UOL Notícias Internacional
 

17/10/2008

Krugman: hora de gastar o dinheiro público

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
O Dow está subindo! Não, está caindo! Não, está subindo! Não, está...

Deixe para lá. Enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante é a grave notícia sobre a economia real. Agora está claro que o resgate aos bancos é apenas o começo: a economia não financeira também está precisando desesperadamente de ajuda.

E para fornecer essa ajuda, nós teremos que colocar alguns preconceitos de lado. Está politicamente na moda se queixar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas no momento, maiores gastos do governo é exatamente o que o médico recomenda, e as preocupações com o déficit orçamentário devem esperar.

Antes que eu possa falar disso, vamos falar sobre a situação econômica.

Apenas nesta semana, nós soubemos que as vendas no varejo despencaram de um penhasco, assim como a produção industrial. O desemprego está em níveis elevados de recessão, e o índice manufatureiro do Fed da Filadélfia está caindo no ritmo mais rápido em quase 20 anos. Todos os sinais apontam para uma recessão que será feia, brutal - e longa.

Quão feia? A taxa de desemprego já está acima de 6% (e medições mais amplas de subdesemprego estão em dois dígitos). Agora é virtualmente certo que a taxa de desemprego ultrapassará 7%, e possivelmente 8%, tornando esta a pior recessão em um quarto de século.

E quão longa? Poderá ser muito longa.

Pense no que aconteceu na última recessão, que se seguiu ao estouro da bolha de tecnologia do final dos anos 90. Na superfície, a resposta política para aquela recessão parece uma história de sucesso. Apesar dos amplos temores de que os Estados Unidos experimentariam uma "década perdida" ao estilo japonês, isso não aconteceu: o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) conseguiu promover uma recuperação daquela recessão ao reduzir as taxas de juros.

Mas a verdade é que estamos parecendo japoneses há algum tempo: o Fed teve dificuldade para conseguir tração. Apesar das repetidas reduções dos juros, que no final levaram a uma taxa dos fundos federais de apenas 1%, a taxa de desemprego continuou subindo; foram necessários mais de dois anos para que o quadro do emprego começasse a melhorar. E quando uma recuperação convincente finalmente chegou, foi apenas porque Alan Greenspan conseguiu substituir a bolha de tecnologia pela bolha imobiliária.

Agora a bolha imobiliária estourou, deixando uma paisagem financeira repleta de escombros. Mesmo se os esforços em andamento para resgatar o sistema bancário e descongelar o mercado de crédito funcionarem -e apesar de ainda ser cedo, os resultados iniciais são decepcionantes- é difícil ver o setor imobiliário se recuperando tão cedo. E se há outra bolha a caminho, ela não é óbvia. De forma que o Fed terá ainda mais dificuldade para conseguir tração desta vez.

Em outras palavras, não há muito o que Ben Bernanke possa fazer pela economia. Ele pode e deverá reduzir ainda mais as taxas de juros - mas ninguém espera que isso faça mais do que fornecer um leve estímulo econômico.

Por outro lado, há muito o que o governo federal pode fazer pela economia. Ele pode ampliar os benefícios aos desempregados, o que ajudaria tanto as famílias em dificuldades a sobreviverem e colocaria dinheiro nas mãos de pessoas que provavelmente o gastarão. Pode fornecer ajuda de emergência aos governos estaduais e locais, para que não sejam forçados a cortar ainda mais seus gastos, o que degrada os serviços públicos e destrói empregos. Ele pode comprar hipotecas (mas não pelo valor nominal, como propôs John McCain) e reestruturar os termos para ajudar as famílias a permanecerem nos seus lares.

E este é um bom momento para promover sérios gastos em infra-estrutura, algo que de toda forma o país seriamente necessita. O argumento habitual contra obras públicas como estímulo econômico é que demoram muito: quando se chega de fato a reparar aquela ponte e a atualizar aquela linha ferroviária, a recessão já passou e o estímulo não é mais necessário. Bem, esse argumento não tem força agora, já que as chances de que esta recessão acabe tão cedo são virtualmente nulas. Então vamos botar esses projetos em andamento.

Será que o próximo governo fará o que é necessário para lidar com a recessão? Não se McCain conseguir uma virada. O que precisamos agora é de mais gastos do governo - mas quando McCain foi perguntado em um dos debates sobre como lidaria com uma crise econômica, ele respondeu: "Bem, a primeira coisa que temos que fazer é colocar os gastos sob controle".

Se Barack Obama se tornar presidente, ele não terá a mesma oposição automática a gastar. Mas ele enfrentará um coro de tipos lhe dizendo que precisa ser responsável, que os grandes déficits que o governo administrará no próximo ano se fizer a coisa certa são inaceitáveis.

Ele deve ignorar o coro. A coisa responsável, no momento, é dar à economia a ajuda que necessita. Agora não é hora de se preocupar com déficit. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host