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19/10/2008

Documentos dizem que Irã auxiliou milícias iraquianas

The New York Times
Por Mark Mazzetti
Em Washington
Eles acordam antes do amanhecer, com tempo para fazer exercícios, comer e rezar antes da primeira aula do dia sobre como atirar com rifles Kalashnikov.

Durante as oito horas seguintes, praticam usando bazucas ou colocando bombas ao longo das sarjetas, com um intervalo para o almoço e instrução religiosa obrigatória.

À noite há tempo livre para assistir televisão ou jogar pingue-pongue.

As luzes se apagam às 23h.

Este é um dia típico numa base militar empoeirada fora de Teerã, no Irã, onde durante os últimos anos membros da Força Quds da Guarda Revolucionária Iraniana e integrantes do Hezbollah libanês vêm treinando xiitas iraquianos para lançar ataques contra as forças americanas no Iraque, de acordo com informações dadas a interrogadores americanos por guerrilheiros iraquianos capturados.

Oficiais americanos há tempos citam o treinamento e armas iranianos como responsáveis pelos ataques letais de guerrilheiros xiitas no Iraque. Oficiais iranianos negam que esse tipo de treinamento exista.

Agora, mais de 80 páginas de documentos secretos divulgados pela primeira vez descrevem em detalhes uma elaborada rede usada pelos iraquianos para entrarem no Irã e treinarem sob supervisão iraniana.
Este é o relato mais abrangente já feito para apoiar as alegações americanas em relação aos esforços iranianos para construir uma força por procuração no Iraque. Essas alegações tornaram-se altamente politizadas, com críticos do governo Bush acusando de exagerados os relatos sobre o envolvimento iraniano.

Os relatos dos prisioneiros não podem ser verificados isoladamente.
Ainda assim, os detentos forneceram detalhes bastante similares sobre os campos de treinamento no Irã, uma rede clandestina de casas seguras no Irã e no Iraque que usavam para chegar aos campos, e as tensões entre as facções xiitas de árabes iraquianos e seus treinadores persas iranianos.

Apesar de os ataques contra americanos feitos por milícias xiitas terem diminuído bastante este ano, militares e oficiais de inteligência dizem que há evidências de que as milícias, algumas delas conhecidas como "grupos especiais", estão agora retornando ao Iraque para perturbar as eleições próximas e intimidar os moradores. O major general Jeffery W. Hammond, comandante das forças americanas em Bagdá, disse recentemente que acredita que alguns dos guerrilheiros das milícias voltaram para a capital nas últimas semanas.

Os documentos, compilados pelo Centro de Combate ao Terrorismo em West Point, são uma coleção de relatórios de interrogatórios baseados nos depoimentos de mais de duas dúzias de guerrilheiros xiitas capturados no Iraque em 2007 e 2008. O centro é uma organização de pesquisa que compila e analisa documentos de inteligência relacionados à Al Qaeda, Iraque, Irã e outros assuntos.

Os documentos retratam a estratégia iraniana de usar os xiitas iraquianos como substitutos, em parte para evitar o risco de que os iranianos sejam capturados no Iraque. Num dos relatórios de inteligência, um prisioneiro diz aos homens que o "Irã não quer lutar uma guerra direta" com as forças americanas no Iraque porque Teerã teme que os Estados Unidos possam destruir o Irã.

Oficiais de inteligência americanos acreditam que depois que um punhado de integrantes da Guarda Revolucionária Iraniana foi capturado em Bagdá em 2006, o Irã mudou sua estratégia, levando apenas pequenos grupos de iraquianos para o Irã. Os iraquianos são então enviados de volta para seu país para treinarem quadros maiores de militantes xiitas.

Um oficial sênior da inteligência americana disse que havia indicações de que os programas de treinamento no Irã podem ter se expandido significativamente este ano para acomodar os guerrilheiros iraquianos que fugiram do Iraque durante as campanhas militares iraquianas em Basra e Bagdá.

Brian Fishman, diretor de pesquisas no Centro de Combate ao Terrorismo e co-autor de um novo estudo sobre a influência política e militar do Irã no Iraque, disse que mesmo que o Irã não esteja no comando direto das milícias no Iraque, o treinamento foi um dos meios disponíveis para o Irã aumentar ou diminuir sua influência no Iraque de acordo com sua vontade.

"Ter as milícias como aliadas é uma garantia", diz ele. "Se as coisas se voltaram politicamente contra o Irã, isso dá a eles uma alavanca para puxar."

Oficiais americanos dizem que ainda não está claro se os altos oficiais iranianos têm um papel direto no treinamento, apesar de acreditarem que isso acontece no mínimo com a aprovação tácita de integrantes do governo iraniano. Os documentos não oferecem nenhuma evidência direta de que altos oficiais do governo iraniano supervisionem o treinamento.

