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16/10/2008

Imigrantes contra imigrantes: trabalhadores latinos se ressentem dos somalis recém-chegados

The New York Times
Kirk Semple
Em Grand Island, Nebraska
Como muitos trabalhadores na fábrica de processamento de carne daqui, Raul A. Garcia, um mexicano-americano, tem assistido com certo desconforto a chegada de centenas de imigrantes somalis à cidade nos últimos dois anos, muitos deles para ocupar os empregos que antes eram dos trabalhadores latinos levados pelas batidas da imigração.

Garcia fica particularmente incomodado com a exigência pelos somalis de que recebam pausas especiais para as orações que são obrigatórias para os muçulmanos devotos. As pausas, ele disse, seriam uma inconveniência para todos os demais.

"O latino é bastante humilde", disse Garcia, 73 anos, que trabalha desde 1994 na fábrica, de propriedade da JBS U.S.A. Inc. "Mas eles são arrogantes", ele disse sobre os trabalhadores somalis. "Eles agem como se os Estados Unidos devessem a eles."

Garcia estava entre os mais de 1.000 latinos e outros trabalhadores que protestaram contra uma decisão da direção da fábrica, em setembro, de reduzir seu horário de trabalho - e seu salário - em 15 minutos para dar aos trabalhadores somalis o tempo para suas orações do anoitecer.

Após vários dias de greves e interrupções, a direção da fábrica desistiu do plano. Mas a disputa removeu uma camada de civilidade nesta cidade de 47 mil habitantes no sul de Nebraska, revelando uma tensão étnica e racial após as batidas nos locais de trabalho realizadas pelas autoridades federais de imigração.

Grand Island está entre as cerca de meia dúzia de cidades onde brotou a discórdia com a chegada dos trabalhadores somalis, muitos deles recrutados pelos empregadores de outras partes dos Estados Unidos depois que as batidas da imigração dizimaram suas forças de trabalho latinas. A maioria dos somalis está neste país legalmente, na condição de refugiados políticos e, portanto, não são perseguidos pelas autoridades de imigração.

Em alguns lugares, incluindo Grand Island, esta mais recente onda de trabalhadores imigrantes teve o efeito de unir as outras populações étnicas contra os somalis e também desviar parte da antiga hostilidade contra os imigrantes latinos entre os moradores brancos locais.

"Toda onda de imigrantes tem dificuldade para ser assimilada", disse Margaret Hornady, a prefeita de Grand Island e antiga habitante de Nebraska. "No momento, está bastante volátil."

A repressão federal aos imigrantes atingiu as fábricas de carne bovina e de frango de forma particularmente dura, com mais de 2 mil imigrantes em pelo menos nove locais detidos desde 2006 em grandes batidas, a maioria por violações de imigração.

Com dificuldade para preencher os empregos mal remunerados que atraem poucos americanos, as fábricas publicaram anúncios em jornais de imigrantes e distribuíram folhetos em bairros de imigrantes.

Algumas empresas, como a Swift & Co., que era dona da fábrica em Grand Island até ser comprada pelo conglomerado brasileiro JBS no ano passado, têm procurado particularmente os somalis por causa de seu status legal. Dezenas de milhares de refugiados somalis em fuga da guerra civil se estabeleceram nos Estados Unidos desde os anos 90, com a maior concentração em Minnesota.

Mas as empresas descobriram que ao tentarem resolver um problema, elas criaram outro.

No início de setembro, cerca de 220 muçulmanos somalis cruzaram os braços na fábrica de processamento de carne da JBS em Greeley, Colorado, dizendo que a empresa os impedia de observar seus horários de orações. (Mais de 100 dos trabalhadores foram posteriormente demitidos.)

Dias depois, uma empresa de frango em Minnesota concordou em permitir aos trabalhadores muçulmanos as pausas para oração e o direito de não terem que lidar com produtos de carne suína, resolvendo com um acordo um processo impetrado por nove trabalhadores somalis.

Em agosto, a direção de uma fábrica de processamento de frango da Tyson, em Shelbyville, Tennessee, designou como feriado remunerado um feriado muçulmano, atendendo a exigência dos trabalhadores somalis. A fábrica originalmente concordou em substituir o Dia do Trabalho pelo feriado muçulmano, mas posteriormente voltou a adotar o Dia do Trabalho após uma barragem de críticas dos não-muçulmanos.

