sobre propriedade, reforma da delegacia de polícia e leis de zoneamento locais. Ninguém mencionou raça.

"É um sentimento maravilhoso", disse Levesque, que em 2006 foi a primeira afro-americana a ser eleita para representar seu distrito legislativo. "Eu me sinto como se realmente fizesse parte da minha comunidade."

Algumas das autoridades que transpuseram a divisão racial conquistaram proeminência nacional, como o governador de Massachusetts, Deval Patrick, cujo Estado é 79% branco.

No Congresso, vários legisladores negros atualmente representam distritos predominantemente brancos, incluindo os deputados Keith Ellison, de Minnesota, e Emanuel Cleaver 2º, do Missouri, democratas que foram eleitos em 2006 em distritos que são mais de 60% brancos.

"Eu tinha muita preocupação", disse Cleaver, lembrando seus temores iniciais de que os eleitores brancos, particularmente nas comunidades rurais, não o apoiariam em número suficiente para assegurar uma vitória.

"Mas a verdade é que os preconceituosos mais ferrenhos estão diminuindo em número", ele acrescentou. "Todo aquele medo - 'Será que vão atirar melancias contra nós?' - todas essas coisas desapareceram."

A mudança mais ampla vem acontecendo na esfera local.

Nos anos 80, apenas um punhado de legisladores estaduais negros representava distritos predominantemente brancos, disse David A. Bositis, o analista político sênior do Centro Conjunto de Estudos Políticos e Econômicos que conduziu o mais recente estudo a respeito dos legisladores estaduais negros.

Em 2001, esse número passou a 92, segundo Tyson King-Meadows e Thomas F. Schaller, cientistas políticos da Universidade de Maryland, em Baltimore County, que analisaram os dados do Centro Conjunto e outras fontes. Em 2007, o número subiu para 189, disse Bositis.

Cerca de 45% dos legisladores estaduais negros representam comunidades que são 35% a 40% negras nos Estados da Geórgia, Indiana e Carolina do Norte. Mas cerca de um quarto representa comunidades onde os negros correspondem a 20% ou menos da população, incluindo distritos em Kentucky, Maryland, Michigan e Tennessee.

Mas essa mudança nem sempre vem facilmente.

No Tennessee, o deputado Nathan Vaughn, que foi eleito pela primeira vez ao Legislativo em 2002 por um distrito que é 97% branco, lembra de ter estendido a mão para um homem branco durante uma de suas campanhas. Vaughn disse que o homem se recusou a lhe dar a mão, proferiu uma ofensa racial e disse que nunca votaria em um negro.

Em Iowa, Helen Miller, uma líder assistente da maioria na Câmara dos Deputados estadual, foi aconselhada por um apoiador a não incluir sua foto em seus folhetos de campanha para evitar alienar os eleitores. (Miller ignorou o conselho e em 2002 se tornou a primeira legisladora negra de seu distrito.)

Em New Hampshire, o deputado Kris E. Roberts, o primeiro presidente negro de comitê no Legislativo, disse que os legisladores brancos o confundem repetidas vezes com dois outros deputados estaduais, um negro e o outro latino. Roberts disse que leva isso na brincadeira, mas que o erro ainda persiste.

"Às vezes nos encontramos e brincamos, 'Sim, nós irmãos somos todos parecidos'", disse Roberts, um tenente coronel aposentado do Corpo de Marines e que é presidente do comitê de assuntos de veteranos da Câmara. "Mas após quatro anos, você esperaria que já percebessem a diferença."

Mike Carbone, um vereador branco aposentado de Keene, New Hampshire, que apóia Roberts e Obama, disse que o racismo ainda influencia algumas pessoas quando entram na cabine de votação.

"Nesta pequena cidade você ouve as pessoas dizerem: 'Eu nunca votaria em um negro'", disse Carbone. "Mas este homem sabe falar e fala de forma sensata", ele acrescentou, se referindo a Roberts, que está concorrendo à reeleição. "Os tempos estão mudando. Em algum momento a barreira é quebrada."

Alguns legisladores negros alertam que o apoio branco aos negros na esfera local não necessariamente se traduz em apoio a Obama.

Mas analistas políticos acreditam que a experiência com uma liderança negra na esfera local já pode ter contribuído para alguns eleitores brancos se sentirem à vontade em apoiar Obama nas primárias democratas e pode ajudá-lo novamente em novembro.

Bositis, do Centro Conjunto de Estudos Políticos e Econômicos, disse que a tendência poderá ter um amplo impacto muito além da eleição presidencial. Os Legislativos estaduais freqüentemente são trampolins para cargos mais elevados, e estes novos políticos, ele disse, poderão muito bem se transformar na próxima geração de governadores, líderes do Congresso e mais.

"Se estes candidatos negros podem representar eleitores brancos", disse Bositis, "então isso aumenta substancialmente seus horizontes em termos de futuro político".

Aqui em Brookline, Levesque ainda está concentrada em novembro, apesar de seu adversário branco, Don Ryder, acreditar que ela conquistará facilmente a reeleição. "A raça nunca entrou na disputa", disse Ryder. "As chances dela são muito boas."

Ainda assim, Levesque, uma consultora de telecomunicações que cresceu em New Hampshire, às vezes se maravilha em quão longe ela chegou.

Como uma das poucas estudantes negras em seu colégio, ela suportou provocações raciais, assim como conselhos bem intencionados, mas indesejados. Algumas amigas brancas, ela contou, sugeriam que ela teria mais facilidade para se adaptar caso rezasse para ter uma pele branca.

Mas acima de tudo, disse Levesque, ela contou com o apoio de seus vizinhos, colegas e amigos brancos. Em seu distrito de 12 mil pessoas, ela é membro do clube das mulheres e de uma igreja local, à qual se juntou com seu marido e filha de 12 anos há vários anos.

E quando ela se preocupou no início de que sua cor poderia afastar os eleitores, seus amigos brancos sugeriram que ela poderia considerar outra possibilidade, mais positiva.

"Você vai se destacar", disse Levesque, lembrando as palavras deles. "As pessoas sempre vão lembrar de você."

Kitty Bennett e Barclay Walsh contribuíram com reportagem George El Khouri Andolfato

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