O novo estudo iraniano, escrito por Fishman e pelo coronel Joseph H.
Felter, conclui que o Irã tem como objetivo atacar as tropas americanas no Iraque em parte para mostrar suas habilidades e também para "demonstrar uma possível retaliação contra um ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã".

Os prisioneiros deram descrições detalhadas de rotinas diárias nos campos iranianos, desde a intensidade dos treinamentos com armas até queixas mais mundanas da vida militar. Um dos capturados iraquianos descreveu uma mini-revolta entre os guerrilheiros porque eles não receberam meias para usar com suas botas militares.

Os documentos também revelam fissuras étnicas profundas entre os xiitas iranianos e iraquianos. Os iraquianos reclamaram que seus treinadores iranianos não os respeitavam devidamente e que fizeram comentários depreciativos em relação a Muqtada al-Sadr, o clérigo xiita iraquiano que liderou um movimento de resistência anti-americano no Iraque.

"Os Shia iraquianos são superiores aos iranianos porque os Shias iraquianos são morais, bons, compassivos e emocionalmente sensíveis", disse um dos detentos. "Os iranianos não são morais, não são sensíveis e acreditam que são superiores a todo mundo."

Por contraste, os iraquianos dizem que tendem a formar ligações mais fortes com os guerrilheiros do Hezbollah libanês, árabes que falam a mesma língua que os iraquianos.

Depois de selecionados para treinamento no Irã, alguns dos guerrilheiros disseram a suas famílias que estavam indo para a cidade iraquiana de Najaf para ajudar a proteger os templos xiitas sagrados.

Normalmente, eles iam até Amara, uma cidade no leste do Iraque próxima da fronteira iraniana. Lá, encontravam com um contato numa garagem local, onde recebiam pequenas somas de dinheiro e eram colocados em casas seguras na cidade.

Depois de um dia ou dois, os que tinham passaportes cruzavam a fronteira iraniana de ônibus ou táxi para cidades do oeste do Irã como Ahvaz ou Kermanshah. Um detento relatou que o treinamento iraniano era normalmente marcado para datas próximas aos grandes feriados xiitas, quando um grande número de peregrinos cruzava a fronteira e havia mais chances de que a movimentação dos guerrilheiros passasse despercebida.

Os que não tinham passaportes eram normalmente levados de carro à noite até manguezais onde embarcavam em barcos de remo para serem transferidos para o outro lado da fronteira onde eram esperados por um veículo.

Depois de passar a noite em Ahvaz ou Kermanshah, os guerrilheiros em treinamento eram levados a um aeroporto local e voavam para Teerã, onde eram pegos e levados para uma base militar a algumas horas da cidade. Vários dos detentos identificaram o campo como sendo a base militar de Sayid al-Shahada.

Uma vez na base, os guerrilheiros recebiam um "agasalho, tênis, toalha e comida militar", disse um dos prisioneiros.

"A geladeira estava cheia com bastante comida e frutas", disse.

Eles passaram o mês seguinte treinando para usar armas de fogo de pequeno calibre, morteiros e armas anti-aéreas, e aprendendo como realizar emboscadas. Eles tiveram aulas de camuflagem e instrução religiosa diária.

Alguns guerrilheiros participaram de um "curso de engenharia" especial que treinava os militantes para instalar bombas de sarjeta. Mas apenas os guerrilheiros "inteligentes" podiam participar do treinamento em engenharia, de acordo com um dos presos que disse que não foi considerado inteligente o suficiente para o treinamento especializado.

"Se você não é inteligente, ninguém vai gastar tempo e recursos para mandá-lo ao Irã para treinar para ser um engenheiro, porque você irá falhar", diz um dos relatórios de interrogatório. "O detento não ligava para o treinamento de engenharia e não queria voltar para o Irã porque o treinamento era uma perda de tempo e ele tinha de abandonar sua família por nada."

Outros prisioneiros também tinham a mesma visão pessimista do treinamento, dizendo aos interrogadores americanos que um curso de treinamento dirigido por integrantes do Hezbollah no Líbano era muito superior ao treinamento no Irã.

Para chegar ao treinamento no Líbano, disseram os detentos, os iraquianos eram levados de ônibus até um aeroporto no Irã, de onde voavam para Damasco, na Síria, onde eram pegos e levados para a fronteira libanesa. Uma vez no Líbano, disseram, eles participaram de várias semanas de treinamento, liderado por integrantes do Hezbollah, em "controle de inventário de armas", "planejamento de projetos" e comunicações.

Os guerrilheiros iraquianos que não foram para o Líbano tiveram tempo para fazer turismo durante os dias que sobraram no Irã, disseram. Alguns foram para Teerã visitar templos religiosos em torno da capital. Outros viajaram para a cidade iraniana de Mashhad para fazer compras, visitar os jardins turísticos ou o zoológico. Eloise De Vylder

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