Em alguns locais de trabalho, os muçulmanos somalis recém-chegados não protestaram contra suas condições de trabalho. Este foi o caso na Agriprocessors, a fábrica de processamento de carne kosher em Postville, Iowa, de propriedade de judeus ortodoxos. Cerca de 150 muçulmanos somalis encontraram emprego lá, a maioria deles recrutado por uma empresa de recrutamento de recursos humanos após a fábrica ter perdido cerca da metade de sua força de trabalho em maio, após uma batida da imigração.

Jack Shandley, um vice-presidente sênior da JBS U.S.A., disse em uma mensagem por e-mail que "integrar pessoas de culturas diferentes apresenta regularmente questões novas e diferentes".

"A acomodação religiosa é apenas uma das questões de diversidade no local de trabalho que foram tratadas", ele disse.

Em todo o país, as queixas de discriminação no local de trabalho por trabalhadores imigrantes mais que dobraram na última década, de 285 no ano fiscal de 1998 para 607 no ano fiscal de 2007, segundo a Comissão Federal de Oportunidades Iguais de Trabalho, que enviou representantes a Grand Island para entrevistar os trabalhadores somalis.

A Lei de Direitos Civis de 1964 proíbe que os empregadores discriminem com base na religião e diz que os empregadores devem "acomodar de forma razoável" as práticas religiosas. Mas a lei oferece algumas exceções, incluindo os casos em que os ajustes causem "dificuldades indevidas" aos interesses de negócios da empresa.

As novas tensões aqui se estendem muito além das paredes da fábrica. Há ressentimento, desconforto e desconfiança por toda parte sob a superfície de Grand Island, dizem alguns moradores - entre a comunidade branca e as várias comunidades de imigrantes; entre as comunidades de imigrantes mais antigas, como a dos latinos, e as mais novas, como os somalis e sudaneses, outra comunidade de refugiados que cresceu aqui nos últimos anos; e entre os somalis, que são na maioria muçulmanos, e os sudaneses, que são na maioria cristãos.

Em dezenas de entrevistas aqui, brancos, latinos e outros moradores pareciam perplexos em relação aos somalis, cuja maioria não fala inglês.

"Eu meio que admiro o esforço que fazem para seguir sua religião, mas às vezes é preciso se adaptar ao local de trabalho", disse Fidencio Sandoval, um trabalhador da fábrica nascido no México e que se naturalizou americano. "Uma nova cultura chega já exigindo e dizendo 'Isto é o que queremos'. Isso é algo novo para mim."

Hornady, a prefeita, sugeriu meio que se desculpando que está tendo dificuldade para se ajustar à presença dos somalis. Ela disse que considera a visão das mulheres somalis, muitas delas usando os lenços de cabeça muçulmanos, ou hijabs, "assustadora".

"Lamento, mas após o 11 de Setembro, isso incomoda alguns de nós", ela disse.

Não apenas os hijabs sugerem submissão feminina, ela disse, mas a visão de muçulmanos na cidade a faz pensar em Osama Bin Laden e nos ataques contra os Estados Unidos.

"Eu sei que é horrível e que é preconceito", ela disse. "Eu estou me esforçando para superar."

Ela acrescentou: "Muitos americanos não estão lidando com isso?"

Por sua vez, os somalis dizem que se sentem discriminados e não particularmente bem-vindos.

"Muita gente olha para você de forma estranha, julgando", disse Abdisamad Jama, um somali de 22 anos que se mudou para Grand Island há dois anos para trabalhar como intérprete na fábrica e agora trabalha como freelancer. "Ou às vezes eles dizem: 'Volte para o seu país'."

Fundada na metade do século 19 por imigrantes alemães, Grand Island gradualmente se tornou mais diversa em meados e final do século 20, com a chegada dos trabalhadores latinos, principalmente os mexicanos.

Os latinos vieram inicialmente para trabalhar nos campos agrícolas; os que chegaram posteriormente encontraram emprego na fábrica de processamento de carne. Refugiados do Laos e, nos últimos anos, do Sudão se seguiram, e muitos deles também encontraram emprego na fábrica, que atualmente é a maior empregadora da cidade, com cerca de 2.700 funcionários.

Em dezembro de 2006, em um evento que afetaria profundamente a cidade e alteraria seu equilíbrio desconfortável de etnias, as autoridades de imigração realizaram uma batida na fábrica e detiveram mais de 200 trabalhadores latinos sem documentos. Cerca de outros 200 trabalhadores pediram demissão logo depois.

A batida foi uma das seis realizadas por agentes federais a fábricas de propriedade da Swift, privando a empresa de cerca de 1.200 trabalhadores em um mesmo dia e forçando as fábricas a reduzirem suas operações.

Muitos dos somalis que posteriormente chegaram para preencher essas vagas eram muçulmanos devotos e sua fé os obriga a rezar cinco vezes ao dia em horários determinados. Em Grand Island, os trabalhadores faziam suas orações quando possível, durante as pausas previstas de descanso ou nas pausas para ir ao banheiro. Mas durante o mês sagrado do Ramadã, os muçulmanos jejuam durante o dia e quebram seu jejum em uma cerimônia ritualística ao anoitecer. Uma acomodação mais formal de suas necessidades era necessária, disseram os trabalhadores somalis.

No ano passado, os somalis daqui exigiram uma pausa para a cerimônia do Ramadã, mas a empresa rejeitou, dizendo que não podia arcar com tantos trabalhadores deixando ao mesmo tempo a linha de produção. Dezenas de somalis pediram demissão, apesar de no final terem retornado ao trabalho.

A situação se repetiu em setembro. Dennis Sydow, o vice-presidente e gerente geral da fábrica, disse que uma delegação de trabalhadores somalis o procurou em 10 de setembro para pedir se podiam transferir o horário de jantar para as 19h30, perto do anoitecer, em vez do horário normal, das 20h às 20h30.

Sydow rejeitou o pedido, dizendo que a linha de produção seria desacelerada demais e os colegas de trabalho dos somalis teriam injustamente que compensar o atraso. Os somalis disseram que seus colegas de trabalho não ofereceram muito apoio. "Os latinos às vezes diziam: 'Não rezem, não rezem'", disse Abdifatah Warsame, 21 anos.

Após a greve dos somalis em 15 de setembro, a direção da fábrica e o sindicato chegaram a um acordo no dia seguinte para mudança do horário de jantar para as 19h45, perto o suficiente do anoitecer para atender os somalis. Devido às complexas regras de horário da fábrica, o novo horário de jantar também exigiria um fim antecipado do turno, potencialmente reduzindo o dia de trabalho em 15 minutos.

A notícia do acordo se espalhou rapidamente pela força de trabalho não-somali, apesar dos relatos estarem repletos de falsos rumores de aumentos salariais para os somalis e reduções salariais mais severas para todos.

Em um contraprotesto em 17 de setembro, mais de 1.000 trabalhadores latinos e sudaneses ficaram ao lado dos trabalhadores brancos em oposição às concessões aos somalis.

"Nós recebemos queixas dos brancos, latinos e sudaneses", disse Abdalla Omar, 26 anos, um dos grevistas somalis.

O sindicato e a direção da fábrica recuaram, retornando ao horário de jantar original. Mais de 70 somalis, incluindo Omar e Warsame, deixaram a fábrica e não voltaram; eles pediram demissão ou foram demitidos.

De lá para cá, o Ramadã acabou e o trabalho retornou ao normal na fábrica, mas quase todos - direção, sindicato e funcionários - dizem que as causas da confusão ainda não foram plenamente tratadas. Um contingente considerável de somalis continua empregado na fábrica - os líderes somalis dizem que o número é de aproximadamente 100; o sindicato coloca o número em mais de 300 - o que torna problemas semelhantes possíveis no próximo ano.

"No momento, é uma verdadeira caixa de lenha", disse Daniel O. Hoppes, presidente da divisão local do sindicato, o United Food and Commercial Workers.

Xawa Ahmed, uma somali de 48 anos, se mudou de Minnesota para Grand Island em setembro para ajudar a organizar a comunidade somali. Grande parte de seu trabalho, ela disse, será ajudar a desmistificar os somalis que permaneceram.

"Nós estamos tentando fazer as pessoas entenderem por que fazemos estas coisas, por que praticamos esta religião, por que vivemos na América", ela disse. "Há muito mal-entendido." George El Khouri Andolfato

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